COMENTÁRIO

Um mês de cardiologia preventiva

Dr. Bruno Valdigem

Notificação

8 de agosto de 2019

Poucos meses se destacaram tanto em relação à publicação de estudos simples voltados para a prática clínica do cardiologista clínico quanto julho de 2019.

Poucos estudos sobre prevenção cardiovascular avaliam pacientes acima de 65 anos de idade. Prevenção e estratificação de risco muitas vezes são baseadas nos critérios do médico, que determina se o idoso deve sofrer intervenção ou não. Em pacientes que não têm indicação de cateterismo, a investigação de doença arterial coronariana frequentemente é interrompida de forma precoce.

Mortensen e colaboradores avaliaram 5.805 pacientes (homens entre 55 e 80 anos e mulheres entre 60 e 80 anos) sem diagnóstico de doença aterosclerótica que participaram do estudo Bioimage e foram acompanhados por dois anos e sete meses.

Os participantes foram submetidos a diversos exames utilizados no dia a dia para avaliar o risco de doença aterosclerótica. Neste estudo, os sujeitos cuja tomografia computadorizada (TC) apresentou pontuação de cálcio (CAC) = 0, CA < 10, sem presença de placa nas carótidas ou história familiar, com índice tornozelo-braquial (ITB) normal, apolipoproteína A1 (ApoA1) acima do percentil 75 ou os exames de relação médio-intimal de carótidas; apolipoproteina B (ApoB); galectina 3; proteína C-reativa ultrassensível; lipoproteína A; ProBNP; e transferrina com resultados abaixo do percentil 25, o melhor marcador para ausência de eventos cardiovasculares no acompanhamento foi CAC = 0, seguido por CAC < 10, galectina 3 abaixo do percentil 25 e ausência de placa nas carótidas.

A avaliação da pontuação de cálcio pode ser um bom discriminador para início de estatinas como prevenção primária em idosos. [1]

Outro estudo que chamou a atenção foi uma análise do banco de dados do Kaiser Permanente Northern California (KPNC), [2] que reúne informações de saúde dos residentes do norte da Califórnia.

Foram selecionados 1,3 milhão de habitantes que tiveram a pressão arterial aferida entre janeiro de 2006 e dezembro de 2007. O acompanhamento médio foi de oito anos. A média de idade foi de 53 anos; 59% eram brancos; 5,6% tinham história de doença arterial coronariana. Dentre estes, 533.000 apresentaram pressão arterial média ≥ 130 × 80 mmHg (grupo 1) e 118.000 apresentaram pressão arterial média ≥ 140 × 90 mmHg (grupo 2).

A hipertensão sistólica e diastólica, isoladamente, foi preditora de eventos cardiovasculares. Os dois valores de corte foram utilizados, posto que, após a publicação do estudo SPRINT e das novas diretrizes, houve muita polêmica sobre a defesa de metas mais rigorosas.

Apesar do maior peso da hipertensão sistólica em eventos cardiovasculares, o aumento da pressão diastólica a partir de 80 mmHg foi preditor de eventos com uma curva em parábola crescente a partir deste valor, se tornando mais evidente após 90 mmHg.

A elevação da pressão arterial sistólica a partir de 130 mmHg e da diastólica a partir de 80 mmHg tiveram um efeito deletério incremental nessa população.

Uma crítica é que a participação de pacientes hipertensos também foi observada com aumento da idade, mas mesmo após a correção, o número de pacientes mais jovens permitiu manter essa afirmação, sendo o aumento fator de risco independente.

Ainda em hipertensão, o estudo Comparison of Dual Therapies for Lowering Blood Pressure in Black Africans (CREOLE) comparou de forma randomizada três estratégias de controle de HAS. [4] Os pacientes eram 728 hipertensos, negros, que mantinham pressão arterial > 140 × 90 mmHg com ou sem medicamentos.

O grupo 1 foi tratado com 5 mg de anlodipino + 25 mg de hidroclorotiazida; o grupo 2 recebeu 5 mg de anlodipino + 4 mg de perindopril; e o grupo 3 recebeu 4 mg de perindopril + 25 mg de hidroclorotiazida.

A média de idade dos pacientes foi de 51 anos, e eles foram acompanhados com MAPA durante seis meses. Os grupos 1 e 2, que receberam anlodipino, apresentaram pressão arterial mais baixa do que o grupo 3, que associou o diurético ao inibidor da enzima conversora de angiotensina (ieca).

Apesar de a diferença na medida ter sido discreta (redução de 3,14 mmHg), foi significativa. Não houve diferença entre os grupos 1 e 2, que usaram anlodipino.

Há relativamente pouco tempo, um desfecho que recebeu atenção dos cardiologistas foi a amputação de membros inferiores como efeito adverso de antidiabéticos, e o aumento da mortalidade por todas as causas e cardiovascular, que corre em paralelo com as amputações.

Ao todo, um banco de dados com 125.000 veteranos, sem evidências de amputação, foi analisado, com um acompanhamento médio estimado em nove anos. No total ocorreram 1.185 amputações. A presença de doença arterial periférica foi caracterizada como presença de descrição em prontuário de: nefropatia, neuropatia ou retinopatia relacionada com doença microvascular (DMV). Neste acompanhamento, a mera presença de DMV elevou em 3,7 vezes o risco de amputação. Em pacientes com doença arterial periférica já estabelecida e DMV o risco foi 20 vezes maior. [5]

Esperamos agora as novidades muito aguardadas do congresso deste ano da European Society of Cardiology (ESC), no final de agosto, em Paris, onde o Medscape estará com uma equipe de experts que vão trazer o melhor do congresso para você. Até lá, vamos avaliar como colocar melhor em prática os cuidados.

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