A prevalência de episódios de ofensas ou agressões contra estudantes de medicina pouco mudou nos últimos anos, de acordo com algumas pesquisas. Especialistas afirmam que transformar a cultura nas instituições provavelmente exigirá novas abordagens, inclusive de profissionais de outras áreas, de fora da medicina.
Os resultados do questionário anual de 2018 da graduação da Association of American Medical Colleges (AAMC) mostram que 42,1% dos estudantes norte-americanos relataram terem sido ofendidos pelo menos uma vez durante a faculdade de medicina, em comparação com 39,3% no ano anterior. "Esses são apenas os estudantes que decidiram responder à pergunta, porque era opcional", disse o Dr. David Acosta, médico e diretor do departamento de inclusão e diversidade da AAMC. "Eu me pergunto, e os estudantes que preferiram não responder?".
Pouca melhora em cinco anos
Os números da AAMC sugerem pouca melhora nos últimos cinco anos. Embora as publicações não usem o termo "bullying" explicitamente, os comportamentos identificados podem ser classificados como tal e incluem humilhação pública, comentários depreciativos e discriminação com base em raça, gênero, orientação sexual ou outros traços ou crenças. Por exemplo, a porcentagem de estudantes que disse ter sido ocasionalmente humilhada publicamente teve apenas leve redução em cinco anos, de 9,6% para 8,2%.
O percentual de estudantes que relataram avanços sexuais indesejados foi 1,8% em 2014 e em 2018, e o percentual que disse ter sido alvo de comentários sexistas e nomes inapropriados subiu de 7,4% em 2014 para 8,3% em 2018.
No entanto, a conscientização parece estar aumentando. O percentual de entrevistados que estavam cientes das políticas das instituições de ensino sobre injúrias ou agressões a estudantes aumentou de 93,3% em 2014 para 97,5% em 2018. Quando questionados sobre os procedimentos para a denúncia de injúria ou agressão na sua faculdade, 88,1% dos 2.018 formandos disseram conhecer os procedimentos, em comparação com 78,6% em 2014.
Vídeos de "incentivo"
Dr. James Lau, médico e vice-reitor de educação da Stanford University School of Medicine, na Califórnia, disse ao Medscape que a pesquisa da AAMC não conta toda a história. O Dr. James disse que "episódios de ofensa ou agressão" têm uma definição ampla, e que os estudantes são solicitados a avaliar situações que ocorreram ao longo de quatro anos em vez de no momento em que aconteceram; assim, os alunos podem interpretar o mesmo acontecimento de maneira diferente, mas as soluções não são claras. Medições significativas e parâmetros de progresso são difíceis de quantificar, disse ele.
O progresso em programas individuais é mais positivo do que os números nacionais podem indicar, de acordo com Dr. James. A Stanford lançou uma iniciativa para lidar com os episódios de ofensas ou agressões nos estágios de cirurgia em 2014. No início do rodízio dos alunos, estudantes e professores agora discutem como os maus-tratos podem se apresentar e falam sobre os recursos disponíveis para os alunos lidarem com isso. Os instrutores informam como e para quem os problemas devem ser relatados, disse Dr. James.
Os líderes também criaram vídeos de "incentivo", que a Stanford passou a compartilhar com outras faculdades, para mostrar aos estudantes cenários hipotéticos de interações na sala de cirurgia ou em rodízios. Esses vídeos são elaborados para fazê-los falar sobre o que estão vivenciando ou o que viram nos seus serviços. Os vídeos também ajudam os alunos e professores a chegar a um entendimento mútuo de o que são ofensas ou agressões. Toda semana, todos os estudantes de cirurgia se reúnem e compartilham experiências de seus serviços. Dr. James e os fellows se reúnem semanalmente com cada aluno para avaliar o andamento do estágio. Essa reunião pode ser uma oportunidade para discutir problemas no local ou entrar em contato posteriormente para uma conversa particular, disse Dr. James.
A partir do momento os alunos passam a saber que é possível lidar com os problemas sem risco de retaliação, e que a nota deles não será afetada por isso, a confiança aumenta, ele explicou. "Demora um tempo para ser estabelecida. E você deve de fato se importar com os alunos. Se você não se importar com o aluno, não funciona".
Dr. James e coautores publicaram um artigo no periódico Academic Medicine comparando os resultados de 2013, antes do programa, até 2015. Os resultados mostraram uma redução de 14 denúncias de maus-tratos no ano anterior à implementação do programa para 9 no primeiro ano do programa e 4 no segundo ano. Os alunos também podem denunciar as injúrias ou agressões de forma anônima, observou ele.
Círculos de justiça conciliatória
Entre as abordagens mais recentes e inovadoras em outras instituições, disse Dr. David, consta uma copiada do sistema de justiça dos Estados Unidos que vem sendo testada em cerca de 10 faculdades de medicina: círculos de justiça restaurativa. Nestes círculos, quem cometeu a injúria ou agressão, o(s) denunciante(s), um mediador e defensores das partes sentam-se para conversar sobre o ocorrido e criar uma estratégia para reconstruir a confiança. O requisito número um para que esta interação seja bem-sucedida é que o ofensor tenha se arrependido, disse Dr. David, observando que nem sempre isso acontece.
Dr. Jay Behel, Ph.D., do Rush University Medical Center, em Chicago, Illinois, contou que, na sua instituição, alguns desses círculos foram mais eficazes do que outros. Especificamente, eles parecem funcionar melhor quando os abusos percebidos são sistêmicos, como demandas acadêmicas irreais, diferentemente de casos que envolvem ofensas ou agressões feitas por alguém. "Estamos tentando chegar lá", disse ele, reconhecendo que houve alguns "fracassos espetaculares". Ele acrescentou: "Atualmente, apresentamos esta alternativa sempre que um aluno faz uma denúncia de ofensa ou agressão".
A medida mais bem-sucedida na Rush tem sido usar um grupo de estudantes de medicina confiável e líderes chamado SCORE ou Special Committee on the Rush Medical College Environment. Este grupo serve como procurador para o aluno que relatou ter sofrido ofensas ou agressões e discute as ações com o acusado. Três estudantes de cada uma das turmas nos quatro anos do curso atuam no comitê.
Além da justiça restaurativa, disse Dr. Jay, o que tem sido mais eficaz é dar aos estudantes um forte senso de domínio e capacitá-los a "apontar aquilo que está errado, destacar o que está indo bem, e saber que os professores e a administração estão preparados para assisti-los". Ele afirma que a Rush foi uma das primeiras universidades de medicina a instituir um portal para informar ocorrências on-line, que tem a opção de denúncias anônimas. Em vez de fazer a denúncia em um departamento pessoal ou para algum diretor ou membro do corpo docente, os alunos podem denunciar os maus-tratos pela internet. O relatório é então revisado pelo aluno presidente do SCORE e pelo responsável do corpo docente. Os alunos podem escolher se querem se identificar ou não.
"SCORE foi muito bem-sucedido em tornar seguro o relato dos eventos", disse Dr. Jay. "Este ano, pela primeira vez, tivemos mais relatos positivos do que negativos." Ele disse que os residentes viram o sucesso do SCORE e da justiça restaurativa entre os estudantes e disseram: "'Nós também queremos isso'. Então, atualmente também temos um processo SCORE para os residentes. É uma abordagem de baixo para cima, e os docentes júnior também manifestaram interesse".
Capacitando homens que se destacam
Dr. David disse que a AAMC também tem uma parceria com o programa Allies & Advocates no The Women's Place da The Ohio State University (OSU), em Columbus, para lidar com a desigualdade de gênero. "Eles estão encontrando homens proeminentes ou que sejam simpáticos à causa e os capacitando para influenciar ativamente outros homens em seus departamentos a começar a mudar a forma como tratamos as mulheres", disse ele.
O programa, financiado por uma doação da National Science Foundation, é só para homens, segundo o site, "porque o medo de cometer algum deslize, de ser culpabilizado ou julgado pelas mulheres pode fazer com que os homens deixem de participar" de discussões sobre gênero e diversidade. O Dr. David disse que essas intervenções podem ser usadas, por exemplo, para reverter uma situação na qual algum membro do corpo docente se sinta ameaçado e se recuse a orientar ou a admitir a presença de mulheres no laboratório para evitar qualquer chance de suas atitudes serem mal interpretadas.
A diretora Jennifer Beard explicou que o modelo envolve "homens conversando com homens sobre igualdade de gênero e preconceitos e privilégios implícitos, com o objetivo de criar uma cultura mais inclusiva dentro das unidades e departamentos acadêmicos". A faculdade de medicina na OSU é um dos departamentos que solicitou trabalhar com Allies & Advocates. O modelo não é especificamente relacionado ao bullying, disse ela, mas trata da dinâmica "que cria um ambiente no qual as pessoas não são capazes de prosperar. Ele informa e influencia a cultura".
Em outras partes do país, os esforços da faculdade de medicina incluem treinamento de espectadores (que ensina as testemunhas a não apenas apoiar a pessoa agredida, mas também a confrontar o ofensor), treinamento de pequenas agressões e treinamento de preconceito inconsciente, disse Dr. David.
A cultura prestes a mudar
Joyce Fried, reitora assistente da University of California, Los Angeles (UCLA) David Geffen School of Medicine, explicou que, embora a incidência de episódios de ofensas ou agressões nas faculdades de medicina não tenha mudado muito nos 20 anos que ela trabalha para reduzir os desequilíbrios de poder na área, ela acredita "que estamos prestes a finalmente conseguir mudar a cultura". A diferença agora está no compromisso das altas lideranças em todo o país para priorizar a mudança de cultura, afirmou.
Na UCLA, o diretor da faculdade de medicina, Dr. Kelsey Martin, dirige uma iniciativa chamada Cultural North Star, com três pilares. O primeiro é "faça a coisa certa". Um dos princípios desse pilar é "estamos unidos pela missão comum de promover a ciência e a medicina". O segundo pilar é "torne as coisas melhores", cujo princípio é "viemos trabalhar para fazer a diferença". O último pilar é "seja gentil", com o princípio fundamental de "somos mais fortes quando temos empatia".
Outras faculdades estão avançando com compromissos semelhantes e com a direção dos mais altos níveis de liderança, disse Joyce. "Todos estão prestando atenção e dizendo: 'Precisamos ser melhores do que isso. Isso não traduz a medicina'".
Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube
© 2019 WebMD, LLC
Citar este artigo: Estratégias de combate a ofensas e agressões no ambiente acadêmico nos EUA - Medscape - 17 de junho de 2019.
Comente