Não há evidências contundentes de que os suplementos alimentares ofereçam proteção cardiovascular

Marlene Busko

Notificação

17 de julho de 2019

Não existem evidências contundentes de que tomar qualquer um dos 16 suplementos nutricionais –  avaliados em 277 ensaios clínicos analisados em um recente estudo – ou ter uma alimentação com baixo teor de sal ou de "gordura ruim", ou rica em "gordura boa" afaste as doenças cardiovasculares ou contribua para as pessoas viverem mais, sugere esta nova metanálise que utilizou dados provenientes apenas de ensaios clínicos randomizados.

Descobriu-se que alguns ajustes preventivos na alimentação ofereceram uma certa proteção contra desfechos cardiovasculares ou morte, mas os resultados foram "limitados por evidências de baixa qualidade", alertaram os autores, liderados pelo Dr. Safi U. Khan, médico da West Virginia University, em Morgantown, no estudo publicado em 08 de julho no periódico Annals of Internal Medicine.

Medidas fundamentadas em evidências de baixa qualidade incluíram a redução do consumo de sal, o que parecia oferecer proteção contra morte por todas as causas e por doenças cardiovasculares em algumas populações; de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa ômega 3, que foram associados à redução do risco de infarto agudo do miocárdio (IAM); e de ácido fólico, que parecia oferecer proteção contra acidente vascular cerebral (AVC).

Por outro lado, a suplementação combinada de cálcio + vitamina D pareceu elevar o risco de AVC.

Curiosamente, a carência de evidências deu algum subsídio para a redução do consumo de sal por pessoas normotensas, que pareceram ter adquirido alguma proteção contra a morte por todas as causas. A restrição de sal pareceu proteger contra morte por causa cardiovascular em pacientes com hipertensão.

"Outros suplementos, como multivitamínicos, selênio, vitamina A, vitamina B6, vitamina C, vitamina E, vitamina D isolada, cálcio isolado, ácido fólico e ferro, ou intervenções alimentares como a dieta do Mediterrâneo, redução da ingestão de gordura saturada, ingestão de gorduras modificadas, redução da ingestão de gordura e aumento da ingestão de ômega 3 ALA (ácido alfa-linolênico) ou de ômega 6 ácidos graxos poliinsaturados (AGPI), não pareciam ter algum efeito significativo na letalidade ou nos desfechos da doença cardiovascular", segundo o estudo.

O grupo avaliou dados de 277 ensaios clínicos randomizados que continham quase um milhão de participantes. Os dados eram provenientes de nove metanálises e de quatro ensaios clínicos originais.

É importante ressaltar que "nos concentramos nos ensaios clínicos randomizados e ignoramos deliberadamente os estudos epidemiológicos e os observacionais, porque estes estudos são excessivamente enviesados", disse ao Medscape o Dr. Safi.

Até que existam evidências melhores, os médicos podem dizer aos pacientes que faz sentido tomar suplementos em casos de deficiência vitamínica, segundo o Dr. Safi.

Caso contrário, "eu sugiro que você não desperdice o seu dinheiro. Se você quiser melhorar sua saúde do ponto de vista cardiovascular, siga um padrão comportamental muito simples: coma alimentos ricos de nutrientes, faça exercício, evite fumar, evite o alcoolismo e evite um estilo de vida sedentário".

Os pesquisadores identificaram nove revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados e quatro outros ensaios clínicos randomizados recentes que analisaram os efeitos de 16 suplementos nutricionais e de oito intervenções alimentares relacionados com morte por todas as causas ou desfechos cardiovasculares, que englobou morte por causa cardiovascular, IAM, AVC e doença coronariana. No total, os estudos tinham 992.129 participantes.

Embora as evidências tenham sido consideradas fracas, consumir pouco sal ou fazer suplementação de ômega 3 AGPICL, de ácido fólico ou de cálcio + vitamina D foi associado a efeitos estatisticamente significativos nos desfechos cardiovasculares ou na morte por todas as causas.

Tabela. Efeitos da suplementação e das intervenções alimentares nos desfechos de ensaios clínicos randomizados: metanálise

Tipo de suplemento ou de intervenção alimentar Desfecho de interesse Razão de risco (HR, do inglês hazard ratio); (IC de 95%) Nível de certeza das evidências
Redução do consumo de sódio em pessoas normotensas Morte por todas as causas  0,90 (de 0,85 a 0,95) Moderado
Redução do consumo de sódio em pessoas hipertensas Morte por causa cardiovascular 0,67 (de 0,46 a 0,99) Moderado
Ômega 3 AGPICL IAM 0,92 (de 0,85 a 0,95) Baixo
Ômega 3 AGPICL Doença coronariana 0,93 (de 0,89 a 0,98) Baixo
Ácido fólico AVC 0,80 (de 0,67 a 0,96) Baixo
Cálcio + vitamina D AVC 1,17 (de 1,05 a 1,30) Moderado

Os ensaios clínicos estudaram suplementos nutricionais e intervenções alimentares, que não tiveram efeitos significativos aparentes na letalidade ou nos desfechos cardiovasculares. As evidências variaram de um nível de certeza muito baixo a moderado, o estudo indicou.

Essa foi uma "metanálise ambiciosa", escreveram os Drs. Amitabh C. Pandey e Eric J. Topol, médicos da Scripps Research and Scripps Clinic, em La Jolla, Califórnia, no editorial que acompanha o estudo.

Porém, as conclusões preliminares de que "uma alimentação com baixo teor de sódio pode reduzir o risco de morte por todas as causas em pessoas sem hipertensão e de que, com baixo nível de certeza, a suplementação com ácido graxo ômega 3 e com folato tem um efeito protetor contra o IAM e o AVC, respectivamente", escreveram, "vão de encontro às conclusões de muitos estudos prévios, que não acharam nenhum benefício significativo para a mesma modificação alimentar ou suplementação".

Existem outras limitações, destacaram os Drs. Amitabh e Topol. Por exemplo, a fortificação de alimentos com cálcio, vitamina D e ácido fólico é feita de maneira diferente ao redor do mundo. Além disso, os ensaios que geraram os dados se basearam, de maneira geral, em diários alimentares e recordação pessoal.

"Infelizmente, o estudo atual nos deixa na mesma zona cinzenta em que começamos", concluíram os médicos.

"Até que haja mais clareza, seria razoável evitar qualquer suplementação ou modificação alimentar em todas as diretrizes e recomendações".

Três pesquisadores foram financiados pelo Blumenthal Scholars Fund in Preventive Cardiology na Johns Hopkins University. O Dr. Safi informou não ter relações financeiras relevantes. A declaração de conflitos de interesses dos demais autores do estudo constam no artigo original. O Dr. Eric Topol é o editor chefe do Medscape; O Dr. Amitabh informou não ter relações financeiras relevantes.

Ann Intern Med. Publicado em 08 de julho de 2019. Abstract , Editorial

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