Desafios emocionais peculiares enfrentados pelos oncologistas

Roxanne Nelson

Notificação

11 de julho de 2019

Os médicos detêm o maior índice de suicídio de todas as profissões e os oncologistas enfrentam desafios emocionais peculiares inerentes à sua especialidade.

CHICAGO — Em uma sessão sobre o suicídio de médicos e os fatores que contribuem para este evento devastador, um palestrante destacou os desafios emocionais peculiares dos oncologistas na prática clínica.

Diariamente o oncologista entra em uma sala onde tem uma pessoa "sofrendo profundamente".

"Os oncologistas fazem isso o tempo todo, e passam a conhecer muito bem os pacientes e os familiares deles".

"O paradoxo é que nós sofremos quando eles sofrem", disse o Dr. Bill Eley, médico e reitor executivo associado da Emory University School of Medicine em Atlanta, Geórgia, oncologista especializado em câncer de mama.

"É uma tarefa claramente humana a cumprir. É claramente darwiniano evitar a morte. Estamos programados (…) somos condicionados a evitá-la".

"E, no entanto, nós, como oncologistas entramos nestas salas todos os dias e fazemos o melhor que podemos", disse o médico.

O segundo dilema para o oncologista é que os tratamentos prescritos também podem causar muito sofrimento.

Dr. Bill citou o próprio irmão, que morreu há cinco anos de câncer de pulmão e fez quimioterapia.

"Mas, como só o meu irmão poderia dizer – 'este centro de infusão que você tem é uma elegante câmara de tortura cujos funcionários são os seres humanos mais gentis do mundo'".

A terceira questão da oncologia é que o relacionamento com os pacientes se tornou muito mais prolongado. "Nós mantemos mais pessoas vivas, felizmente, mas isso aumenta a complexidade do que fazemos", disse o médico.

Quando o oncologista estabelece essa relação e, a seguir, perde o paciente, isso causa tristeza e sofrimento.

"Eu acho que essas três coisas são as mais específicas da nossa especialidade do que qualquer outra coisa – a quantidade de sofrimento que causamos com o tratamento, a morte e os resultados de uma relação positiva prolongada, o que apenas torna o processo ainda mais doloroso", disse o Dr. Bill.

O Dr. Bill, a seguir, citou o escritor místico Carlos Castañeda: "O truque é o que você valoriza. Nós nos tornamos infelizes ou nos tornamos fortes. A quantidade do investimento é a mesma".

"Muitas vezes as pessoas dizem que eu sou a pessoa mais sortuda do mundo por trabalhar com as pessoas com as quais trabalho. E eu encontro os pacientes e seus familiares em alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas", disse o médico.

Ele fez uma palestra em uma sessão especial realizada durante o recente encontro anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO). A sessão foi intitulada, "O elefante na sala: tratando a depressão e o suicídio entre os oncologistas".

Uma das palestras destacou a pressão enfrentada pelos estudantes de medicina, bem como a intensificação dessa pressão ao entrarem no internato e durante os primeiros anos de profissão.

O Dr. Bill comentou que na faculdade de medicina e na residência "é quase como se tivéssemos transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) recidivante, sem tratamento".

"Vemos tragédias e mais tragédias. E vamos atender o próximo paciente. E vamos atender o próximo paciente. E damos muito pouca atenção à elaboração da nossa dor e tristeza e sofrimento".

A partir da própria experiência com os pacientes com câncer, o Dr. Bill disse ter aprendido a bravura, a gratidão e a sabedoria.

"Eu certamente me tornei mais humilde e quero viver uma vida de aprendizado para ajudar os outros, e acho que eu me tornei inspirado", disse.

O especialista concluiu ressaltando que acredita que "só podemos chegar lá se nos envolvermos inteiramente com o sofrimento. É quase antitético o fato de que para superar o sofrimento tenhamos de mergulhar nele, em vez de nos proteger".

"Nos proteger é uma forma de nos desligarmos, nos isolarmos e todos os tipos de outras coisas", acrescentou Dr. Bill. "Precisamos continuar sentindo. E precisamos fazer isso uns com os outros".

Não é um problema novo

Entre os fatores conhecidos que contribuem para o suicídio entre os médicos, a depressão e o esgotamento físico e mental (burnout) encabeçam a lista, comentou outra palestrante, a Dra. Michelle B. Riba, médica do University of Michigan Comprehensive Depression Center em Ann Arbor.

Este também não é um problema novo, ressaltou a médica.

"A declaração de consenso de 2003 da American Medical Association (AMA) sobre o bem-estar do médico concluiu que a cultura médica atribui baixa prioridade à saúde mental do médico, apesar das evidências dos transtornos do humor não tratados e dos suicídios", disse a palestrante.

Agora, 16 anos depois, não mudou muito. "Existem muitas barreiras ao tratamento em termos de discriminação e autorização do conselho para trabalhar, privilégios hospitalares e progresso na carreira", indicou a Dra. Michelle.

Vários estudos avaliaram a depressão e o suicídio entre os médicos. Um é o Intern Health Study, um estudo longitudinal sobre a depressão entre os internos de todo o país, que rastreou 740 internos em várias especialidades em intervalos de três meses durante seu primeiro ano de atendimento (Arch Gen Psychiatry. 2010;67:557-565).

Os pesquisadores descobriram que a prevalência de depressão aumentou drasticamente durante o internato, de 3,9% para 25,3%.

"Foi em uma espécie de ciclo", disse a Dra. Michelle. "Houve uma associação direta entre o número de horas trabalhadas e o risco de depressão".

"No internato, uma média mais alta de horas de trabalho real não só identificou erros médicos reais, como indicou eventos estressantes na vida", disse a médica.

 

Obstáculos e soluções

Outro estudo analisou os obstáculos ao tratamento da depressão entre os internos. Os participantes disseram que a falta de tempo, a preferência por resolver os próprios problemas, os problemas de acesso, o estigma, as questões de custo e a crença que o tratamento não funciona foram os principais motivos para não procurar atendimento. (J Grad Med Educ. 2010;2:210-214).

"Sabemos em psiquiatria que, em termos de depressão, o melhor tratamento, o ideal, costuma ser com medicamentos e algum tipo de psicoterapia", explicou Dra. Michelle.

"Mas apenas 6,7% dos internos estavam sendo tratados com medicamentos e psicoterapia, 8,1% somente com a terapia e nenhum apenas com medicamentos".

Deste grupo, 85,2% não fizeram nenhum tratamento, demonstrando que o rastreamento da depressão "simplesmente não basta", disse a Dra. Michelle.

Desde a publicação do estudo original em 2010, foram feitos muitos outros estudos, avaliando não somente a depressão, como também o esgotamento físico e mental e o suicídio entre os estudantes de medicina, residentes e médicos no início da carreira.

Um artigo informou que dos 381.614 residentes entre 2000 e 2014, 324 morreram durante a residência; 220 homens e 104 mulheres ( Acad Med. 2017;92:976-983).

"As principais causas, em geral, entre os residentes foram o câncer seguido do suicídio e dos acidentes", disse Dra. Michelle aos participantes do congresso. "Mas, entre os homens, o suicídio foi a causa principal. E entre as mulheres, as neoplasias foram a causa principal".

A morte por suicídio entre os residentes foi maior no início da residência, observou Dra. Michelle.

Em geral, a prevalência de suicídio é cerca de 1,4 vezes maior entre os médicos do sexo e 2,2 maior entre as médicas em comparação aos controles pareados por idade.

Quanto aos fatores que levam ao suicídio, a Dra. Michelle indicou diferenças acentuadas entre os médicos e a população geral. Os médicos têm menor probabilidade de ter vivenciado a morte de familiares ou amigos, porém maior probabilidade de ter tido algum problema no trabalho. Existe maior nível mensurável de utilização de benzodiazepínicos e barbitúricos entre os médicos, existência de doença mental, e os médicos tendem a ser mais velhos.

"Existem grandes barreiras em procurar ajuda para obter diagnóstico e tratamento, decorrentes do estigma", observou a palestrante.

Encontrar soluções pode ser complexo e existem agora "muitos grupos tentando encontrar soluções para prestar assistência aos residentes, internos, estudantes de medicina e médicos em geral, sem precisar ir ao consultório do profissional de saúde mental", disse a Dra. Michelle.

As intervenções de terapia cognitivo-comportamental pela internet são um exemplo cuja eficácia é comprovada. Dra. Michelle explicou que a sua instituição, a University of Michigan, tem usado os formatos de intervenção pela internet ou em grupo para ajudar os estudantes de medicina e residentes a obter o atendimento adequado.

"Temos de começar a mudar o currículo e oferecer apoio emocional e social desde o início da formação para os estudantes de medicina, internos, residentes e especializandos, e médicos no início da carreira", concluiu Dra. Michelle.

Médico, cura a ti mesmo!

O que pode ser feito sobre o a depressão, o esgotamento físico e mental e o suicídio dos médicos?

"Provavelmente não existe nenhuma resposta", disse o Dr. Daniel McFarland, médico osteopata especialista em psico-oncologia no Memorial Sloan Kettering Cancer Center em Nova York.

"Existem bons dados e bons argumentos de consenso, e acredito que haja muito bom-senso, de modo que provavelmente todos poderíamos entrar em acordo sobre como combater este problema".

O aforisma "médico, cura a ti mesmo!" é exato quando se trata de cuidar da saúde física, porque os médicos fazem um bom trabalho nesta esfera. Mas não tanto para a saúde mental, disse Dr. Daniel.

"Fazemos um péssimo trabalho em termos de cuidar de nossa saúde mental e, em certo sentido, somos quase uma população vulnerável", disse o médico.

"Eu gostaria propor esse argumento, pelo menos em termos de saúde mental".

Os estudos que têm procurado maneiras de reduzir o esgotamento físico e mental e a depressão – e, esperamos, fazer a prevenção do suicídio – avaliaram várias intervenções, das mais simples às mais complexas.

Em uma intervenção relativamente simples, por exemplo, os participantes preencheram um questionário (The General Health Questionnaire 12) e, a seguir, receberam uma carta pelo correio explicando o que sua pontuação significava e como poderiam se ajudar. "E isso realmente teve um efeito benéfico", disse Dr. Daniel.

Outros estudos avaliaram intervenções presenciais e individuais, intervenções feitas on-line e intervenções em grupo, com diferentes metodologias.

"Algumas intervenções usaram a técnica chamada de atenção plena (mindfulness) – aprender uma intervenção de atenção e consciência que pode ser ensinada e vivenciada", disse Dr. Daniel. "Algumas são feitas com discussão e narrativa para expressar a modalidade de aprendizado".

No entanto, em geral, há problemas com esses tipos de estudo. Seus resultados são variáveis, a maioria é feita com informações dadas pelo próprio paciente e poucos têm desfechos sólidos, indicou o Dr. Daniel.

"Assim, em outras palavras, o que você faz para evitar que alguém tenha um esgotamento físico e mental? Ou o que fazer com uma pessoa que na verdade já está com esgotamento físico e mental?"

"Me parece que em termos de chegar ao cerne do que seria uma boa intervenção para isso, precisamos olhar para as causas", acrescentou.

"Um artigo que li recentemente formulou a pergunta: Estamos tratando os sintomas sem tratar a doença? E acredito que seja o X da questão. No fim das contas, trata-se fundamentalmente de uma mudança de cultura", concluiu o Dr. Daniel.

American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2019: Special session: "Elephant in the Room: Addressing Depression and Suicide Among Oncology Providers." Apresentado em 3 de junho de 2019.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....