São Francisco ─ Apenas duas doses do medicamento psicodélico psilocibina, administradas em oito semanas, reduziram significativamente o consumo de bebida alcoólica e a fissura em pacientes com transtorno por uso de álcool, segundo os resultados preliminares de um estudo.
Dra. Kelley O'Donnell
No primeiro estudo que utilizou um desenho de ensaio clínico moderno para pesquisar sobre os efeitos de um alucinógeno em dependentes de bebidas alcoólicas, os pesquisadores da New York University (NYU) School of Medicine, na cidade de Nova York, descobriram que o uso de psilocibina está significativamente associado a menos dias de consumo de álcool, e menos driques por dia, além de menos fissura.
"Se realizada com rigor, a pesquisa sobre psicodélicos pode transformar totalmente a psiquiatria", disse ao Medscape a pesquisadora do estudo, Dra. Kelley Clark O'Donnell, Ph.D., médica residente no Departamento de Psiquiatria da NYU School of Medicine.
No entanto, a médica acrescentou, os riscos dos psicodélicos "não devem ser subestimados".
Os resultados foram apresentados na reunião anual de 2019 da American Psychiatric Association (APA).
Aumento progressivo do interesse
Essas descobertas contribuem para cada vez maior quantidade de pesquisas sobre o uso de psicodélicos para o tratamento de patologias psiquiátricas.
O ensaio multicêntrico, duplo-cego, randomizado e controlado avaliou os efeitos da psicoterapia assistida com psilocibina em 180 pacientes alcoólatras. A definição de alcoolismo foi determinada de acordo com os critérios da quarta edição do manual diagnóstico e estatístico de doenças mentais (DSM-IV, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4th Edition).
A psilocibina é um alucinógeno serotoninérgico de origem natural. Assim como a dietilamida do ácido lisérgico (LSD, do inglês, lysergic acid diethylamide), outro psicodélico; é um agonista do receptor 5HT2A.
A psilocibina é um dos psicodélicos mais estudados. Uma das razões para os pesquisadores a terem escolhido para o estudo em pauta é a meia-vida do medicamento (de seis a oito horas) que permite que o tratamento seja feito ambulatorialmente, disse a Dra. Kelley.
Em comparação, a meia-vida do LSD pode ser de até 12 horas, o que exigiria um dia de internação.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente para receber de 24 mg/70k a 40 mg/70 kg de psilocibina ou de 50 mg a 100 mg do anti-histamínico difenidramina em duas etapas.
A difenidramina foi escolhida como medicamento de controle por não ser viciante, mas ainda assim, "fazer as pessoas se sentirem 'altinhas'", disse a Dra. Kelley.
Todos os pacientes receberam dois tipos de psicoterapia. Uma combinou uma entrevista motivacional com terapia cognitivo-comportamental. A outra foi específica para a experiência psicodélica, e envolvia "falar sobre as expectativas dos pacientes e fazer uma retrospectiva de vida", disse a Dra. Kelley.
Os pacientes receberam o medicamento na 4ª e na 8ª semanas, e participaram de sessões de terapia no intervalo entre as doses ─ "portanto, duas doses com um mês de intervalo", disse a Dra. Kelley.
Os pacientes completaram o Mystical Experience Questionnaire (MEQ) oito horas após cada sessão em que tomaram o medicamento. O MEQ "é uma medida de intensidade da sessão do medicamento", disse a Dra. Kelley.
Transformadora?
A Dra. Kelley apresentou os resultados preliminares com 56 participantes (32 homens e 24 mulheres) que completaram as primeiras 12 semanas do ensaio. A média de idade dos participantes foi de 46,0 anos (variação de 25,0 a 65,0 anos); o nível médio de escolaridade foi de 16,9 anos.
O número médio de drinques por dia foi de 5,0 (variação de 0,8 a 15,9). O percentual médio de dias de consumo dos participantes foi de 75,5. O número médio de drinques por dia de consumo foi de 7,5.
Como o estudo está em andamento, os pesquisadores tiveram de manter o cegamento. Para a análise preliminar, os eles dividiram os pacientes em dois grupos com base na mediana da pontuação no MEQ (grupo MEQ alta e grupo MEQ baixa). (A mediana da pontuação no MEQ foi de 0,26 e a média de pontuação no MEQ foi de 0,354.)
Não houve diferença no consumo diário de álcool entre os grupos MEQ alta e baixa no início do estudo e imediatamente antes da primeira sessão de medicação.
No entanto, na 12ª semana, um mês após os participantes terem tomado a segunda dose, o grupo MEQ alta mostrou redução significativa no uso de álcool em comparação com o grupo MEQ baixa (P < 0,05).
Entre os participantes do grupo MEQ alta, o percentual de dias de consumo foi significativamente menor em comparação ao grupo de MEQ baixa (18,73 vs. 40,47; P < 0,05), e o número de drinques por dia de consumo foi menor (2,63 vs. 7,01; P < 0,01).
O grupo de MEQ alta relatou fissura por álcool significativamente menor (P < 0,01). Não houve diferença significativa entre os grupos quanto às medidas de depressão ou ansiedade.
Em relação à preservação do cegamento do estudo no caso de participantes que tomaram a psilocibina apresentarem alguma experiência psicodélica, a Dra. Kelley disse: "Sabemos que se a pessoa não sentir nada, ela provavelmente você não tomou a psilocibina, e se ela tiver uma grande experiência, então provavelmente tomou. Portanto, embora o estudo seja tecnicamente cego, para algumas pessoas só será cego no nome".
Ela relatou que é possível que os pacientes tenham uma "experiência espontânea", sem tomar um alucinógeno.
"A literatura dos Alcoólicos Anônimos é repleta de casos de pessoas que 'encontram Jesus', o que realmente impulsiona a sua recuperação", disse ela.
Resultados "promissores"
A Dra. Kelley, que era uma das terapeutas do estudo, disse que, em alguns casos, ela não sabia se o paciente havia recebido psilocibina ou não.
A psilocibina pode reduzir o alcoolismo, ao modificar a forma como os pacientes enxergam o mundo. "Ela pode mudar o que a sua orientação representa para você mesmo e para os outros, e para a bebida", disse a Dra. Kelley.
Ela descreveu as novas descobertas como "promissoras", mas destacou que o alcoolismo é "uma doença altamente crônica". No entanto, mesmo para aqueles que têm recaídas, essa nova abordagem pode trazer esperança.
"Se conseguirmos fazer com que as pessoas se envolvam no tratamento, e se pudermos manter um bom relacionamento com elas, então é possível que mesmo aquelas que tiverem recaídas no futuro possam voltar para o tratamento, e a sua trajetória seria diferente", disse a Dra. Kelley.
A psilocibina tem sido estudada para o tratamento de outros vícios, como o do tabaco, bem como de outros transtornos psiquiátricos, como a depressão e a ansiedade. O grupo da Dra. Kelley está prestes a começar a recrutar para um estudo multicêntrico de psilocibina para o tratamento do transtorno depressivo maior.
Outros alucinógenos estão sendo estudados para vários transtornos psiquiátricos. Um grande ensaio de fase 3 está avaliando o uso de MDMA, também conhecido como ecstasy, para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático.
Próxima grande tendência em pesquisa
Em seus comentários sobre a pesquisa para o Medscape, o Dr. Sagar V. Parikh, médico e professor de psiquiatria da University of Michigan, em Ann Arbor, disse que as pesquisas sobre psilocibina e drogas relacionadas são "a próxima tendência" em psiquiatria.
"É muito cedo, mas acho que existem pesquisas suficientes para mostrar que existe algo", disse ele.
O Dr. Sagar disse que a pesquisa sobre psicodélicos remonta a várias décadas. De fato, um livro publicado na década de 1960 por um precursor do Center for Addiction and Mental Health, em Toronto, no Canadá, abordou o uso do LSD no tratamento do alcoolismo.
Mas o uso excessivo de psicodélicos tornou-se um enorme problema para a sociedade, o que fez com que essas drogas se tornassem substâncias controladas, e consequentemente levando à suspensão das pesquisas, disse o Dr. Sagar.
A pesquisa está acelerando novamente, disse ele, enfatizando que os resultados deste novo estudo são muito preliminares. "Estou com receio de ficar muito animado enquanto este ainda é o primeiro ou segundo estudo", disse ele.
Ele destacou que atualmente há "enormes lacunas de tratamento" para transtornos por uso de álcool. "Nenhum tratamento atual é muito eficaz, e todos dependem de mecanismos semelhantes", disse ele.
O que é "animador" em relação à psilocibina é que existem pesquisas em favor dela, disse.
"Os estudos de ciência básica mostraram que a psilocibina causa algumas mudanças em longo prazo em pequenas áreas do cérebro que são relevantes para os transtornos do humor e talvez para a adição", disse ele.
As pesquisas em psiquiatria usando psicodélicos "ainda estão nos estágios iniciais", então, tendem a se concentrar nos "transtornos mais prevalentes", como o alcoolismo, a depressão e a ansiedade, disse o Dr. Sagar.
"Por ser tão caro e complicado fazer pesquisas nessa área, as pessoas estão se concentrando nessas questões maiores", disse ele.
O estudo foi financiado pelo Heffter Research Institute e por doações individuais de Carey e Claudia Turnbull, Dr. Efrem Nulman e Rodrigo Nino.
American Psychiatric Association (APA) 2019: Abstract P6-17, sessão 6. Apresentado em 20 de maio de 2019.
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Citar este artigo: Psilocibina: promissora no tratamento do alcoolismo - Medscape - 7 de junho de 2019.
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