Tecnologia digital a serviço do cuidado de idosos

Mônica Tarantino

Notificação

21 de junho de 2019

O uso de tecnologias digitais para monitorar pessoas idosas com transtornos cognitivos está em franca expansão. Existem centenas de aplicativos disponíveis para melhorar a memória, medir a qualidade do sono e evitar que idosos com comprometimento cognitivo se percam; resta saber se a qualidade dos dados coletados por esses aplicativos permite uma avaliação confiável dos parâmetros que se deseja monitorar ou mesmo melhorar.

Esse questionamento foi feito pela Dra. Raquel Quimas Molina da Costa, neuropsiquiatra, pesquisadora do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e doutoranda em neurologia na Universidade de São Paulo (USP), durante a mesa-redonda sobre demência realizada no XII Congresso Paulista de Neurociência, realizado de 29 de maio a 1º de junho no Guarujá, São Paulo.

Na visão da especialista, tudo depende da categoria e do suporte oferecidos pelo aplicativo ou wearable utilizado. Entre os recursos para aumentar a independência e autonomia dos idosos, a médica destacou os wearables (dispositivos eletrônicos usados como peças do vestuário), como as pulseiras com GPS que informam a localização do usuário para outra pessoa e os relógios com telinha, que ajudam a traçar uma rota para voltar para casa caso a pessoa se perca. Mas esses aparelhos exigem algum grau de interação do usuário, o que limita os idosos com problemas cognitivos, ainda que leves.

Em um levantamento sobre os recursos disponíveis, a Dra. Raquel também encontrou muitos aplicativos que contribuem para o desempenho das atividades cotidianas. Segundo a médica, alguns consistem em uma lista de afazeres, ajudando o idoso a conferir se deu comida para o cachorro, se fechou as portas e janelas da casa, se já tomou seus medicamentos, além de enviar lembretes de consultas agendadas, por exemplo. A maioria está disponível para Android ou iOS.

A qualidade das informações passa a ser mais questionável quando se trata dos aplicativos que mensuram a qualidade do sono, por exemplo. Como não são considerados produtos médicos, a maioria não precisa de validação científica para chegar ao mercado. A Dra. Raquel disse que é necessário conhecer mais sobre a qualidade e a validade das informações obtidas por esses aplicativos. Em geral instalados em celulares, a maioria se vale da mesma tecnologia usada em aplicativos que contabilizam a quantidade de passos dados pelo usuário durante o dia. Em testes conduzidos pelo JFK's Neuroscience Institute, nos Estados Unidos, a conclusão foi que esses softwares costumam apresentar alta sensibilidade para identificar a vigília, mas não detectam com precisão o momento que a pessoa adormece, acertando apenas na metade dos casos. 

Entre os aplicativos que podem ser muito úteis, a pesquisadora citou os que monitoram idosos que costumam ficar desorientados à noite. Segundo a Dra. Raquel, um recurso com grande potencial para cumprir essa missão é a assistente virtual Alexa, do Google.

"Trata-se de um dispositivo que integra informações de diversos setores da casa. Na verdade, é possível dispor da ajuda de sensores para quase tudo – para saber se a pessoa esqueceu alguma coisa no fogão, se o chuveiro está ligado, se a pessoa está dormindo, quantas vezes acordou." A integração desses dados permitiria a coleta de informações sobre o comportamento e a rotina de maneira mais fidedigna e detalhada. A tendência, segundo a médica, é que o uso de recursos como este aumente. Na prática, porém, ainda estamos distantes da plena utilização dessas novas tecnologias.

"Quantas pessoas você conhece, mesmo jovens, que têm uma integração de sensores em casa?", indagou a neurocientista.

Além disso, a médica também observou que muitas ideias testadas nas universidades não se convertem em produtos. Uma das propostas que mais chamou a atenção dela foi justamente um sistema desenvolvido por pesquisadores canadenses para cuidar de idosos que acordam durante a noite. Eles usaram sensores e alertas para detectar se o idoso saiu da cama, se está se movimentando pelo ambiente, e levá-lo de volta ao quarto.

"O mesmo sistema acionava uma música em volume baixo para acalmar o idoso, e acendia uma luz de rodapé azul clara para indicar o caminho de volta para o quarto", descreveu a Dra. Raquel.

A quantidade de boas iniciativas desenvolvidas por empreendedores brasileiros no campo da tecnologia digital voltadas para a saúde dos idosos impressionou a médica. Um bom exemplo é o aplicativo Gero360, criado para facilitar a distribuição do cuidado com o idoso entre uma rede de diferentes cuidadores.

"Todos se cadastram e podem atribuir funções uns aos outros, compartilhar calendários e pequenas tarefas. Isso ajuda a reduzir a sobrecarga que eventualmente recai sobre uma pessoa", disse a Dra. Raquel.

Realidade virtual

Muitas pesquisas avaliam o potencial de uso da realidade virtual em exames e tratamentos. "É um campo enorme e empolgante", disse a Dra. Raquel, que estuda a aplicação desta tecnologia em um teste para diagnosticar precocemente a demência espacial, muito comum em pessoas com doença de Alzheimer. Em seu projeto de doutorado, a pesquisadora está usando a realidade virtual para simular percursos de até 1 km pelo Hospital das Clínicas. A intenção é que os pacientes submetidos ao teste memorizem e repitam uma determinada rota, primeiro em um labirinto e depois no saguão do hospital. O objetivo é avaliar a capacidade do paciente de se localizar e de encontrar o caminho.

"A desorientação espacial é um indicativo do comprometimento cognitivo leve, que é considerado um dos sintomas iniciais da doença de Alzheimer.

O novo teste foi avaliado em 32 adultos saudáveis, entre 18 e 50 anos. Em 2019, será aplicado em idosos saudáveis e com declínio cognitivo. Durante o exame, o paciente senta em uma cadeira giratória, coloca os óculos de realidade virtual e segura um controle parecido com os de videogame. A tarefa é memorizar o percurso mostrado por uma instrutora virtual e depois refazê-lo sozinho para chegar a alguns checkpoints.

O nome dado ao teste é Soivet (Teste de Orientação Espacial em Ambiente Virtual Imersivo, na sigla em inglês). A intenção é que o teste ofereça uma avaliação mais realista e ajude a diagnosticar a doença de Alzheimer precocemente. Se os resultados forem satisfatórios, o Soivet poderá substituir os exames de orientação existentes, realizados com caneta e papel.

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