COMENTÁRIO

O que esperar do ESC 2019

Dr. Bruno Valdigem

Notificação

27 de agosto de 2019

Paris sedia o maior evento da cardiologia mundial, o Congresso europeu de Cardiologia 2019 (ESC 2019). A cada ano dezenas de milhares de pessoas se reúnem em uma cidade europeia em busca das aulas de revisão e da divulgação das publicações mais recentes em cardiologia.

O ESC2019 promete agradar todos os públicos. Os novos artigos publicados estão divididos em seis sessões que serão apresentadas entre 31 de agosto e 3 de setembro.

Já no primeiro dia serão divulgadas cinco diretrizes: Diabetes, pré-diabetes e prevenção cardiovascular; Embolia pulmonar; Taquicardias supraventriculares; Síndromes coronarianas crônicas (previamente tratada como doença coronariana estável) e, por fim, Dislipidemias. A minha maior curiosidade está focada em taquicardias supraventriculares, um tema exaustivamente estudado nos últimos anos e aparentemente com poucas descobertas. Talvez sugerir onde utilizar novas tecnologias, como crioablação, ou discutir anticoagulação em flutter e em taquicardias atriais? Acredito que a maior expectativa do publico em geral está nas diretrizes de Diabetes, sedimentando a participação do cardiologista no tratamento desta doença. Um interesse mais que justificado ante os novos estudos relacionando tratamento da diabetes e prevenção de insuficiência cardíaca.

Nessa linha, alguns LBCT (Late breaking clinical trials, as estrelas do congresso) são sinérgicos às diretrizes: Os estudos THEMIS e THEMIS-PCI investigam o uso de ticagrelor em pacientes com diabetes (o primeiro) e com diabetes e submetidos a intervenção coronariana percutânea (o segundo). O estudo ISAR-REACT 5 compara ticagrelor com prasugrel para síndromes coronarianas agudas.

A combinação de síndromes coronarianas agudas e intervenção percutânea com fibrilação atrial ganha novamente destaque: após o estudo AUGUSTUS (apixabana na síndrome coronariana aguda com FA), apresentado no ACC 2019, temos dois outros novos anticoagulantes sendo testados. O estudo ENTRUST-AF PCI comparou edoxabana com varfarina após angioplastia com stent em portadores de fibrilação atrial, e o AFIRE testa a monoterapia com rivaroxabana em portadores de doença coronariana estável.

Hemodinamicistas não serão menos contemplados nos temas do evento: o estudo COMPLETE avalia a eficácia e segurança de revascularização completa percutânea no âmbito de infarto com supradesnível de segmento ST. Muitos vão se lembrar do estudo CULPRIT SHOCK, que comparava intervenção completa ou apenas do vaso culpado no contexto de choque cardiogênico por infarto. O debate ficou centrado em maior tempo de sala e piora de função renal contra maior necessidade de reintervenção tardia (grupo revascularização completa versus abordagem apenas da lesão culpada).

Também em hemodinâmica teremos o FRANCE-TAVI, comparando válvula aórtica percutânea auto-expansível com expansível por balão nos quesitos regurgitação para valvular ou mortalidade em dois anos e o MITRA FR, também com seguimento de dois anos do estudo MITRA (intervenção percutânea de válvula mitral utilizando MitraClip contra o tratamento clínico).

O uso da troponina ultrassensível na chegada da sala de emergência foi avaliado por dois outros trabalhos a serem apresentados nos LBCT: o HISTORIC e o RAPID-TnT. Estudos com objetivos semelhantes: como usar melhor a dosagem de troponina ultrassensível na chegada ou primeira hora da avaliação de dor torácica, com metodologias diferentes. Talvez as respostas orientem diversos protocolos de dor torácica no Brasil, ainda titubeantes quanto ao valor de corte e quando julgar que o aumento dos valores é espúrio.

Os estudos PARAGON-HF e DAPA-HF terão a apresentação oficial no ESC2019. O primeiro testou sacubitril-valsartana em insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. O estudo DAPA-HF utilizou tratamento com dapaglifozina 10 mg, 5 mg ou placebo em 4744 portadores de insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida sintomática e clearance de creatinina > 30 mL/min/1,73m2. Ainda que ambos tenham resultados preliminares já divulgados (negativo no PARAGON-HF e positivo no DAPA-HF), ainda faltam informações essenciais: houve benefício de algum subgrupo? Os desfechos secundários ou compostos permitem afastar ou agregar definitivamente a droga? Houve diferença em relação a dosagem da medicação utilizada? Respostas amplamente aguardadas.

Além de estudos que avaliam o uso de beta bloqueadores em insuficiência cardíaca com insuficiência renal associada (uma população frequentemente esquecida dos estudos), destaco o DAPA (não confundir com o DAPA HF) – Long term outcome of the Defibrillator After Primary Angioplasty Trial Implantable Defibrillator Early After Primary Percutaneous Intervention for ST Elevation Myocardial infarction – que revisita qual o melhor momento de implantar o cardiodesfibrilador implantável após IAM com supradesnível de ST e angioplastia pimária.

Dois seguimentos de longo prazo, o DANAMI 16 (angioplastia contra fibrinólise no infarto agudo), após 16 anos, e o estudo SYNTAXES (angioplastia contra cirurgia cardíaca após 10 anos de seguimento do estudo SYNTAX) prometem uma visão mais ampla da história natural das estratégias de tratamento de síndromes coronarianas agudas.

Outros LBCT e diversos estudos menores prometem entregar novidades aplicáveis ao nosso dia a dia. Fique ligado na cobertura do ESC 2019 com o Medscape edição em português!

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