Até recentemente, a metformina não era considerada segura para pacientes diabéticos com doença renal crônica moderada a grave devido ao seu potencial de induzir acidose láctica. No entanto, novas evidências vêm mostrando que o medicamento pode ser seguro, e até mesmo benéfico, para a saúde cardiovascular em alguns indivíduos com essas doenças.
Um estudo norte-americano publicado em maio no periódico Diabetes Obes Metab [1] revelou que a metformina reduziu o risco de morte e de eventos cardiovasculares em pacientes com diabetes e doença renal crônica (DRC) em estágio 3.
O Dr. Emmanuel de Almeida Burdmann, professor de nefrologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e um dos colaboradores do estudo falou ao Medscape sobre o trabalho.
A análise em questão, que contou com a colaboração de especialistas de vários países, inclusive do Brasil, foi uma subanálise do estudo TREAT (Trial to Reduce Cardiovascular Events with Aranesp (darbepoeitin-alfa) Therapy), [2] pesquisa que incluiu 4.038 pacientes com diabetes e DRC e teve como objetivo comparar os efeitos da darbepoetin-alfa com placebo. A pesquisa foi realizada entre agosto de 2004 e agosto de 2009.
Os autores identificaram os participantes do estudo TREAT que receberam metformina no início do estudo (N = 591) e compararam com aqueles que não fizeram uso desse medicamento (N = 3.447).
O grupo observou que os pacientes que tomaram metformina tinham diabetes há menos tempo e tenderam a apresentar menos comorbidades do que os que não usaram o medicamento. Além disso, a maioria tinha DRC em estágio ≥ 3, porém foi menos propensa a estar em estágios 4 e 5. Os autores parearam então 508 dos 591 pacientes que tomaram metformina com sujeitos do grupo controle e, após essa ação, as diferenças no início do estudo deixaram de ser significativas.
A análise feita com os participantes pareados revelou que a metformina foi associada de forma independente a redução do risco de morte cardiovascular e de morte por todas, de eventos cardiovasculares (hospitalização por insuficiência cardíaca, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, isquemia do miocárdio ou morte) e de eventos relacionados com a doença renal crônica (em estágio final ou morte).
O Dr. Emmanuel afirmou que os efeitos benéficos da metformina foram mais evidentes nos pacientes em estágio 3 do que nos pacientes em estágio 4 da doença. "Os resultados sugerem que o uso de metformina foi mais robustamente benéfico em pacientes em estágio 3 da DRC, mas alguns pacientes em estágio 4 também se beneficiaram com o uso" do medicamento, disse.
Até o momento, ainda não está claro porque o uso de metformina resultaria em benefícios cardiovasculares, porém, os autores lembraram que a interferência na hipertrofia cardíaca é uma possibilidade. [3] Outra hipótese levantada pela equipe é que o benefício esteja associado à redução da probabilidade de hipoglicemia, evento que sabidamente pode estimular a inflamação e secreção de hormônios contrarreguladores com efeitos cardiovasculares adversos. [4]
Quanto à segurança, a acidose láctica só ocorreu em dois pacientes que receberam metformina. Mesmo sendo um evento raro, o Dr. Emmanuel ressaltou que é necessário cautela quanto ao uso em certos casos devido à gravidade do quadro. Ele lembrou que o medicamento é contraindicado quando: "(1) a estimativa da filtração glomerular (FGe) for < 30 mL/min/1,73 m2; (2) em casos de alcoolismo; (3) o paciente tiver história de acidose láctica durante o uso de metformina; (4) doença hepática em atividade; (5) insuficiência cardíaca descompensada ou aguda com risco de hipoperfusão e hipóxia e (6) instabilidade hemodinâmica ou má perfusão periférica por qualquer causa".
Além disso, o médico destacou que se a filtração glomerular estiver entre 30 e 44 mL/min/1,73 m2 não é recomendado iniciar metformina. "Pacientes com FGe ≥ 45 mL/min/1,73 m2 podem receber dose normal de metformina, mas se a FGe cair para < 45 mL/min/1,73 m2 durante o uso do medicamento, o médico deve pesar cuidadosamente a relação risco versus benefício para continuar o tratamento. Em pacientes com FGe < 45 mL/min/1,73 m2 que irão receber contraste iodado endovenoso, recomenda-se suspender a metformina devido ao risco de queda da filtração glomerular", explicou.
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Citar este artigo: Metformina reduz o risco de morte e de eventos cardiovasculares em pacientes com diabetes e doença renal crônica - Medscape - 11 de junho de 2019.
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