Uso indevido de estimulantes prescritos aumenta entre os jovens... de novo

Pauline Anderson

Notificação

13 de junho de 2019

San Francisco — Depois de um hiato nos índices de uso indevido pelos jovens dos estimulantes prescritos para eles, parece que o fenômeno está novamente ganhando força, mostram os resultados de uma nova enquete.

Os pesquisadores responsáveis pelo Study of Non-Oral Administration of Prescription Stimulants (SNAPS) descobriram que quase 14% dos jovens participantes que tomavam algum estimulante por prescrição médica já tinham cheirado, fumado ou injetado o medicamento.

Após uma aparente calmaria no uso não médico de estimulantes prescritos para o tratamento do transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), parece que a prática está de volta.

Dra. Linda Cottler

 

Os médicos podem não estar cientes de todas as consequências do uso inadequado dos estimulantes entre os jovens com fins de digressão, disse ao Medscape a pesquisadora do estudo a Dra. Linda Cottler, Ph.D., Dean's Professor of Epidemiology e Associate Dean for Research na University of Florida, em Gainesville.

"Se os jovens começam a usar os estimulantes de modo inadequado, existe a possibilidade de também usarem outras substâncias. Podem começar a fumar maconha e usar outras drogas, e começar a fumar cigarros eletrônicos ou de tabaco", disse a pesquisadora.

Os resultados foram apresentados na reunião anual de 2019 da American Psychiatric Association (APA).

"Via perigosa"

Quimicamente relacionados com a cocaína e as metanfetaminas, os estimulantes prescritos, comumente usados para o TDAH, podem promover alterações do humor com efeitos euforizantes em curto prazo.

Estima-se que cerca de 11% dos jovens referem ter usado estimulantes por prescrição médica e, destes, um terço usou os medicamentos de forma não prescrita, definida como usar sem ter recebido uma prescrição ou tomar mais do que o prescrito.

Como com outras drogas, usar estimulantes por via inalatória ou intravenosa significa que a substância chega ao cérebro mais rapidamente do que com a administração por via oral.

No estudo em tela os pesquisadores entrevistaram jovens de regiões urbanas densamente povoadas de três estados: Califórnia (Los Angeles), Texas (Houston e Dallas) e Flórida (Tampa, Orlando e Miami).

"Fomos aos lugares que pensamos que os jovens frequentam, como shoppings, parques e cinemas, e os entrevistamos nesses locais", disse a Dra. Linda.

A enquete escrita levava cerca de 20 minutos para ser concluída, mas os participantes e seus pais foram muito receptivos ao projeto, disse a Dra. Linda.

"Eles entendem a premente necessidade de saber mais sobre o que está acontecendo com os jovens no que tange o uso de estimulantes", disse a autora.

Os pesquisadores analisaram as respostas de 1.777 participantes entre 10 e 17 anos de idade. Os resultados mostraram que, entre os usuários, 68,9% referiram uso por via oral, 9,7% indicaram uso indevido por via inalatória e/ou injetável e 4,1% indicaram uso indevido, fumando o medicamento.

Cerca de 0,5% disseram que estavam injetando estimulantes, o que a Dra. Linda considera "uma via muito perigosa".

Cerca de 12,7% dos entrevistados participaram de algum tipo de desvio de conduta – como vender, dar para outra pessoa ou roubar o medicamento.

"Esses jovens podem não estar usando as substâncias, mas eles sabem que outros jovens querem estes estimulantes. Eles sabem que um amigo, irmão ou irmã tem o medicamento, e podem acabar pegando da caixa de remédios e começar a usá-lo de forma inadequada", disse a Dra. Linda.

Os jovens usam estimulantes de forma indevida por diferentes razões. Alguns podem tomar a droga para ficarem "ligados", outros para ficar acordado à noite para estudar e outros ainda podem estar apenas curiosos sobre o que amigos estão falando, acrescentou a pesquisadora.

O uso indevido de estimulantes recebeu muita atenção há cerca de uma década. "Todo mundo estava em alerta máximo, e nós orientávamos os pais e professores a ficarem alertas sobre o que estava se passando", disse a Dra. Linda.

Depois a atenção ao problema desapareceu. "Mas me parece que estamos vendo isso aumentar novamente", disse a Dra. Linda.

A pesquisadora comparou o fenômeno ao ora vem, ora vai do uso de opioides. A epidemia de opioides "tirou a atenção da cocaína, mas agora estamos vendo uma certa diminuição do uso de opioides com aumento do consumo de cocaína".

Dra. Linda e colaboradores planejam continuar a analisar os dados para determinar se os padrões de utilização indevida e digressão diferem entre as zonas rurais e os centros urbanos, meninos e meninas e entre usuários mais jovens e mais velhos.

Aumento do número de diagnósticos de TDAH

Comentando os resultados para o Medscape, o Dr. John Leikauf, médico e professor assistente de psiquiatria clínica e ciências comportamentais na Stanford University, na Califórnia, disse que faz sentido que exista cada vez mais uso indevido de estimulantes, visto que há mais destes medicamentos em circulação.

Dados dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que a prevalência de TDAH duplicou recentemente em algumas partes do país, disse o Dr. John.

"Assim, haveria aumento do número de prescrições de estimulantes e mais pessoas teriam acesso a essas substâncias", disse o comentarista.

Não há consenso sobre a causa do aumento da prevalência do TDAH. Os especialistas têm indicado fatores ambientais, como o tabagismo e a exposição ao chumbo, bem como o aumento do tempo de tela entre os jovens como possíveis fatores, "mas nada parece ter uma correspondência direta", disse o Dr. John.

Entre os pacientes do Dr. John com TDAH, a maioria tem 13 anos de idade ou menos, embora ele trate alguns adolescentes e adultos jovens.

Como fizeram os fabricantes de opioides, os produtores de estimulantes estão dificultando o uso inadequado desses medicamentos.

"Algumas das apresentações mais recentes de ação prolongada, que tendem a ser mais usadas atualmente, são muito mais difíceis de triturar", disse o comentarista.

Um dos medicamentos mais novos, a lisdexanfetamina, "só se ativa se for metabolizada no sangue", o que pode reduzir o risco de uso inadequado, disse o Dr. John.

O estudo foi financiado pela empresa Arbor Pharmaceuticals LLC. Dra. Linda Cottler e Dr. John Leikauf informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

American Psychiatric Association (APA) 2019: Abstract 21 (Sessão 6).

Apresentado em 20 de maio de 2019.

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