Obesidade: Quando a comunicação sobre saúde pública se torna vexatória?

Siobhan Harris

Notificação

25 de julho de 2019

Como você diz para alguém que ele(a) está acima do peso? É um assunto delicado. Conscientizar as pessoas sobre os riscos para a saúde sem que elas se sintam ofendidas pode ser complicado.

A Cancer Research do Reino Unido descobriu isso após o lançamento da sua mais recente iniciativa. A campanha indicou a ligação entre a obesidade e o câncer, mas foi acusada de ser vexatória para as pessoas com sobrepeso.

A série de anúncios traz alertas sobre a obesidade no que parece ser um maço de cigarro, destacando o fato de que tanto o tabagismo quanto a obesidade são fatores de risco de câncer.

https://twitter.com/CRUK_Policy/status/1146415952071929857

O argumento é que a obesidade pode causar 13 tipos de câncer, sendo atualmente uma causa mais comum de câncer de intestino, rim, ovário e câncer hepático do que o tabagismo.

Acusações vexatórias para quem está acima do peso

As reações vieram de todos os lados.

Um grupo de acadêmicos e nutricionistas de instituições como a University of Cambridge e o King's College London alertou que os achados eram questionáveis e poderiam fazer as pessoas se sentirem envergonhadas demais por causa do próprio peso para procurar ajuda.

Em uma carta aberta ao Cancer Research UK os autores disseram: "O foco da sua campanha sobre o peso como uma das principais causas de câncer é enganoso. O índice de massa corporal (IMC) é um indicador bruto de saúde e embora exista uma associação entre o aumento do IMC e o câncer, seus motivos e seus mecanismos não foram elucidados."

As pessoas também inundaram as mídias sociais com gritos de vexação para os gordos. "Isso faz as pessoas se sentirem piores e responsáveis pelo seu câncer", disse um tuíte: "correlação não é causalidade".

"Apontar o dedo não ajuda ninguém"

Chelle Bell é uma modelo plus size e proponente da positividade corporal. Ela acha que a campanha é "apavorante e estigmatizante".

"É preguiçosa e deturpa os fatos. É claro que existe uma correlação entre a obesidade e o câncer, mas não há evidências que sugiram que a obesidade cause câncer", disse Chelle ao Medscape.

Em relação à comparação com o tabagismo, Chelle disse: "Colocar um cigarro na boca é voluntário, simplesmente não é a mesma coisa que comer, algo que você precisa fazer para sobreviver. A campanha basicamente diz que se você está gordo você vai ter câncer e a culpa vai ser sua, o que é cruel e vexatório."

A obesidade é, naturalmente, um problema complexo e multifatorial. Vai muito além de comer demais e se movimentar de menos.

"A obesidade pode ser consequência de fatores fisiológicos, bem como de escolhas de estilo de vida. Não é algo que você possa usar para culpabilizar as pessoas", disse Aisling Pigott, nutricionista e porta-voz da British Dietetic Association.

"Acusar as pessoas de causarem o próprio câncer por serem obesas pode ser visto como uma forma de julgamento, e não ajuda as pessoas que já estão combatendo seus próprios problemas complexos relacionados com a alimentação e a dieta", disse Aisling.

Fazer com que as pessoas se sintam mal por estarem acima do peso ou obesas pode ser contraproducente.

"Se basicamente estão lhe dizendo que você está gordo, que você vai morrer, isso não vai fazer você de repente decidir adotar uma alimentação saudável e frequentar a academia. Vai fazer você querer comer mais, fazer uma dieta radical ou simplesmente parar de comer", acredita Chelle.

Sensíveis demais

A mensagem da campanha é ousada, mas as pessoas estariam sensíveis demais? As pessoas não deveriam ser informadas sobre os riscos para que possam fazer algo a respeito? Se a mensagem de saúde pública for diluída para ser indulgente com os sentimentos das pessoas, talvez não seja tão eficaz.

Nem todo mundo partiu para cima da campanha da Cancer Research UK.

Dentre os defensores temos o Dr. Paul Aveyard, médico e professor de medicina comportamental da University of Oxford, que tem pesquisado o tabagismo e a perda ponderal.

"Eu não concordo com a carta aberta. Não acho que a campanha tenha nenhum caráter vexatório para quem está acima do peso. Apenas transmite uma mensagem contundente. Se você tem um problema de peso, isso pode ser desagradável, mas a campanha não é para estigmatizar e culpabilizar."

Outro defensor da campanha é Tam Fry, do National Obesity Forum. Tam disse que a sua organização vem dizendo ao governo desde 2002 que a obesidade é o novo tabagismo em termos de riscos para a saúde, e agora aconteceu.

"A campanha é absolutamente correta. Nós temos 20 anos de comunicação de saúde pública do governo que não foi bem-sucedida. Agora, é preciso reforçar a retórica e ter certeza absoluta de que a mensagem chegue a quem precisa. É 'amor bandido'. A campanha fez barulho e por isso desagradou muita gente", disse Tam.

Mudança de política

É o paralelo entre o tabagismo e a obesidade que está causando tanta consternação. A Cancer Research UK disse que não está comparando comer com fumar. Está mostrando como uma mudança política pode contribuir para que as pessoas adquiram hábitos mais saudáveis.

Quando a política do governo em relação ao cigarro mudou, o número de fumantes caiu, e menos pessoas tiveram câncer relacionado com o tabagismo.

Michelle Mitchell, diretora executiva da instituição com fins humanitários disse: "como o tabagismo, a obesidade expõe milhões de adultos a maior risco de câncer e, como o tabagismo, a obesidade pode ser reduzida com mudanças promovidas pelo governo."

"A prevalência do tabagismo no Reino Unido caiu drasticamente ao longo dos anos, graças a medidas como o aumento dos impostos sobre o tabaco e as restrições de comercialização; agora, precisamos de uma estratégia semelhante para combater a obesidade. Propaganda e promoções incessantes podem nos empurrar para a junk food, por isso precisamos que o governo se baseie nas lições aprendidas com a prevenção do tabagismo e implemente políticas que contribuam para que todos mantenham um peso saudável", acrescentou Michelle.

A quem se dirige a iniciativa?

Se a campanha for destinada às pessoas obesas, incorreu em acusações que não abrangeram a totalidade da complexidade da obesidade e também não ofereceu nenhuma solução prática.

"Campanhas de saúde devem, idealmente, veicular mensagens úteis. Se concentrar nas alterações positivas para a saúde em vez de nas consequências negativas é mais proveitoso do que culpar ou insinuar que uma péssima alimentação e estilo de vida sejam a causa de todos os tipos de câncer. É preciso dar uma conotação positiva, em vez de constantemente culpar aqueles que já estão lutando contra isso", acredita Aisling.

O mais provável é que a campanha se destine aos parlamentares, com o intuito de aumentar a conscientização sobre os riscos, de modo que mais adiante sejam feitas as devidas mudanças.

"Com a mudança da política você tem de construir as condições para que o governo ouça. Você precisa de uma campanha coordenada, conquistando corações e mentes entre o público, antes de os políticos agirem", explicou Dr. Paul.

O professor acrescentou: "Esta campanha não foi feita para as pessoas. Está tentando comunicar a gravidade de um problema para os políticos."

Papel dos médicos

Os clínicos gerais estão na linha de frente da conversa sobre a obesidade. Estão bem situados para informar as pessoas sobre os riscos e dar orientações sobre a perda ponderal ou encaminhar o paciente para um grupo de controle do peso.

Eles também não querem ser acusados de constranger os obesos. Como o excesso de peso está mesclado com tantos outros fatores psicológicos e ambientais, este pode ser um campo minado para o clínico geral.

O Dr. Paul tem pesquisado o papel que os clínicos gerais podem desempenhar, e segundo ele: "É surpreendentemente fácil para os médicos conversarem com os pacientes sobre o peso. Eles podem fazer isso em 30 segundos. Nossa pesquisa constatou que foi eficaz, popular entre os pacientes, e fácil de fazer.

"Algumas vezes o clínico geral não toca no assunto porque o peso é um tema delicado para muitas pessoas. Durante uma consulta é muito menos constrangedor do que você poderia imaginar. Nós perguntamos o que as pessoas achariam se os seus médicos do nada falassem sobre o peso delas, e mais de oito em cada 10 pacientes disseram que achariam adequado e útil. Se você falar normalmente e oferecer alternativas práticas para lidar com isso, é surpreendentemente bem-recebido", recomendou Dr. Paul.

"Todos os médicos têm a responsabilidade de veicular mensagens sobre a saúde com habilidade e consideração. Você não pode trazer o assunto à tona e dizer, 'a propósito, você está muito obeso e precisa perder peso'. É inútil e a forma de falar sobre a obesidade precisa ser inteiramente repaginada", disse Aisling.

Atacar em todas as frentes

Cerca de 29% da população do Reino Unido é obesa. Os últimos números divulgados pela Public Health England sobre o custo da obesidade e dos problemas de saúde relacionados com a obesidade na Inglaterra foram acima de seis bilhões de libras por ano.

Muitos especialistas dizem que a obesidade precisa ser combatida em todas as frentes. Não é apenas um fator de risco de câncer, mas também de diabetes, doença coronariana e acidente vascular cerebral. As pessoas têm um papel a desempenhar, mas isso é apenas parte da solução. Também é necessário haver uma intervenção anterior e mudanças políticas para melhorar a sociedade obesogênica na qual vivemos.

Sim, a campanha foi controversa. Se foi ou não vexatória para os obesos é discutível. Se o objetivo era tornar as pessoas mais conscientes sobre a relação entre a obesidade e o câncer, foi um estrondoso sucesso.

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