Como lidar com as fake news sobre saúde

Laird Harrison

Notificação

24 de junho de 2019

No início de sua residência, a neurologista Dra. Heidi Moawad, solicitou uma tomografia computadorizada (TC) para uma paciente que deu entrada na emergência convulsionando. O exame revelou um grande tumor encefálico.

"Ela estava convencida de que a TC causou o seu tumor", recordou a Dra. Heidi, agora professora-assistente clínica da Case Western Reserve University School of Medicine, em Cleveland, Ohio. "Eu tentei lembrá-la que ela deu entrada no hospital porque teve uma convulsão. Eu disse que confiava nos meus colegas."

Mas a mulher se recusou a aceitar o terrível prognóstico até os seus familiares a persuadirem.

Se a Dra. Heidi se deparasse com essa paciente hoje em dia, ela estaria mais preparada para lidar com esses medos irracionais. Pesquisadores de ciências sociais começaram a desenvolver abordagens para dissuadir pacientes de crenças prejudiciais.

Embora a desinformação, a falta de lógica e as superstições de pacientes tenham complicado o trabalho dos médicos desde sempre, as mídias sociais levaram o problema a uma nova dimensão.

Com o retorno de doenças infecciosas como o sarampo em ascensão, em parte devido ao movimento antivacina, a necessidade de formas de falar sobre o risco de informações médicas sem evidências com os pacientes provavelmente nunca foi tão grande. Embora a desinformação, a falta de lógica e as superstições de pacientes tenham complicado o trabalho dos médicos desde sempre, as mídias sociais levaram o problema a uma nova dimensão.

Com as mídias sociais, os pacientes podem encontrar desinformações com mais facilidade, disse a Dra. Dominique Brossard, Ph.D., presidente do Departamento de Comunicação das Ciências Biológicas da University of Wisconsin,emMadison. Também é possível compartilhar a desinformação com mais facilidade.

Embora os buscadores, como o Google, possam habilmente identificar os sites mais populares e relevantes sobre um determinado assunto, eles não conseguem distinguir sites com informações precisas ou não. "As pessoas tendem a não passar da primeira página de resultados da busca", observou Dra. Dominique. A primeira página dos sites pode ser otimizada para que os sites fiquem entre os primeiros nas buscas, ou podem ser sites com informações desatualizadas.

Efeito viral da ciência de má qualidade

Os pacientes podiam ler artigos com informações equivocadas em jornais e revistas antes mesmo da internet existir, mas compartilhá-los com amigos e familiares exigia tirar cópias e enviar como cartas. Agora, com alguns cliques no mouse, qualquer um pode repassar um artigo para milhares de pessoas em segundos.

Em uma pesquisa de 2017 com participantes das Comunidades de Saúde do Facebookfeita pela WEGO Health, 87% dos entrevistados disseram que compartilhavam informações sobre saúde por meio de postagens públicas no Facebook, e 81% compartilhavam esse tipo de conteúdo em mensagens privadas. [1]

Mentiras podem se espalhar mais rápido do que a verdade. Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology analisaram um conjunto de cerca de 126.000 novas postagens publicadas no Twitter de 2006 a 2017. Eles descobriram que mais pessoas retuitaram informações falsas do que informações verdadeiras. Os pesquisadores especularam que as pessoas podem ter repassado as notícias falsas mais prontamente, porque elas eram mais apelativas e suscitavam mais emoções. [2]

"Observamos isso o tempo todo", disse Dr. Sander van der Linden, Ph.D., diretor do Social Decision-Making Lab da University of Cambridge, na Inglaterra. "Fakes viralizam".

A ampla disseminação significa que alguns pacientes podem receber repetidamente as mesmas mensagens falsas. Em outro estudo, pesquisadores da Yale University descobriram que quanto mais as pessoas recebem a mesma mensagem, maior a probabilidade de acreditarem nela, mesmo quando a mensagem é rotulada como falsa pelos verificadores de fatos das mídias sociais. [3]

Além disso, quando as pessoas estão avaliando a confiabilidade das informações sobre saúde compartilhadas on-line, elas se preocupam mais com quem compartilha as informações do que com a fonte original, de acordo com um estudo do periódico American Press Institute. [4]

"Diante desse dilúvio de desinformação, o que os profissionais de saúde podem fazer para garantir que seus pacientes estejam agindo com base em informações precisas?"

Informações falsas sobre saúde podem ter consequências reais para a saúde. Uma outra equipe de pesquisadores da Yale descobriu que, em um estudo de coorte de 1.901.815 pacientes, o uso da medicina complementar foi associado à recusa do tratamento convencional contra o câncer, e a um risco duas vezes maior de morte comparado com pacientes que nunca lançaram mão da medicina complementar. [5]

Médicos como porteiros

Diante desse dilúvio de desinformação, o que os profissionais de saúde podem fazer para garantir que seus pacientes estejam agindo com base em informações precisas?

A boa notícia é que a maioria das pessoas ainda confia nos cientistas médicos que realizam pesquisas sobre saúde. Em 2016, 84% dos entrevistados pelo Pew Research Center disseram acreditar razoavelmente de que os cientistas médicos são idôneos. Em comparação, apenas 38% disseram isso sobre a imprensa tradicional. [6]

"Os médicos são os especialistas mais confiáveis como comunicadores", acrescentou Dr. Sander. "Eles são mais persuasivos sobre as mudanças climáticas do que os meteorologistas".

No entanto, os médicos devem ser criteriosos com essa confiança, adverte ele. "Se você faz as pessoas se sentirem idiotas ou sugere que fizeram algo errado, isso pode gerar preconceito. Especialmente com temas polêmicos, como vacinas, descobrimos que as pessoas são muito defensivas".

"Muitas vezes os pacientes estão buscam alguma esperança, por isso os médicos devem começar reconhecendo essas emoções", disse a Dra. Dominique. "É crucial mostrar preocupação, empatia e escutar para início de conversa".

Necessidade da mídia por especialistas

O próximo passo depende de quais informações o paciente deseja discutir. Jornalistas podem exagerar a importância de um estudo para atrair leitores. Eles podem não saber o suficiente sobre o processo científico para relatar os dados com precisão ou podem simplesmente deixar de fora as advertências que acompanham o estudo original.

Um estudo legítimo pode mostrar uma correlação entre a saúde do cérebro e o microbioma. Um artigo escrito sobre o estudo poderia sugerir que comer iogurte cura a demência.

"Repórteres de saúde sem treinamento e inexperientes estão se tornando mais comuns porque muitos veículos de notícias estão com problemas financeiros e demitiram seus funcionários mais experientes", disse a Dra. Dominique. Ao mesmo tempo, a facilidade de publicação on-line permite que quase todos reivindiquem o título de jornalista.

Por exemplo, um estudo legítimo pode mostrar uma correlação entre a saúde do cérebro e o microbioma. Um artigo escrito sobre o estudo poderia sugerir que comer iogurte cura a demência. Se um paciente citar um artigo desse tipo, a Dra. Dominique recomenda responder algo como: "Muitos estudos foram realizados sobre esse assunto, mas precisamos ter cuidado com artigos na mídia que sensacionalizam esses estudos e os fazem parecer mais importantes do são. Talvez devêssemos avaliar o estudo original."

Combate a tratamentos sem comprovação

Uma abordagem diferente pode ser necessária quando um paciente expressa confiança em algum método claramente não científico; por exemplo, tentar curar um tumor encefálico com cristais. Neste caso, não há estudo subjacente sobre o assunto. Mesmo assim, a Dra. Dominique recomenda tato. "Como você sabe", um médico poderia dizer: "não é isso que eu faço na minha rotina, então por que não nos concentramos no método que estamos usando?"

Se uma terapia não comprovada está impedindo o paciente de se beneficiar de uma terapia comprovada, mas o tempo não é essencial, observou Dra. Heidi, um médico pode sugerir um período experimental. Por exemplo, se os cristais não tiverem resultados em seis semanas, o paciente pode concordar em passar para a quimioterapia.

Se um paciente insiste em fazer algo que parece prejudicial, a melhor abordagem pode ser um apelo pessoal, disse ela. "Explicar genuinamente que você quer que a pessoa melhore e dizer que você está pessoalmente preocupado de que, se eles fizerem apenas o tratamento alternativo, não vão melhorar da doença."

Os médicos enfrentam um desafio maior quando os pacientes têm as informações corretas sobre um estudo, mas o estudo em si foi mal planejado, for um estudo preliminar ou já tenha sido superado por outras pesquisas. Alguns pacientes podem estar interessados em entender as nuances do desenho do estudo e dos níveis de evidências, de acordo com Dr. Sander, mas a maioria lida melhor com conceitos fáceis de lembrar.

Prevenção de surtos de informações equivocadas

O Dr. Sander recomenda se comunicar com esses pacientes usando termos como "o peso das evidências em muitos estudos", "preliminares", "estudos-piloto" e "pesquisas exploratórias". "Dizemos às pessoas que 90% dos médicos concordam que as vacinas são seguras e que você deve vacinar seus filhos", disse ele.

Os pacientes muitas vezes estão convencidos de que um tratamento funciona ou não com base em uma história isolada ou um testemunho poderoso. "Damos muito valor à informação social", disse Dr. Sander. "É difícil para as pessoas entender que algo que podem observar é menos válido do que uma estatística. Geralmente, trata-se de dizer que o que acontece a uma única pessoa não é descritivo da média."

O laboratório de Cambridge também encontrou evidências de que os médicos podem antecipar alguns equívocos usando uma abordagem que eles chamam de "inoculação". Os médicos que estão cientes de algumas das informações equivocadas mais comuns podem preparar seus pacientes com antecedência. Por exemplo, os médicos podem combater os mitos sobre o perigo da vacinação mesmo antes de o paciente ou o responsável pelo paciente os ouvir.

A técnica é mais eficaz quando os pacientes são participantes ativos. Em vez de avisá-los sobre a desinformação, o médico poderia perguntar: "Quais poderiam ser alguns mitos sobre a vacinação e o que você diria para desmascará-los?"

O grupo do Dr. Sander chegou a criar um jogo on-line no qual o usuário desempenha o papel de um pessoa que faz provocações na internet, aprendendo os truques usados para espalhar informações equivocadas e, assim, se tornando um consumidor de informações mais preparado.

Os National Institutes of Health (NIH) também fornecem um conjunto de critérios que as pessoas podem usar para avaliar as informações sobre saúde em sites. [7]

No entanto, persuadir um paciente a usar esses recursos depende, acima de tudo, da força da relação médico-paciente, e ela começa com o básico. "Acho que o mais importante é tratar as pessoas com respeito", afirmou a Dra. Heidi.

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