Viés de gênero ainda é comum na medicina

Norra MacReady

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15 de julho de 2019

O viés de gênero inconsciente continua a ser comum na área da saúde em geral e nas especialidades intervencionistas em particular, sugerem novos dados. Os autores dizem que este viés pode ajudar a explicar por que as mulheres não crescem profissionalmente mais rapidamente nas especialidades cirúrgicas.

Em uma revisão de testes feitos com cerca de 43.000 profissionais de saúde, incluindo 131 cirurgiões, os pesquisadores descobriram que tanto os entrevistados do sexo masculino quanto os do sexo feminino "têm vieses implícitos e explícitos, associando os homens à carreira e à cirurgia e as mulheres à família e à medicina de família". Viés implícito foi definido como a crença inconsciente que pode levar alguém a agir de forma incoerente com os valores ou opiniões que professa.

Os resultados se somam ao crescente corpo de pesquisas sugerindo que as instituições médicas como os hospitais e as faculdades de medicina deveriam fazer mais para promover a diversidade em seus espaços, especialmente quando se trata de alavancar as carreiras das mulheres.

"A consciência da existência do viés implícito é um primeiro passo importante para minimizar seus potenciais efeitos", escreveram a Dra. Arghavan Dr. Salles, Ph.D., médica do setor de cirurgia minimamente invasiva do Departamento de Cirurgia da Washington University em St. Louis, Missouri, e colaboradores, em um artigo publicado on-line em 05 de julho no periódico JAMA Network Open.

Os profissionais em posições de liderança como a chefia de departamentos e as chefias de setores devem parar de questionar se o preconceito ainda existe e, em vez disso, perguntar: "o que estamos fazendo para resolver este problema? Como vamos fazer para ajudar as mulheres a ter sucesso neste campo, em vez de afugentá-las daqui?" disse Dra. Arghavan ao Medscape.

Por exemplo, a médica observou que, apesar de cada vez mais mulheres estarem se tornando cirurgiãs, muitas vezes elas passam por "uma série de situações desafortunadas que têm a ver com microagessões e com este viés, e muitas vezes, quando isso acontece, são levadas a crer que estão exagerando ou são sensíveis demais".

Um incidente pode não ser muito traumático, reconhece a Dra. Arghavan, "mas a repetição incessante dele dificulta continuar trabalhando nessa área. Assim, em vez de dizer a alguém para pegar leve, o que deve ser dito é 'que este comportamento não é adequado, vamos descobrir por que isso aconteceu e garantir que não volte a acontecer'".

A Dra. Arghavan destaca que esse viés não se limita à cirurgia. Por exemplo, mesmo em especialidades como a pediatria e a ginecologia e obstetrícia, que não são tão dominadas pelos homens, a maioria dos chefes ainda é homem, diz a médica.

No seu estudo, os autores revisaram os resultados de 42.991 profissionais de saúde que fizeram o teste de associação implícita entre o gênero e a carreira (IAT, do inglês Implicit Association Test) entre 1o de janeiro de 2006 e 31 de dezembro de 2017. Como parte do IAT, os participantes atribuíam as palavras que apareciam em um lado da tela do computador a categorias que apareciam do outro lado da tela. O teste é cronometrado se baseia no pressuposto de que os conceitos mais íntimos do entrevistado serão conectados mais rapidamente. O teste também contém questões sobre o viés explícito, tais como: "para você, qual é a importância da associação entre a carreira e a família aos homens e às mulheres"?

Dentre os profissionais de saúde que fizeram o IAT relacionado com gênero e carreira, 82% eram mulheres e os participantes tinham várias profissões diferentes, como enfermagem, nutrição e auxiliares de enfermagem de homecare. Os resultados sugerem que eles tinham vieses implícitos (pontuação média D e desvio padrão ou DP = 0,41 e 0,36; d de Cohen = 1,14) e explícitos (média D e DP = 1,43 e 1,85; d de Cohen = 0,77) associando os homens à carreira e as mulheres à família.

Para analisar especificamente o viés entre os cirurgiões, Dra. Arghavan e colaboradores criaram um teste de associação implícita entre o gênero e a especialidade, no qual os termos "carreira" e "família" foram substituídos pelos termos "cirurgia" e "medicina de família". O teste foi aplicado a 131 pessoas, dentre as quais 85 eram homens (64,9%) e 46 (35,1%) mulheres que participaram da reunião anual do American College of Surgeons em outubro de 2017.

Achados semelhantes foram identificados entre os cirurgiões em termos de vieses implícitos (pontuação média D e DP = 0,28 e 0,37; d de Cohen = 0,76) e explícitos (homens: pontuação média D e DP = 1,27 e 0,39; d de Cohen = 0,93; mulheres: pontuação média D e DP = 0,73 e 0,35; d de Cohen = 0,53) associando os homens à cirurgia e as mulheres à medicina de família.

"Houve ampla evidência consensual entre os grupos sociais em termos dos vieses implícitos e explícitos com uma exceção", escreveram os autores.

"As mulheres da saúde (pontuação média e DP = 1,43 e 1,86; d de Cohen = 0,77) e as cirurgiãs (pontuação média e DP = 0,73 e 0,35; d de Cohen = 0,53) tiveram menos probabilidade do que os homens de  associar explicitamente os homens à carreira (coeficiente B = - 0,10; intervalo de confiança, IC, de 95% de - 0,15 a - 0,04; P < 0,001) e à cirurgia (coeficiente B = - 0,67; IC 95% de - 1,21 a - 0,13; P = .001), e as mulheres à família e à medicina de família".

Esses achados não causam surpresa e "aprofundam a nossa percepção de como as mulheres são vistas na cirurgia e de como isso contribui para cercear as carreiras delas", escreveram a Dra. Fahima Dossa e Dra. Nancy N. Baxter, PhD, ambas médicas, como comentaristas convidadas.

"Esses resultados parecem contar uma história clara e coerente do viés de gênero na cirurgia, que provavelmente se manifesta de maneiras que comprometem o sucesso profissional das mulheres".

No entanto, "saber que o viés existe não se traduz em mudança de comportamento", escrevem a Dra. Fahima, do Departamento de Cirurgia da University of Toronto, e a Dra. Nancy, do Departamento de Cirurgia do St. Michael's Hospital em Toronto, Ontário, Canadá.

"Um ponto de partida para a mudança pode ser o reconhecimento de que todos temos vieses e a reflexão sobre como isso pode afetar a nossa percepção da realidade".

A diversidade pode ajudar as instituições, bem como as pessoas, a prosperar, concluem as autoras do estudo. "Especificamente, as instituições com as lideranças mais diversificadas são as mais produtivas e lucrativas", e "os pacientes ficam mais satisfeitos com seu atendimento quando ele é prestado por alguém que se parece com eles".

"Para melhorar o recrutamento e a retenção dos residentes, temos de compreender melhor os fatores que contribuem para a sub-representação das mulheres".

Dra. Arghavan Salles informou receber honorários da Medtronic para consultoria e palestras. Nenhuma outra relação financeira relevante foi divulgada pelos autores do estudo ou editorialistas.

JAMA Network Open. 2019;2:e196545. Texto completo, Editorial

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