O câncer colorretal tem alta incidência, sendo a segunda causa de óbitos nos Estados Unidos (cerca de 51 mil por ano). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) estima 36.360 novos casos por ano para o biênio 2018-2019, [1] com incidência de 34,73 para 100 mil habitantes.
Este tipo de câncer é o 3º mais frequente entre homens e o 2º entre mulheres (excetuando os tumores de pele). Em 2017, 16.696 pessoas morreram de câncer colorretal no Brasil. Este é o 3º tipo de câncer mais comum no mundo e o 4º em mortalidade, com mais de 1.400.000 casos e 700.000 mortes todos os anos.
Recentemente, o tema voltou à tona quando o famoso ator norte-americano Will Smith, que acaba de completar 50 anos, resolver fazer um vlog ( https://goo.gl/BUjQW8 ) mostrando os "bastidores" do seu exame de colonoscopia, que acabou revelando um pólipo pré-maligno. O vídeo tem circulado em grupos de [WhatsApp de] pacientes e médicos ligados à área de câncer colorretal, e já atingiu mais de duas milhões de visualizações no YouTube.
Ainda não é possível determinar se haverá um "efeito Will Smith", mas sabemos que compartilhamentos como esse podem sim aumentar a procura por exames, como ocorreu quando, em 2013, a atriz Angelina Jolie tornou pública a sua cirurgia redutora de risco de câncer de mama e comprovadamente houve um aumento significativo da procura por testes genéticos para os genes BRCA1 e 2.
Esta não é a primeira vez que ocorre algo assim nos EUA em relação ao câncer colorretal. No final dos anos 90, a famosa jornalista norte-americana Katie Couric (1ª âncora de um telejornal noturno entre as 3 principais TVs americanas) fez uma transmissão na televisão de sua colonoscopia, causando o que ficou conhecido como Katie Couric effect, dobrando o número de exames preventivos realizados após a divulgação.
A iniciativa de Will Smith tem outros desdobramentos interessantes, ampliando a diversidade dessa campanha de prevenção, pois ele é negro, famoso e carismático, e estamos em um tempo em que o alcance de um vídeo como esse é muito maior do que uma transmissão na televisão norte-americana, como foi o caso da Katie Couric. Além disso, o câncer colorretal é diagnosticado mais tardiamente entre afro-americanos, que acabam sofrendo com taxas de mortalidade mais altas.
Resumindo, realmente existe a possibilidade de aumentar a procura por exames preventivos, superando a resistência e os preconceitos relacionados com este exame.
O câncer colorretal é uma doença multifatorial influenciada por fatores genéticos, ambientais e relacionados com o estilo de vida. Os fatores hereditários, como o histórico familiar de câncer de cólon e reto, e as doenças inflamatórias do intestino, representam apenas uma pequena parte dos casos.
A piora da qualidade nutricional no Ocidente e nos países em desenvolvimento contribui para o aumento de casos. Assim, os fatores de risco ligados ao estilo de vida são modificáveis e incluem: consumo de bebidas alcoólicas, ingestão insuficiente de frutas e vegetais, consumo elevado de carnes vermelhas, gorduras e de alimentos processados, bem como obesidade, tabagismo e sedentarismo.
Em 2018 a American Cancer Society (ACS)[2]reduziu a idade recomendada para iniciar o rastreio em indivíduos de risco médio para 45 anos. A detecção precoce e a remoção de pólipos adenomatosos e outras lesões pré-cancerígenas reduz a mortalidade através da redução da incidência e do diagnóstico precoce.
A ACS recomenda que preferencialmente os pacientes façam um exame fecal de alta sensibilidade para sangue oculto uma vez por ano ou que realizem uma colonoscopia de 10 em 10 anos, dependendo da disponibilidade e da preferência do paciente. Caso o exame fecal revele sangue oculto, a colonoscopia deve ser feita em seguida.
Mais recentemente, o American College of Physicians (ACP)[3] publicou diretrizes recomendando que os médicos indiquem rastreamento de câncer colorretal para pessoas com risco intermediário entre 50 e 75 anos de idade, ressaltando que, caso a expectativa de vida do paciente seja < 10 anos, o rastreamento seja interrompido. A indicação de rastreamento deve pesar riscos, benefícios, custos, disponibilidade do exame e preferência dos pacientes. Sugerem preferencialmente sangue oculto de alta sensibilidade a cada dois anos, colonoscopia a cada 10, ou sigmoidoscopia flexível com sangue oculto a cada dois anos.
Agora em novembro de 2019 um grupo internacional de especialistas, incluindo grupos de defesa dos direitos dos pacientes, publicou uma extensa revisão das diferentes diretrizes existentes no periódico British Medical Journal,[4] acrescentando as próprias recomendações práticas para indivíduos entre 50 e 79 anos sem história de rastreamento prévio, sem sinais ou sintomas de câncer colorretal e expectativa de vida de 15 anos.
Os especialistas sugerem não fazer rastreamento se o risco de doença em 15 anos for < 3%, e para isso eles recomendam o uso de uma calculadora de risco chamada QCancer®(15yr, colorectal) risk calculator, disponível em http://qcancer.org/15yr/colorectal.
Pessoas com menos de 50 anos raramente apresentam risco > 3% em 15 anos. Para as que têm risco em 15 anos > 3%, independentemente da idade, os especialistas recomendam sangue oculto de alta sensibilidade ou sangue oculto a cada dois anos uma sigmoidoscopia ou uma colonoscopia como referência. As recomendações subsequentes dependerão desta primeira avaliação, mas no texto se considera aceitável repetir os exames invasivos em até 15 anos.
Independentemente das controvérsias e diferenças entre as diretrizes existentes, a pesquisa de sangue oculto nas fezes é o método ideal de rastreamento populacional, servindo como um teste de triagem para a colonoscopia, exame mais invasivo, de custo mais alto e que exige um preparo intestinal mais trabalhoso.
No Brasil há uma grande dificuldade de acesso aos exames de rastreio, e mesmo os pacientes que apresentam sangramento intestinal chegam a esperar mais de seis meses no Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir realizar um exame.
A maior conscientização dos profissionais de saúde para indicar o rastreamento, e o estímulo a hábitos de vida mais saudáveis podem contribuir para melhorar este quadro.
Você já pediu um sangue oculto ou uma colonoscopia hoje? Pense nisso. O Will Smith já fez. Eu já fiz. E você?
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Citar este artigo: O rastreio do câncer colorretal pode salvar uma vida (a sua inclusive) - Medscape - 2 de dezembro de 2019.
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