Fazer um "diário de gratidão" aumentou o bem-estar de médicos residentes

Megan Brooks

Notificação

26 de junho de 2019

São Francisco — Fazer um "diário de gratidão" aumenta a sensação de bem-estar, o que pode melhorar a qualidade de vida dos residentes de psiquiatria, sugere uma nova pesquisa.

"Descobri que escrever um 'diário de gratidão' ativa o lado racional do meu cérebro. É bom para aliviar o estresse e me faz olhar para as coisas boas da minha vida", disse ao Medscape a Dra. Kemper Schumacher, médica residente, do Harvard South Shore Psychiatry Residency Program, Harvard Medical School, em Boston.

Os resultados foram apresentados no encontro anual de 2019 da American Psychiatric Association (APA).

A preocupação com o bem-estar dos residentes está aumentando, mas há poucas ferramentas para ajudar a promover o bem-estar durante a residência médica. Estudos mostraram que, no momento do agradecimento, há melhor conectividade funcional entre as regiões cerebrais que regulam a emoção e a motivação. Os resultados indicaram que escrever um "diário de gratidão" leva à "reestruturação cognitiva", disse a Dra. Kemper.

Em um estudo piloto com 12 residentes de psiquiatria, a Dra. Kemper e dois colegas avaliaram o impacto de escrever um "diário de gratidão" na percepção da qualidade de vida dos residentes. Por meio de mensagem de texto enviadas todas as noites, foi solicitado que os participantes escrevessem cinco aspectos do dia pelos quais eles sentiam gratidão, com uma meta de 16 registros durante o mês do estudo.

Escrever o diário de gratidão levou a um aumento médio de sete pontos na qualidade de vida segundo o Quality of Life Enjoyment and Satisfaction Questionnaire, questionário para a avaliação de qualidade de vida, felicidade e satisfação.

A satisfação com o trabalho e, surpreendentemente, a condição econômica, tiveram a melhora mais expressiva, disse a Dra. Kemper. "Os residentes que escreveram o diário sentiram-se mais satisfeitos com o trabalho, e a percepção da própria condição financeira melhorou, apesar de não ter havido aumento salarial e de nada ter mudado em suas vidas; portanto, escrever um diário pode mudar a sua perspectiva sobre as coisas", disse ao Medscape a Dra. Kemper.

"O desafio é fazer os residentes escreverem regularmente sobre o que eles são gratos. Todos que fizeram o diário pretendiam continuar escrevendo, mas disseram que provavelmente não o fariam", acrescentou.

Voltar a ter tempo, retomar o controle

"Há mais conscientização sobre o bem-estar do médico; é absolutamente imperativo começarmos pela base da pirâmide", disse ao Medscape o Dr. Edward M. Ellison, médico e copresidente executivo da The Permanente Federation, uma organização norte-americana de liderança e consultoria para os oito grupos médicos da Permanente compostos de mais de 22.900 médicos.

"Estudos mostraram que os estudantes de medicina têm mais sensação de otimismo, bem-estar e resiliência quando entram na faculdade do que os estudantes ingressando em qualquer outro campo de estudo – ainda assim, no momento em que se formam, sua resiliência, otimismo e bem-estar são piores do que a dos graduados em outras áreas de estudo", disse o Dr. Edward.

"De modo geral, há vários trabalhos publicados sobre gratidão, e muitos dados indicando que dedicar poucos minutos por dia a escrever um diário de gratidão, ou mesmo apenas parar alguns minutos por dia para pensar em três coisas pelas quais você é grato pode fazer a diferença em seu bem-estar emocional", acrescentou.

Outras coisas que podem ajudar a promover o bem-estar e reduzir o burnout profissional não devem ser negligenciadas, Dr. Edward complementou, como sono e exercícios adequados, alimentação saudável e contato com as pessoas e coisas que você ama.

Também é importante oferecer flexibilidade na prestação de serviço e encontrar soluções para que os médicos retomem o controle e voltem a ter tempo durante o dia. A telemedicina, os atendimentos virtuais e o treinamento dos médicos para o uso mais eficiente do prontuário eletrônico de saúde devem ajudar a alcançar esses objetivos, disse o Dr. Edward.

"Os médicos são ensinados basicamente a nunca pedir ajuda, nunca admitir fraqueza; devem permanecer firmes e fortes e, claramente, isso não é certo. É de fato um ato de coragem pedir ajuda", disse o Dr. Edward.

Em termos de bem-estar, "os psiquiatras se saem muito bem", falou ao Medscape, o Dr. Bruce Schwartz, médico e presidente da APA. "Pesquisas mostram que os psiquiatras sentem menos burnout do que os médicos de outras especialidades, mas é muito importante mantermos o bem-estar em primeiro plano".

"Queremos que nossos médicos sejam produtivos e focados na própria saúde. O bem-estar é um foco importante, porque a taxa de suicídio entre os médicos não pode ser negligenciada, e perder médicos por suicídio, além de trágico, é um desperdício", disse Dr. Bruce.

O estudo não teve financiamento específico. A Dra. Kemper, o Dr. Edward e o Dr. Bruce informaram não ter relações financeiras relevantes.

American Psychiatric Association (APA). Abstract 54. Apresentado em 20 de maio de 2019.

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