"Estou tentando emplacar uma ideia", disse o Dr. Eric J. Topol, médico, sobre o seu comentário publicado no periódico The New Yorker no dia 05 de agosto.
E que ideia é essa? Que é hora de os médicos se articularem para restaurar a "essência" da medicina, que reside na sagrada relação médico-paciente.
O Dr. Topol, cardiologista no Scripps, em La Jolla, Califórnia e editor-chefe do Medscape, contou que a intenção do artigo é desafiar as sociedades médicas, que, apesar de tudo o que fazem de bom, às vezes perdem o foco nesta relação fundamental em favor do retorno financeiro.
E isso não se limita às sociedades médicas; ele acha que a prática da medicina está em declínio em toda a comunidade médica. O tempo com os pacientes diminuiu, enquanto os médicos precisam se dedicar mais aos prontuários eletrônicos e a outras atividades que não são clínicas.
"Desde 1980, quando me formei, tudo está desmoronado. Agora, gastamos, em média, menos de 10 minutos com pacientes. E é muito mais uma interação com o computador do que entre as pessoas", disse ele.
Dr. Eric Topol
No artigo intitulado Why Doctors Should Organize (Porque os médicos deveriam se articular), o Dr. Topol propõe uma solução: criar uma "nova organização de médicos, que nada tenha a ver com a medicina como negócio e tenha tudo a ver com promover a saúde dos pacientes".
"A principal prioridade desta organização deve ser restaurar o fator humano – a essência da medicina – que se perdeu, levando consigo a relação médico-paciente", escreveu o cardiologista.
O Dr. Topol está solicitando que os cerca de 900.000 médicos atuantes nos Estados Unidos sejam mais unidos. Eles precisam fazer um lobby mais intenso a favor dos seus pacientes e deles mesmos. Há uma necessidade urgente de ativismo médico em uma série de questões, como o combate à desinformação sobre as vacinas e a resistência à demanda crescente dos prontuários eletrônicos, ele escreveu no artigo.
"Reservadamente, os médicos estão aflitos com as condições de trabalho ruins e com a deterioração da relação médico-paciente", escreveu o Dr. Topol.
"Mas não houve nenhuma passeata em Washington, nem piquetes de greves, nem campanhas nas redes sociais. Por que não? Por que os médicos não saíram em defesa de si mesmos e de seus pacientes?"
A medicina é "segmentada"
Parte do motivo pode ser o que foi chamado de "epidemia de burnout". Um relatório do Medscape de 2019 mostrou que 44% dos médicos norte-americanos entrevistados relataram burnout. No Brasil, a mesma pesquisa feita entre médicos brasileiros e divulgada em janeiro deste ano mostrou que 26% dos entrevistados disseram sofrer de burnout, enquanto 19% afirmaram estar deprimidos.
Os prontuários eletrônicos são frequentemente citados como um fator importante. Os residentes do primeiro ano, ou estagiários, podem chegar a gastar quase cinco vezes mais horas em atividades indiretas do que no cuidado direto ao paciente, de acordo com pesquisa publicada em abril no periódico JAMA. A maior parte desse tempo – 10 horas durante um período de 24 horas – foi dedicada ao prontuário eletrônico.
Além do desgaste da relação médico-paciente e da questão do burnout, o Dr. Topol escreveu que atualmente os médicos estão "segmentados", sem uma organização unificando todos eles. E grandes grupos profissionais médicos, como a American Medical Association (AMA), perderam poder e impacto por conta dos seus negócios, escreveu ele, citando um acordo da década de 90, que a AMA considerou fechar mas acabou desistindo, com a Sunbeam Corporation, um fabricante de umidificadores e de bolsas de gelo.
No artigo, o Dr. Topol não atribuiu toda a culpa à uma associação. Ele também criticou outros acordos do passado, como o da American Academy of Dermatology (AAD) com fabricantes de filtros solares, que pagaram pelo endosso da associação, ou a decisão da American Heart Association (AHA) de "alugar o próprio nome".
Por exemplo, explicou o Dr. Topol, os fabricantes de alimentos que se qualificam podem obter um selo da Heart-Check em troca de taxas administrativas.
"O selo adorna milhares de itens com baixo teor de gordura, como Cheerios e vários pães, que não são, de forma significativa, saudáveis para o coração", escreveu ele.
"Durante décadas, como parte deste programa, a AHA promoveu fortemente uma dieta com baixo teor de gordura, defendendo o consumo de margarina em vez de manteiga e a redução de ovos e de gorduras saturadas."
No entanto, esta abordagem à dieta "não foi respaldada pelos dados de pesquisas" e "ajudou a aumentar a epidemia de obesidade", disse o Dr. Topol.
Ele também fez fortes críticas ao seu próprio grupo profissional, o American College of Cardiology (ACC), como um exemplo de prioridades equivocadas. O ACC fez bem em termos de preservar os valores pagos aos cardiologistas enquanto oferece programas educativos, reconheceu o Dr. Topol.
"Mas o ACC faz muito pouco para promover os interesses dos pacientes, e é por isso que parei de pagar minha anuidade recentemente", escreveu o Dr. Topol.
"Como muitas sociedades médicas, é uma associação comercial mais centrada nas finanças dos médicos."
As sociedades respondem
As sociedades médicas contatadas pelo Medscape disseram que sua ênfase vai muito além do dinheiro, e que os pacientes são prioridade.
Em um comunicado, a AHA disse que os comentários do Dr. Topol são "desinformados", afirmando que não endossa empresas, produtos ou serviços.
A AHA disse que o Heart-Check Food Certification Program se destina a ajudar os consumidores a fazerem escolhas de alimentos mais saudáveis. Os fabricantes de alimentos participantes pagam taxas administrativas por produto para cobrir as despesas operacionais do programa. Os produtos aprovados exibem a marca Heart-Check – não o logotipo da AHA, destacou a associação.
"A orientação dietética da AHA é baseada em uma revisão de evidências científicas revisadas por pares", disse a associação.
A AAD também defendeu suas decisões, afirmando que seu programa "Seal of Recognition" foi criado "para ajudar os consumidores a escolher protetores solares", e que seus critérios para protetores solares eram "significativamente mais rigorosos que os da FDA".
O grupo – que afirmou ter encerrado o programa em 2009 "quando ficou claro que a FDA estava emitindo exigências para protetor solar mais alinhadas com os rigorosos critérios do programa" – também disse que seu objetivo é "apoiar e melhorar o cuidado do paciente".
O Dr. Richard Kovacs, médico e presidente do ACC, discordou de como o Dr. Topol caracterizou o trabalho de seu grupo. Em uma declaração preparada, ele disse ao Medscape que o ACC tem sido um defensor dos pacientes e citou exemplos do seu trabalho com o gerenciamento de registros e a manutenção de um website dedicado à educação de pacientes, o CardioSmart.org.
"Tudo o que defendemos, no que educamos nossos membros e desenvolvemos para a prática clínica é para garantir que os pacientes recebam o melhor cuidado possível", disse o Dr. Richard.
"Qualquer sugestão em contrário é falsa e é o oposto do que os mais de 52.000 membros da ACC de todo o mundo e funcionários dedicados estão trabalhando todos os dias para alcançar."
A AMA preferiu não enviar comentários para esta matéria.
O bem que fazem
Também não há dúvida de que as sociedades e organizações médicas defendem a saúde de seus médicos e a saúde dos pacientes. Dr. Topol mencionou a recente tragédia dos tiroteios em massa e o ativismo que gerou.
O American College of Physicians (ACP) mostrou na segunda-feira o tipo de liderança elogiada pelo Dr. Topol.
O ACP pediu ação política após os últimos tiroteios em massa, que mataram pelo menos 31 pessoas no Texas e em Ohio. O vice-presidente sênior de assuntos governamentais do ACP, Bob Doherty, postou: "Criando um movimento: use a hashtag #DoSomething para exigir que os políticos façam algo para pôr fim à violência por armas de fogo."
Bob Doherty
@BobDohertyACP
Começando um movimento: use a hastagh #DoSomething para pressionar os políticos a fazerem algo para pôr fim à violência por armas de fogo. Diga isso em todos os lugares que eles aparecerem. Diga a todos. E insira o link para este documento do @ACPinternists sobre o que eles deveriam fazer. #medtwitter #ThisIsOurLane
https://annals.org/aim/fullarticle/2709820/reducing-firearm-injuries-deaths-united-states-position-paper-from-american
Em seu artigo, o Dr. Topol destacou a batalha do ACP em 2018 no Twitter contra a National Rifle Association, quando os membros da ACP foram orientados a "ficar na sua" depois que o grupo defendeu a proibição de armas de fogo de assalto. O ACP (e os médicos) responderam com a campanha #ThisIsMyLane no Twitter, com seus membros mostrando como eles têm que lidar com as consequências devastadoras da violência por armas de fogo.
"Como médico, fiquei emocionado com essa demonstração de solidariedade e engajamento político", escreveu o Dr. Topol em seu artigo.
Vários médicos entrevistados pelo Medscape também defenderam o trabalho realizado pelas associações médicas, mesmo concordando com a tese geral do artigo do Dr. Topol sobre os outros pontos.
O Dr. Robert Centor, médico, ex-presidente do conselho de regentes do ACP, concordou com um ponto levantado pelo Dr. Topol em relação ao número de administradores na prática de medicina crescendo muito mais do que o número de médicos.
"Nós cedemos excessivamente a responsabilidade pelos cuidados de saúde para os administradores", disse o Dr. Robert ao Medscape. "Fizemos isso porque o governo decidiu regulamentar tudo."
Mas ele argumentou que muitas associações médicas estão trabalhando de várias maneiras para combater o estresse dos médicos. Ele citou, em especial, o trabalho feito pela Dra. Christine Sinsky, médica e vice-presidente de satisfação profissional da AMA, para tratar as causas do burnout.
Dr. Robert sugeriu que a batalha burocrática pode ser o melhor lugar para os médicos fazerem frente ao excesso de regulamentação. Os Centers for Medicare and Medicaid Services (CMS) podem ser persuadidos a mudar suas políticas se receberem evidências suficientes. Esta abordagem pode ter um efeito mais duradouro do que copiar as táticas dos sindicatos, disse ele.
"Uma coisa é se organizar contra um único hospital. É muito diferente tentar se articular contra todos os seguros e os CMS", disse ele.
O Dr. Robert citou uma recente proposta dos CMS como um exemplo de vitória para os médicos com essa abordagem.
Na versão preliminar da regra de pagamentos Medicare 2020 para médicos divulgada na semana passada, como publicado pelo Medscape, os CMS informaram que pretendem revisar os tempos e o processo decisório dos médicos para todos os códigos utilizados para visitas de avaliação e tratamento, exigindo a história e o exame apenas quando apropriado.
Muitos grupos médicos já haviam argumentado com os CMS sobre a carga desnecessária imposta, por exigir a coleta de informações repetidas vezes, e os CMS destacaram a sua colaboração com a AMA na elaboração das novas regras.
"É mais provável que a gente obtenha sucesso fazendo o que sabemos fazer, coletando evidências e documentando os problemas", disse o Dr. Robert.
Líderes médicos
A Dra. Rita Redberg, cardiologista da University of California, na Califórnia, disse ao Medscape que concorda com as observações do Dr. Topol em seu artigo sobre quantos dos novos médicos-ativistas são muitas vezes mulheres. Tanto o Dr. Topol quanto a Dra. Rita citaram o trabalho da médica Dra. Esther Choo, que ajudou a fundar o grupo Time's Up Healthcare, que luta contra o assédio e a discriminação, seja em função do gênero, identidade de gênero, orientação sexual, raça, etnia, país de origem, deficiência ou qualquer outro fator.
A Dra. Rita também questionou se a tática de barganha que o Dr. Topol mencionou funcionar na prática. Em seu artigo, o Dr. Topol lembrou ter assistido a um grupo de internos e residentes em 1980 no San Francisco General Hospital fazendo greve, em parte por causa de uma "desastrosa falta de enfermeiras".
Mas, os médicos tendem a não adotar greves como uma tática para melhorar o ambiente de trabalho, disse ela.
"Tradicionalmente, as greves são feitas para tratar de baixos salários ou poucos benefícios trabalhistas, e isto não é um problema para a medicina ou para a maioria das profissões de colarinho branco, por isso não é de se surpreender que os médicos geralmente não façam greve", disse a Dra. Rita, que também é editora do JAMA Internal Medicine.
O Dr. Topol disse ao Medscape que o tempo está correndo.
"Eu não acho que alguém possa argumentar contra o fato de que estamos perdendo uma oportunidade por não termos uma organização que reúna todos os médicos", disse ele.
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Citar este artigo: Médicos precisam se articular em prol do paciente, diz Dr. Topol - Medscape - 13 de agosto de 2019.
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