Quase um quarto dos pacientes com transtorno bipolar usam Cannabis

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

8 de julho de 2019

Quase um quarto dos pacientes com transtorno afetivo bipolar (TAB) faz uso de Cannabis. Essa foi a conclusão a que chegaram pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) após conduzir uma revisão sistemática com metanálise.

Os resultados foram publicados na edição de junho do periódico Neuroscience & Biobehavirol Reviews. [1] O Dr. Jairo Vinícius Pinto, psiquiatra do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da UFRGS falou ao Medscape sobre o estudo.

A partir de buscas por artigos sobre o tema publicados até maio de 2018 nos bancos de dados PubMed, Embase e Web of Science, os autores identificaram 2.918 estudos – sendo que 53 foram incluídos na revisão.

Ao avaliar o uso de Cannabis (ou qualquer tipo de transtorno por uso de Cannabis) como um grupo geral, os autores estimaram a prevalência como sendo de 24%. Já a prevalência de qualquer transtorno por uso de Cannabis, quando aplicados critérios mais estritos, foi de 20%, taxa bem superior à observada na população geral, que, segundo dados da literatura, varia de 2% a 7%. [2,3]

Transtorno por uso de Cannabis é definido como um padrão nocivo de uso. "Assim, quando avaliamos um paciente, precisamos investigar uma série de sintomas associados a esse quadro, e o que o diferencia do uso eventual. Dentre eles, podemos citar como exemplo perda do controle sobre o uso da substância (uso de quantidades maiores do que o planejado ou tentativas malsucedidas de cessar ou controlar o uso), manutenção do uso apesar dos riscos e consequências, fissura, tolerância, sintomas de abstinência e impactos negativos à vida da pessoa em diversos âmbitos", explicou.

A alta prevalência observada entre pacientes com TAB não surpreendeu os pesquisadores. Segundo o Dr. Jairo, metanálises anteriores já mostraram que a prevalência de transtornos por uso de outras substâncias também foi alta entre pacientes com TAB, além disso, estudos isolados descreveram altas taxas de transtorno por uso de Cannabis entre pacientes com transtorno bipolar.

O trabalho mostrou ainda que o uso de Cannabis foi significativamente associado a ser mais jovem, solteiro, do sexo masculino, ter escolaridade mais baixa, bem como mostrar início precoce de sintomas afetivos, sintomas psicóticos ao longo da vida, história de tentativas de suicídio, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e uso de outras substâncias.

De acordo com o pesquisador, os achados estão associados principalmente ao padrão nocivo do uso de Cannabis, portanto, não se pode concluir que o uso eventual tenha um impacto clínico negativo nos pacientes com TAB. Isso porque a maioria dos artigos incluídos nas análises utilizou os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) para o diagnóstico do uso nocivo de Cannabis.

"Essas classificações ao longo dos anos e de suas várias versões utilizaram diversas nomenclaturas, como abuso, uso nocivo, dependência e transtorno por uso de Cannabis, que se referem, de modo geral, a um padrão de uso claramente prejudicial à saúde, que difere do uso eventual", esclareceu.

Além disso, o Dr. Jairo lembrou que a equipe incluiu nas análises apenas resultados transversais, ou seja, com dados "atuais", sem compará-los ao longo do tempo.

"Essa é uma limitação do estudo, pois não podemos atribuir causalidade aos nossos resultados, assim sendo, não se pode concluir, por exemplo, que a Cannabis causa suicídio nos pacientes com TAB. Podemos apenas apontar a associação, e esse é um ponto bem importante para ter em mente ao interpretar os nossos resultados. A partir disso, mostramos que há um perfil de pacientes com características específicas, o que pode gerar hipóteses para serem investigadas em futuros estudos longitudinais, ou seja, que observem os fenômenos ao longo do tempo", ressaltou.

Outro ponto que merece destaque, segundo o especialista, é que a planta Cannabis tem mais de 100 componentes conhecidos, como os canabinoides, sendo o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) os dois encontrados em maiores quantidades, porém em concentrações ou proporções variadas.

"Sabe-se que costumam apresentar efeitos opostos, por exemplo, o THC pode induzir sintomas psicóticos, enquanto o canabidiol tem propriedades antipsicóticas. Devido à falta de dados nos estudos originais, não pudemos comparar ou investigar o efeito da potência da Cannabis (ou a diferença das concentrações de THC e canabidiol) nos resultados", afirmou.

Os resultados da pesquisa da UFRGS permitiram identificar um grupo de pacientes que tem início dos sintomas de humor mais precoce, bem como outras características clinicamente relevantes. Para o psiquiatra, esses achados sugerem que, na prática clínica, ao avaliar um paciente com TAB, é importante sempre investigar a presença de transtorno por uso de Cannabis, pois a prevalência é alta.

"Uma vez que essa comorbidade foi identificada, é prudente sempre avaliar com atenção características clínicas, como ideação suicida, sintomas psicóticos, tabagismo e uso de outras substâncias psicoativas, para determinar a estratégia terapêutica de forma mais completa e personalizada", orientou.

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