Boa noite de sono e restrição do tempo de tela reduzem impulsividade em crianças

Marcia Frellick

Notificação

20 de agosto de 2019

O sono adequado e a restrição do tempo diante de alguma tela ajudam a reduzir a impulsividade das crianças, sugere um estudo.

Dra. Michelle D. Guerrero, Ph.D., do Healthy Active Living and Obesity Research Group do Children's Hospital of Eastern Ontario Research Institute, no Canadá, e colaboradores, disseram que o estudo, publicado on-line em 14 de agosto no periódico Pediatrics, é o primeiro a demonstrar esta associação. Estudos anteriores analisaram cada fator separadamente, disse a Dra. Michelle ao Medscape.

Esses resultados podem agregar subsídios científicos às orientações dos médicos para os pais das crianças, disse a Dra. Michelle, e ajudá-los a zerar dois fatores que podem fazer uma grande diferença, pois poucas crianças (17,7%) no estudo cumpriram as recomendações de tempo de tela e de sono.

"Precisamos estar especialmente atentos ao tempo que as crianças passam usando dispositivos eletrônicos e à duração do sono delas", disse a pesquisadora.

Os pesquisadores compararam as respostas das crianças às das perguntas da enquete Canadian 24-Hour Movement Guidelines for Children and Youth, as primeiras diretrizes baseadas em evidências para o movimento em um período de 24 h.

Estas diretrizes recomendam de nove a 11 horas de sono todas as noites, até duas horas diárias de uso recreativo de tempo de tela e, pelo menos, 60 minutos de atividades físicas de intensidade moderada a forte por dia.

Os autores reuniram dados sobre 4.524 crianças entre 8 e 11 anos de idade que responderam (ou cujos pais responderam) às perguntas do estudo Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD), um estudo observacional longitudinal sobre o desenvolvimento e a saúde do cérebro infantil que é feito periodicamente nos Estados Unidos. Os pesquisadores avaliaram se o comportamento das crianças correspondia às diretrizes canadenses e se a adesão às diretrizes modificou a impulsividade.

Três fatores testados para o efeito sobre a impulsividade

Os autores estudaram o efeito do sono adequado, da limitação do tempo de tela e da prática regular de atividade física sobre a impulsividade das crianças. O sono e a restrição do tempo de tela juntos tiveram uma forte associação com o controle da impulsividade. A Dra. Michelle disse: "Agora sabemos que cumprir os três quesitos certamente é benéfico, mas o tempo de tela e o sono parecem liderar a relação."

O efeito combinado não é inteiramente surpreendente, disse a Dra. Michelle ao Medscape, porque se as crianças não estão dormindo, muitas vezes estão usando seus dispositivos eletrônicos, portanto, os limites na hora de dormir e a restrição da exposição à tela funcionam bem juntos.

No estudo ABCD, os pais foram solicitados a registrar as horas durante quais a criança dormiu na maioria das noites. As crianças foram solicitadas a informar quantas horas passaram fazendo alguma coisa na frente das telas – assistindo séries e filmes ou trocando mensagens de texto, por exemplo – em uma noite típica da semana e em um dia típico do fim de semana. A atividade física foi determinada pelas respostas das crianças no Youth Risk Behavior Survey sobre quantos dias praticaram alguma atividade durante pelo menos uma hora por dia na semana anterior.

Como a impulsividade foi avaliada

A impulsividade foi determinada por meio das respostas das crianças em quatro instrumentos de avaliação: a UPPS-P Impulsive Behavior Scale; o Behavioral Inhibition System (BIS); a Behavioral Activation System (BAS) Scale; e por uma escala de avaliação da satisfação tardia na qual precisavam escolher se preferiam 75 dólares em três dias ou 115 dólares em três meses.

As crianças foram solicitadas a classificar de 1 a 4 algumas frases, como: "eu faço o que for para conseguir o que eu quero" ou "eu tenho necessidade de fazer coisas emocionantes e ter novas sensações" ou "eu fico preocupado quando não faço alguma coisa direito" – representando o quanto essas frases correspondem aos seus sentimentos.

"A pontuação nas escalas UPPS-P e BIS/BAS demonstraram coeficientes de fidedignidade adequados, e a tarefa de desconto tardio se correlacionou bem com os prêmios monetários reais", escreveram os autores.

A Dra. Michelle disse que, em estudos futuros, em vez de depender das informações fornecidas pelos próprios participantes, os pesquisadores gostariam de acompanhar os fatores que compõem o movimento nesta faixa etária com ferramentas objetivas, como com acelerômetros ou sistemas de monitoramento do tempo de tela, para eliminar a possibilidade de viés de memória.

A Dra. Michelle sugeriu que, tendo em conta estas conclusões, os pais devem ser incentivados a restringir o tempo de tela, especialmente uma a duas horas antes da hora de dormir, de forma que as mentes e os corpos das crianças possam se preparar para o sono. Os pais também podem criar uma zona sem tecnologia no quarto, sugeriu a pesquisadora.

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health. Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Pediatrics. Publicado on-line em 14 de agosto de 2019. Abstract

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