Brain 2019: um debate sobre como as substâncias psicodélicas podem impactar os tratamentos psiquiátricos

Marina Cardozo

Notificação

27 de junho de 2019

"Ainda há tanto que não sabemos". A reflexão é do psiquiatra norte-americano Dr. Robert Malenka, que se refere aos efeitos das drogas psicodélicas na mente humana. O professor foi um dos especialistas que debateram o assunto no congresso Brain Behavior and Emotions (Brain 2019), realizado em Brasília em junho.

Um dos painéis do evento abordou o potencial terapêutico dos alucinógenos, especialmente da metilenodioximetanfetamina (MDMA) e da psilocibina. Entre os participantes, havia um consenso sobre a existência de um caminho a ser explorado e sobre a necessidade de aprofundamento acerca dos efeitos dessas substâncias.

Para o neurologista Dr. André Palmini, para entender a ação dessas substâncias, primeiro é preciso compreender a relação entre a teoria da mente e o papel do sistema neural default mode – ativado quando o indivíduo não está executando nenhuma tarefa, como um "modo de repouso".

"Essas redes neurais padrão são fundamentais para funcionarmos. Mostram que a capacidade de lidar com o que está passando na cabeça do outro do nosso meio é fundamental para a sobrevivência", esclareceu.

Segundo o Dr. André, estudos em humanos e em macacos mostraram claramente uma co-localização anatômica entre redes neurais ligadas à compreensão social, à teoria da mente e ao default mode. Gestantes, por exemplo, começam a apresentar alterações nas estruturas corticais ligadas à teoria da mente logo nas primeiras semanas de gestação, o que explica a capacidade das mães compreenderem o porquê do choro de seus filhos, mesmo sem a presença de indicativos.

"De certa forma, isso nos torna seres civilizados, e capacitados para viver em sociedades civilizadas, porque, isso controla e restringe os nossos pensamentos", explicou, e relacionou à questão das drogas psicodélicas.

"Experimentos mostram que temos uma espécie de outro cérebro, um outro conjunto de pensamentos, que estão submersos e são controlados por essa rede neural cortical, que mantêm nossas mentes organizadas dentro do que podemos chamar de um contexto social." O neurologista exemplificou que isso ocorre com a noção da passagem do tempo e da forma como se percebe a realidade (cores, formas e profundidade).

Efeitos

Contrapondo-se a isso, estão os efeitos das drogas psicodélicas. De acordo com o médico, participantes de estudos relataram sensação de liberdade, como se tivessem soltado amarras, e ainda disseram ter tido a impressão de que eram seres sendo espalhados por todas as direções. Há uma mudança na percepção do tempo e espaço.

"Durante os experimentos, demonstrou-se a desativação da rede neural default. O supervisor do controle do pensamento se desligou. E havia uma correlação direta entre a redução do fluxo sanguíneo em áreas do default network e a intensidade das 'viagens'", completou.

Assim, disse o neurologista, observa-se que o ser humano têm um modo primitivo de cognição que é suprimido pelo modo de consciência do indivíduo adulto. "Esse modo primitivo domina desde o nascimento, e à medida que vamos desenvolvendo o córtex, isso atinge-se um nível consciente", acrescentou.

O especialista citou um estudo sobre depressão refratária e drogas psicodélicas do Imperial College London publicado no periódico Nature, cujos resultados mostraram que 47% dos pacientes responderam à psilocibina.

"Houve clara relação entre a ativação e a desativação de estruturas cruciais para o funcionamento emocional, como a amígdala e o efeito da substância. A pessoa fica mais realista em relação ao que vai acontecer na vida dela", mencionou.

Também se observa eficácia a respeito do pessimismo e da ruminação em torno de coisas ruins, esta última intimamente relacionada com a ativação do default network, a mesma rede que pode ser desativada pelos psicodélicos.

O próximo passo, portanto, seria investigar o que aconteceria se essas redes de ruminação pudessem ser desativadas, qual seria o potencial terapêutico dessas substâncias.

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