COMENTÁRIO

Avaliação da atividade física: Como as tecnologias móveis podem auxiliar o médico?

Dr. Fabiano M. Serfaty

Notificação

31 de outubro de 2019

Dr. Fabiano Serfaty: Olá, eu sou Fabiano Serfaty, clínico endocrinologista,

Recentemente, tive o prazer de conversar com o professor Jader Sant' Ana, mestre, doutorando em biodinâmica do desempenho humano e pesquisador associado ao grupo de Biodinâmica do Desempenho Humano GPBIO/UFSC e ao laboratório de biomecânica da Universidade Federal da Santa Catarina (UFSC) sobre atividade física e soluções que podem auxiliar o médico na avaliação dos pacientes. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Dr. Fabiano Serfaty: Eu gostaria de iniciar com a questão sobre o conceito de parâmetros fisiomecânicos: qual é a importância na prática clínica de obter esses indicadores?

Jader Sant' Ana: Essa é uma pergunta muito interessante e que tem sido cada vez mais abordada na literatura. O termo fisiomecânico se refere aos indicadores fisiológicos da capacidade cardiorrespiratória associados e responsivos à capacidade funcional, mecânica ou neuromuscular do paciente. Estes parâmetros fisiomecânicos, estão diretamente associados à condição cardiorrespiratória do paciente, sendo determinados de forma individualizada, com base na capacidade funcional para quem pretende iniciar um programa de exercícios físicos. Então, é muito importante identificar estes parâmetros ou, se possível, estimar e/ou calcular de forma indireta com base em métodos validados cientificamente, principalmente para que se tenha mais êxito na prescrição e para que se possa obter uma melhor resposta e promover adaptação cardiorrespiratória de acordo com a intervenção.

A capacidade cardiorrespiratória de cada indivíduo é determinada biologicamente (genética) e também é responsiva, sendo influenciada por idade, hábitos e estilo de vida ativo ou sedentário. Ter o diagnóstico de parâmetros capazes de caracterizar, discriminar e até auxiliar no controle por meio de uma intervenção específica e segura pode ser determinante para saúde, longevidade e redução dos riscos de doenças associadas a baixa capacidade cardiorrespiratória.

Dr. Fabiano Serfaty: Como é possível avaliar a capacidade cardiorrespiratória na prática clínica?

Jader Sant' Ana: Na prática, tanto em laboratório científico, como no âmbito clínico, o diagnóstico da capacidade cardiorrespiratória é determinado por instrumentações consideradas padrã-ouro para se obter indicadores fisiológicos de carga interna – como ergoespirômetro, lactímetro e eletrocardiograma (ECG) – capazes de caracterizar tanto parâmetros da capacidade como da potência aeróbias do paciente, e que podem ser empregadas em intervenções práticas para melhora da aptidão aeróbia. Alguns exemplos de parâmetros que podem ser determinados são: consumo máximo de oxigênio (VO2máx), frequência cardíaca máxima (FCmáx), limiar anaeróbio (LAn) e limiar aeróbio, determinados de forma direta, por medidas de lactato, ou indireta, pelos limiares ventilatórios e/ou valores de frequência cardíaca associados a estes parâmetros.

Além disso, é muito importante determinar parâmetros mecânicos ou funcionais associados aos indicadores fisiológicos, pois as respostas de estresse orgânico e fisiológico internos, são sempre suscetíveis e responsivas à carga externa à qual o indivíduo é submetido. Alguns exemplos de parâmetros são: intensidade indicadora da potência aeróbia ou máximo esforço capaz de ser realizado durante um teste no qual são obtidas VO2máx e FCmáx (IVO2máx, IFCmáx). Um exemplo seria a velocidade máxima (Vmáx) atingida em um teste de esforço máximo em uma esteira ergométrica; outro parâmetro é a intensidade associada ao limiar anaeróbio (ILAn), no exemplo do teste de esforço máximo em uma esteira ergométrica, seria a velocidade de limiar anaeróbio (VLan).

Dr. Fabiano Serfaty: Você pode explicar um pouco mais sobre os principais parâmetros fisiológicos a serem identificados para o diagnóstico e para intervenção aeróbia?

Jader Sant' Ana: Vamos lá: os dois principais índices fisiológicos aeróbios – que devem ser obtidos durante uma avaliação cardiorrespiratória com o intuito de obter um diagnóstico da aptidão aeróbia, e assim, caracterizar de forma específica as intensidades mais adequadas para intervenção – são o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) e o limiar anaeróbio (LAn). O primeiro, conforme mencionado anteriormente, é obtido de forma direta, com uso da técnica de ergoespirometria em um teste de esforço máximo, e representa a máxima capacidade do indivíduo em captar, transportar e utilizar o oxigênio como energia, sendo um indicador da potência aeróbia – classicamente considerada como a principal variável associada com a aptidão aeróbia e como um bom indicador da saúde cardiorrespiratória. O segundo, o limiar anaeróbio, é determinado com medidas de amostras de lactato sanguíneo, também durante um teste de esforço máximo. O LAn é a intensidade de esforço, onde o nível de lactato sanguíneo apresenta um ponto de quebra de linearidade e vem a se acumular de forma mais intensa do que vinha apresentando em intensidades de esforço mais leves. Em intensidades de esforço abaixo do LAn, há um equilíbrio entre a velocidade de remoção e de produção do lactato. Por isto é fundamental obter este parâmetro, uma vez que valores altos de lactato estão diretamente associados ao aumento da acidose metabólica relacionado com uma maior concentração de íons H+ e, consequentemente, a fadiga e a redução da capacidade funcional para sustentar o esforço. Por isto, esta variável é a principal medida indicadora de capacidade aeróbia do indivíduo. Além disso, esta variável determina o limiar de transição fisiológica (LTF) do paciente e, desta maneira, é capaz de caracterizar de forma precisa os domínios fisiológicos do esforço físico

Adicionalmente, os valores de frequência cardíaca máxima e associados ao LAn, podem ser determinados para fornecer uma variável fisiológica de carga interna individualizada para cada paciente em resposta à carga externa impostas durante o teste de esforço, e, desta maneira, podem ser usadas no controle e monitoramento específico durante as sessões de intervenção. Aqui, ainda é importante ressaltar o quanto esta variável determinada em um diagnóstico individualizado ao realizar o teste de esforço pode diferir das obtidas por meio de equações de predição, em alguns casos podendo apresentar valores com diferenças de até 20 batimentos por minuto para os valores obtidos diretamente em relação aos preditos por equações com base na idade do paciente, afim de estimar esta variável.

Dr. Fabiano Serfaty: Existe alguma alternativa para determinar estes parâmetros que também possa ser aplicada no consultório com o paciente?

Jader Sant' Ana: Sim, existem aparelhos portáteis, métodos não invasivos e a possibilidade de usar a tecnologia móvel associada aos dispositivos wearable que permitem medir alguns destes parâmetros diretamente e estimar outros.

Dr. Fabiano Serfaty: Interessante. Conte mais, como as tecnologias móveis e os dispositivos wearable podem auxiliar neste diagnóstico?

Jader Sant' Ana: Bem, atualmente existe uma grande variedade de wearables e de sensores que permitem cada vez mais a aquisição de métricas, dados biológicos, mecânicos e de rastreamento em tempo real. Essas tecnologias e a possibilidades de fornecimento da informação deste dado biológico, bem como de tratamento e incorporação de dados e métodos científicos em algoritmos por meio da integração do uso da tecnologia móvel aumentou a aplicabilidade destas tecnologias, seja em testes diagnósticos, no controle de indicadores de saúde, no treinamento de atletas, na tomada de decisão de maneira eficiente, auxiliando a performance esportiva e as intervenções de programas de atividade. Alguns dos sensores disponíveis no mercado atualmente, apresentam uma excelente precisão e validade científica para determinar diretamente a frequência cardíaca. Então, ao associar alguns destes sensores à algumas tecnologias móveis disponíveis atualmente que integram equações de estimativas oriundas de estudos científicos, além de fornecer medidas diretas da frequência cardíaca, permitem obter valores estimados de VO2máx e determinar, por meio de métodos científicos, o limiar anaeróbio e todas as variáveis mecânicas ou neuromusculares associadas a capacidade e potência aeróbias ao realizar um teste máximo ou submáximo com o paciente. Algumas destas variáveis podem ser estimadas até mesmo em repouso, por meio da integração de variáveis como sexo, idade e frequência cardíaca de repouso ou da variabilidade da frequência cardíaca.

Dr. Fabiano Serfaty: É possível então ter parâmetros diagnósticos e para intervenção cardiorrespiratória com auxílio das tecnologias móveis e wearables?

Jader Sant' Ana: Sim, e aqui temos uma outra grande vantagem destas novas tecnologias: a velocidade da entrega destes parâmetros diagnósticos, prontos imediatamente ao final do teste e disponibilizados via aplicativo no smartphone do paciente.

Dr. Fabiano Serfaty: Quais outras vantagens que estas tecnologias podem trazer ao profissional e para o paciente?

Jader Sant' Ana: Um outro grande diferencial é que estas tecnologias, além de determinar e controlar parâmetros diagnósticos cardiorrespiratórios, podem servir para orientar e controlar todo o período de intervenção, auxiliando na orientação para uma intervenção específica com base na capacidade individual do paciente, e ainda armazenando dados das sessões, como frequência cardíaca máxima e média, tempo e intensidade relativa e gasto calórico de cada sessão realizada. Isso, aumenta de forma substancial o controle e o sucesso da intervenção proposta, bem como o comprometimento do paciente em cumprir e seguir as orientações e prescrições.

Dr. Fabiano Serfaty: Você acredita que estas ferramentas também podem aumentar a efetividade de sucesso em tratamentos clínicos, como os de obesidade e síndrome metabólica?

Jader Sant' Ana: Com certeza, porque um dos problemas associados a obesidade e a síndrome metabólica é a ausência de atividades físicas orientadas em intensidade e volume específicos, que possam, de forma efetiva, gerar adaptações funcionais, orgânicas e promover um gasto calórico adequado durante as sessões de intervenção. E, assim, a intervenção com atividade física associada com uma dieta balanceada, possa de fato, refletir para um balanço energético negativo capaz de gerar alterações positivas na melhora da composição corporal, no perfil lipídico e, consequentemente, refletir em melhoras vasculares e da pressão arterial do paciente. Além disso, a integração de tecnologia móvel, paciente e profissional, permite maior aproximação e monitoramento dos dados e metas traçadas para intervenção.

Dr. Fabiano Serfaty: Jader, qual solução prática você e seu grupo criaram tentando facilitar a vida do médico e do paciente?

Jader Sant' Ana: Atualmente, estamos atuando com base em um olhar de pesquisa e desenvolvimento, e, com isto, alguns aplicativos como: Safe Runner, ITStriker e TReaction disponibilizados na plataforma ETS4ME e que são resultantes de pesquisas (Sant' Ana et al., 2016; Sant' Ana et al., 2017; Sant' Ana et al., 2018; Coswig et al., 2019) desenvolvidas junto aos Laboratórios de Biomecânica e de Esforço Físico da UFSC, com base na necessidade de mercado e para solução de problemas para diagnóstico de indicadores de aptidão aeróbia, corrida e para esportes. De fato, estas tecnologias móveis associadas ou não ao uso de wearables têm se apresentado como soluções capazes de ampliar o controle e o acesso a parâmetros que caracterizam de forma individualizada o cliente, atleta ou paciente com grande aplicabilidade clínica, capazes de: (1) identificar parâmetros de carga interna e externa durante teste incremental; (2) avaliar a capacidade e potência aeróbias; (3) controlar as adaptações aeróbias; (4) ter controle de indicadores de resposta motora em reação a estímulo visual. O aplicativo Safe Runner, por exemplo, tem validade ecológica para avaliar a capacidade e a potência aeróbias de pacientes, auxiliar na prescrição das cargas do treinamento e monitorar as adaptações decorrentes do treinamento aeróbio, identificando parâmetros como velocidade máxima (Vmáx), consumo máximo de oxigênio estimado (VO2máx), frequência cardíaca máxima (FCmáx), frequência cardíaca de limiar anaeróbio (FCLAn) e velocidade de limiar anaeróbio (VLAn).

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