Reprodução assistida e câncer
Todo ano, entre 1 e 2 milhões de tratamentos de fertilização in vitro (FIV) realizados em todo o mundo resultam em 8 milhões de crianças. [1] A segurança dos tratamentos de fertilidade foi avaliada desde o início do uso das técnicas de reprodução assistida (RA), e os relatos sobre o risco de câncer entre crianças concebidas por meio delas têm sido conflitantes. [2,3]
Um estudo recente [4] avaliou o risco de câncer entre os filhos de mulheres subférteis atendidas em clínicas de fertilidade na Holanda. Dos 47.690 nascidos vivos, 231 (93 concebidos por RA e 138 concebidos sem RA) tiveram diagnóstico de câncer durante uma mediana de 21 anos de acompanhamento.
Os resultados do estudo foram os seguintes:
O risco geral de câncer não aumentou nas crianças concebidas por RA em comparação com crianças concebidas naturalmente por mulheres subférteis ou na população geral.
O risco de câncer não aumentou entre os filhos de mães expostas a medicamentos para fertilidade, em comparação com filhos concebidos naturalmente.
Observou-se um discreto aumento do risco, mas não significativo, de câncer entre as crianças concebidas por injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI, do inglês intracytoplasmic sperm injection) ou criopreservação.
Os riscos para leucemia linfoblástica e melanoma não aumentaram de maneira significativa nas crianças concebidas por RA em comparação com crianças concebidas naturalmente.
Pontos de vista
Relatos conflitantes foram publicados em relação ao risco de câncer entre crianças nascidas por RA. [2,3] Esses relatos são tipicamente limitados pelo baixo número de tumores envolvidos, períodos curtos de acompanhamento e o uso de grupos de comparação inadequados.
O estudo atual usou uma grande coorte de mulheres expostas a RA e um longo período de acompanhamento, e comparou os desfechos com a população geral, bem como com uma coorte de mulheres subférteis que não foram submetidas a RA. Isto permitiu estudar o papel da exposição aos medicamentos para fertilidade e manipulações in vitro isoladamente após o controle por subfertilidade.
Há razões plausíveis para se preocupar com o câncer em crianças nascidas por RA. Durante a RA, os embriões são mantidos fora do trato reprodutivo feminino por alguns dias, o que pode afetar a programação epigenética deles. [5] Diferenças na programação epigenética podem influenciar a atividade de vários genes que podem afetar a saúde da prole.
Neste estudo, a coorte foi submetida a tratamentos de RA entre 1983 e 2000. Os tratamentos de RA mudaram significativamente desde então. A cultura de embriões estendida até o estágio de blastocisto tornou-se mais comum. Esta cultura in vitro mais longa pode alterar ainda mais a metilação do gene e, portanto, será importante comparar os desfechos com a clivagem versus transferência no estágio de blastocisto. A criopreservação de embriões, oócitos e até tecido ovariano é cada vez mais utilizada. Algumas tendências para maior risco de câncer foram observadas neste estudo após a transferência de embriões congelados, mas o número de casos foi muito pequeno para a análise por subgrupos.
Este estudo não encontrou um risco aumentado de câncer em crianças concebidas por RA ou após a exposição a medicamentos, mas à medida que novas tecnologias são introduzidas e o número de ciclos de tratamento aumenta, novos estudos serão necessários para confirmar sua segurança.
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Citar este artigo: Câncer em crianças nascidas por fertilização in vitro: o risco é real? - Medscape - 17 de mai de 2010.
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