Novo medicamento pode ajudar na compulsão alimentar periódica

Pauline Anderson

Notificação

11 de junho de 2019

San Francisco ─ Um novo inibidor de recaptação de noradrenalina-dopamina (IRND) que está em fase 3 de desenvolvimento parece promissor na mudança de comportamentos alimentares em pacientes adultos com transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) em um novo estudo.

Dra. Joyce Tsai

Há uma verdadeira necessidade de mais opções de tratamento para pacientes com TCAP, disse ao Medscape a primeira autora do estudo, Dra. Joyce Tsai, Ph.D., diretora sênior de desenvolvimento clínico em psiquiatria da Sunovion Pharmaceuticals Inc.

"Há muitos anos a base do tratamento dos transtornos da compulsão alimentar tem sido a terapia cognitivo-comportamental, mas existe uma reconhecimento cada vez maior de que os medicamentos têm o seu papel, especialmente porque muitos pacientes não têm acesso a uma terapia cognitivo-comportamental de qualidade", disse ela.

Os resultados foram apresentados no encontro anual de 2019 da American Psychiatric Association (APA).

Transtorno comum

O TCAP é um transtorno alimentar comum ─ mais pessoas apresentam TCAP do que anorexia e bulimia juntas. Ainda assim, o transtorno não foi formalmente reconhecido até a elaboração da 5ª edição do manual diagnóstico e estatístico de doenças mentais (DSM-V, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th Edition), disse a Dra. Joyce.

O novo estudo de 12 semanas, com dose fixa, incluiu 485 pacientes com TCAP entre 18 e 55 anos, a maioria com sobrepeso ou obesidade. Os pacientes precisavam ter um dia de compulsão alimentar três vezes por semana no início do estudo, e pelo menos duas vezes por semana durante os seis meses anteriores.

Para o estudo, um dia de compulsão alimentar foi definido como: um dia no qual pelo menos um episódio de compulsão alimentar tenha ocorrido. Este tipo de episódio envolve não apenas comer muito, mas também a perda do controle. "Não é apenas comer demais", disse a Dra. Joyce.

Ela acrescentou que a compulsão alimentar costuma ser acompanhada de sentimento de culpa e vergonha.

Os participantes do estudo receberam placebo por via oral ou de 4 mg ou 6 mg por dia de dasotralina.

O desfecho primário de eficácia foi a mudança do número de dias de compulsão alimentar por semana, medido após 12 semanas. O estudo mostrou que, para esse desfecho, a dose de 6 mg foi superior ao placebo e que a diferença foi estatisticamente significativa (- 3,47 versus - 2,92; P = 0,0045).

"Também observamos algumas fortes tendências para a eficácia no grupo de 4 mg", disse Dra. Joyce. "Foi positivo da primeira até a oitava semana, mas depois não tivemos diferença estatística nas das duas últimas medidas".

Melhoras nas medidas secundárias de eficácia geralmente favoreceram a dasotralina. Por exemplo, a mudança nas pontuações na Binge Eating Clinical Global Impression of Severity Scale para os pacientes que receberam 6 mg de dasotralina foi de - 2,27 em comparação com 1,77 para os que receberam placebo (P < 0,01). Para os pacientes que receberam 4 mg de dasotralina, a mudança foi de - 2,13 vs. 1,77 para os pacientes que receberam placebo (P < 0,05).

Na Yale-Brown Obsessive-Compulsive Scale Modified for Binge Eating, as mudanças na pontuação em comparação com o placebo foram as seguintes: - 15,2 vs. - 11,8 (P < 0,01) para 6 mg; e - 14,1 vs. -11,8 (P < 0,05) para 4 mg.

Risco de psicose

Quanto aos eventos adversos, alguns pacientes que tomaram a dasotralina tiveram ansiedade, "não muito diferente da bupropiona", outro IRND, afirmou a Dra. Joyce.

Outros eventos adversos que ocorreram nos pacientes que tomaram o medicamento foram: insônia, xerostomia, cefaleia, náusea, diminuição do apetite e perda ponderal.

Além disso, alguns pacientes tiveram psicose, provavelmente devido a um aumento na dopamina.

"A psicose foi variada; em alguns casos, o paciente teve alucinação visual ou auditiva", disse ela.

Embora alguns pacientes tenham interrompido o medicamento devido à psicose, "a maioria dos pacientes permaneceu no estudo mesmo com algum evento", disse a Dra. Joyce. Ela acrescentou que os pacientes no estudo não poderiam tomar antipsicótico.

A Dra. Joyce observou que uma vantagem da dasotralina é sua meia-vida muito longa, o que deve eliminar a necessidade de uma formulação de liberação controlada. "Com base no perfil farmacocinético, prevemos que é possível conseguir cobertura de 24 horas por dia, sete dias por semana", disse ela.

O TCAP está associado à obesidade (índice de massa corporal ≥ 30) em até 45% dos pacientes. Outro estudo que foi discutido no encontro da APA comparou a dasotralina com o placebo em relação à mudança no peso corporal entre 317 pacientes com TCAP.

Esse estudo mostrou que entre os pacientes obesos que completaram 12 semanas de tratamento, cerca de 40% tiveram redução de 5% no peso.

Um estudo anterior descobriu que a dasotralina não diferiu significativamente do placebo em relação ao potencial de abuso.

Em 2015, o estimulante lisdexanfetamina foi o primeiro medicamento a ser aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) norte-americana para o tratamento de TCAP moderada ou grave em adultos. O medicamento também é prescrito para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Potencial de abuso limitado

Ao comentar sobre a pesquisa para o Medscape, a Dra. Debra Safer, codiretora do Programa de Transtornos de Comportamento e Peso em Adultos de Stanford, da Stanford University, na Califórnia, disse que há vantagens em ter um medicamento para TCAP que não seja um estimulante ou medicamento controlado (Schedule 2).

Medicamentos para TDAH, como a lisdexanfetamina, podem ser eficazes para o TCAP, mas alguns pacientes não são candidatos adequados para o tratamento com este e outros estimulantes, seja por antecedente de abuso ou dependência, seja por preocupações cardiovasculares, observou ela.

A dasotralina pode ser eficaz para pacientes com TCAP que também têm ansiedade ou depressão, disse a Dra. Debra. A evidência de que o novo agente pode ter relativamente pouco potencial de abuso "é muito importante", disse.

No entanto, acrescentou ela, o risco de psicose com esse novo agente seria algo a se considerar. Uma preocupação adicional com todos os medicamentos atualmente disponíveis para o tratamento do TCAP é a recaída após os pacientes interromperem o uso.

Essas escolhas incluem medicamentos prescritos para o TDAH. Dra. Debra observou uma "sobreposição" entre o TDAH e o TCAP.

"Pacientes com TDAH tendem a comer compulsivamente, e pacientes que comem compulsivamente tendem a ter TDAH em números mais altos que o normal", disse ela.

Dra. Debra acrescentou que é importante fornecer mais opções para o tratamento do TCAP.

"Ter outro medicamento eficaz que não tenha os efeitos adversos negativos dos estimulantes, nos daria outra ferramenta em nosso arsenal", disse ela.

Uma intervenção eficaz que não tem efeitos colaterais é a psicoterapia. Mas a Dra. Debra concordou que essa abordagem é cara, leva tempo e nem todos os pacientes têm acesso a ela.

O estudo foi financiado pela Sunovion Pharma. A Dra. Joyce trabalha para a Sunovion. A Dra. Debra recebe direitos autorais de Guilford Press por livros sobre o uso de psicoterapia para TCAP.

American Psychiatric Association (APA) 2019: Abstract P7-90. Apresentado em 21 de maio de 2019.

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