Suicídio após o diagnóstico de câncer

Dr. Sivan Mauer

Notificação

11 de setembro de 2019

Neste artigo

Dr. Sivan Mauer

Nesta seção o psiquiatra Sivan Mauer destaca e comenta estudos relevantes no campo da psiquiatria. O Dr. Mauer é mestre em pesquisa clínica pela Boston University School of Medicine, e doutorando em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Além da prática privada exercida em São Paulo e Curitiba, o Dr. Mauer é clinical faculty na Tufts University School of Medicine, Boston (EUA).

1. Estudo avalia risco de suicídio após diagnóstico de câncer na Inglaterra

O diagnóstico de câncer pode provocar um sofrimento psicológico significativo nas pessoas. Os pacientes têm medo da morte, da dor, dos eventos adversos do tratamento como desfiguração ou perda de função, além de alteração no funcionamento familiar ou função dentro da comunidade. Este sofrimento pode ter um papel no desenvolvimento da ideação suicida. Revisões sistemáticas têm mostrado um aumento no risco de suicídio entre pacientes com câncer.

No Reino Unido a prevalência de pacientes com diagnóstico de câncer está crescendo em função do aumento dos programas de detecção de câncer. Apesar da prioridade política e financeira no diagnóstico e terapêutica para os serviços de oncologia, facilitando o diagnóstico precoce, existe uma histórica restrição de recursos para serviços de saúde mental. Além disto, no geral existe uma desconexão entre hospital gerais e serviços de saúde mental.

Apesar de o risco absoluto de suicídio entre pacientes com câncer ser baixo em comparação com as outras causas de morte, estas mortes podem ser prevenidas. Em 2015, a força-tarefa de câncer relatou que um melhor manejo da depressão pode melhorar os desfechos dos pacientes, como a melhora da qualidade de vida e a adesão ao tratamento, além de aumentar a sobrevida. É necessário entender a variação do risco de suicídio por sexo, idade e tipo de câncer.

Este foi o primeiro estudo que usou o banco de dados nacional da Inglaterra. São dados longitudinais do registro nacional e serviço de análise. O risco de suicídio em pacientes com diagnóstico de câncer foi avaliado em comparação com a população em geral e em relação aos tipos de câncer, estágio da doença, tempo desde o diagnóstico e fatores sociodemográficos. Foram incluídos 4.722.099 pacientes entre 18 e 99 anos de idade, no período de 1º de janeiro de 1995 a 31 de agosto de 2017.

Dentre os participantes, 50,3% eram homens e 49,7% mulheres; e 79,3% tinham acima de 60 anos. Destes, 2.491 (1.719 homens e 772 mulheres) cometeram suicídio, representando 0,08% da amostra. A taxa de mortalidade padronizada foi de 1,20 (intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,16 a 1,25). O risco mais elevado foi identificado entre os pacientes com mesotelioma (4,51; IC 95% de 2,91 a 7,00), seguido de câncer de pâncreas (3,89; IC 95% de 2,77 a 5,48), câncer no esofágico (2,65; IC 95% de 2,04 a 3,43), câncer de pulmão (2,57; IC 95% de 2,23 a 2,97) e câncer de estômago (2,20; IC 95% de 1,71 a 2,84).

Para lembrar:
Apesar dos baixos números absolutos, devemos sempre lembrar que, olhando mais atentamente, a incidência de casos de suicídio é 20% maior entre pacientes com câncer do que na população em geral. E, quando falamos de tipos de câncer específicos, como o mesotelioma ou o câncer de pâncreas, o estudo demonstrou que os pacientes apresentam risco ainda maior de cometer suicídio. Pacientes com câncer, principalmente os diagnosticados com transtornos do humor, apresentam risco de suicídio bastante elevado.

Referência:
Henson K, Brock R, Charnock J, Wickramasinghe B, Will O, Pitman A. Risk of Suicide After Cancer Diagnosis in England. JAMA Psychiatry. 2019;76(1):51-60. doi:10.1001/jamapsychiatry.2018.3181.

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