Retinopatia pode ser um marcador de infecção grave por febre amarela

Roxana Tabakman

Notificação

2 de julho de 2019

Uma pesquisa de coorte observacional e transversal evidenciou que 20% dos pacientes hospitalizados por febre amarela apresentaram retinopatia associada a doença sistêmica grave.

Os autores descreveram o achado em artigo publicado no periódico JAMA Ophthalmology, no qual indicaram que este quadro pode ter sido subdiagnosticado, porque o protocolo de atendimento pacientes com doença grave não contemplou exames oftalmológicos.

"Embora a febre amarela seja uma doença descrita há bastante tempo, não havia na literatura nenhum tipo de caraterização sistemática das possíveis manifestações retinianas. Sabíamos uma parcela dos pacientes infectados com vírus como os de dengue, chicungunha e zika, apresenta alterações, mas, surpreendente, não haviam notificações para a febre amarela", disse ao Medscape o Dr. Daniel Vitor Vasconcelos-Santos, professor de oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

"Diante de dois grandes surtos, em duas estações consecutivas, nos quais o epicentro foi Minas Gerais, tivemos tempo de nos organizarmos, e, assim, encontramos uma série de alterações que conseguimos caracterizar."

Dr. Daniel Vitor Vasconcelos-Santos

Até a publicação do artigo, as alterações oftalmológicas descritas em pacientes com febre amarela limitavam-se a icterícia conjuntival e hiperemia. Também haviam sido descritos casos de inflamação intraocular induzida por vacinas contra febre amarela. Entre os novos achados, os mais importantes e clinicamente relevantes, segundo o Dr. Daniel, foram: "a identificação de marcadores clínico-laboratoriais, possivelmente associados a maior ocorrência de retinopatia; e o fato de a retinopatia ter sido mais frequente nos pacientes com doença grave".

A pesquisa

Os pesquisadores tiveram oportunidade de avaliar a retina de 94 pacientes consecutivos com suspeita de febre amarela atendidos no Hospital Eduardo de Menezes (HEM), em Belo Horizonte.

"A febre amarela foi confirmada em 64 dos 94 pacientes, mas a confirmação ou exclusão da infecção ocorreu mais tarde. Tivemos, portanto, 64 casos de febre amarela e 30 controles que avaliamos em forma mascarada."

A equipe diagnosticou retinopatia em 13 dos 64 pacientes com febre amarela confirmada, sete com envolvimento bilateral. A retinopatia foi associada a aminotransferase ≥ 3.000 U/L; bilirrubina ≥ 2,3 mg/dL; creatinina ≥ 2,0 mg/dL; lactato arterial ≥ 17,1/mg/dL; e plaquetas ≤ 94 × 103 /μL. A retinopatia foi bem mais frequente nos pacientes com doença grave.

Os exames oftalmológicos revelaram três diferentes padrões de alteração, mas nenhum dos pacientes com retinopatia havia reportado problemas visuais.

"Todas as alterações foram assintomáticas. A retinopatia, aliás, poupava as regiões que levariam à redução da visão. Acreditamos que, mais do que marcadores de um problema oftalmológico, as alterações da retina podem ser indicativas de um acometimento sistêmico mais grave. Em locais com poucos recursos, ou quando os resultados dos exames laboratoriais ainda estiverem pendentes, a avaliação oftalmológica (técnica menos invasiva que os exames laboratoriais) em indivíduos com suspeita de febre amarela permitiria identificar alterações que podem sugerir uma manifestação mais grave da doença."

As conclusões do trabalho são limitadas pelo tamanho da amostra, e são necessários mais estudos para avaliar e validar a retinopatia como um possível prognóstico de gravidade em pacientes com febre amarela.

Em um comentário que acompanha o estudo[2] especialistas norte-americanos destacaram o fato de esta ser a primeira vez que são reportadas manifestações oculares relacionadas com a febre amarela aguda, e indicaram que os surtos de doenças emergentes que afetam os olhos obrigam a ter uma melhor compreensão da doença utilizando combinação de estudos para sustentar os protocolos e diretrizes de atendimento.

Os comentaristas explicaram o interesse, ressaltando o significado para a saúde mundial: "Nos últimos anos, as ameaças à saúde pública devido ao vírus Zika e o vírus Ebola aumentaram a conscientização sobre os efeitos visuais das sequelas oculares associadas a doenças infecciosas emergentes. Quarenta e sete países da África e 13 das Américas do Sul e Central são endêmicos ou têm regiões endêmicas para febre amarela."

Erradicada dos grandes centros urbanos desde 1942, a Fdoença voltou a preocupar os brasileiros em 2017, com a proliferação de casos de febre amarela silvestre, que ocorrem, em sua maioria, no verão. Os surtos permitiram a avaliação das características da doença, como envolvimento cardíaco, e os fatores de risco de morte.

Agora, uma equipe com dezenas de profissionais brasileiros, da ciência básica à área clínica, deu um passo adiante ao associar retinopatia a doença sistêmica mais grave.

"Se tivermos um paciente com suspeita de febre amarela e encontramos estas alterações nos olhos dele, podemos suspeitar de que a doença seja grave, e encaminhá-lo mais rapidamente para os cuidados intensivos", resumiu o Dr. Daniel

O Dr. Daniel Vitor Vasconcelos-Santos informou não ter conflitos de interesses relevantes.

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