Estudo multicêntrico revela alterações encefálicas em crianças com TDAH

Marina Cardozo

Notificação

6 de junho de 2019

Alterações sutis no córtex encefálico foram comprovadas em crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), mas não em adolescentes e adultos com o mesmo diagnóstico. O achado, portanto, indica melhora com o passar do tempo e afasta a hipótese de que o tratamento com medicamentos deixa sequelas.

Este achado é de um estudo feito pelo ENIGMA ADHD working group, do ENIGMA Consortium, uma iniciativa da University of Southern California (USC), que reúne 36 centros de pesquisa no mundo, com participação do Brasil.

O trabalho reuniu a maior população de pacientes com TDAH do mundo, e abre espaço para o aprofundamento de aspectos importantes do transtorno, como a regulação do humor.

O artigo foi publicado on-line em abril de 2019 noperiódico American Journal of Psychiatry. [1]

O estudo em pauta dá continuidade ao trabalho do consórcio publicado em 2017 no periódico Lancet Psychiatry,[2] que analisou as estruturas subcorticais e o volume intracraniano de pacientes com TDAH ao longo de seis décadas, enquanto o estudo recém-publicado analisou as estruturas corticais.

Conforme a publicação mais recente, alterações foram encontradas por todo o córtex. A conclusão do estudo indica que os achados para o córtex temporal são particularmente interessantes, porque tanto a área da superfície como a espessura foram modificadas. As funções dessa região envolvem memória semântica, processamento de conceitos abstratos, atenção e regulação de emoções.

Trabalho inovador

O Dr. Paulo Mattos, psiquiatra do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que participou do trabalho, destacou a robustez da análise. O estudo inicial envolveu 1.713 participantes com diagnóstico de TDAH e 1.529 controles de 23 locais no mundo, de 4 a 63 anos de idade.

Os resultados do estudo publicado em 2017 demonstraram que o uso de psicoestimulantes não modificou os achados neuroanatômicos, tampouco a presença de outro transtorno neuropsiquiátrico.

Já o segundo estudo foi ainda mais abrangente: os 36 centros analisaram 2.246 crianças, adolescentes e adultos com TDAH e 1.934 controles, com uma metodologia padronizada, que combinou o diagnóstico de TDAH e exames de ressonância magnética (RM). Observou-se que modificações corticais, embora sutis, estavam presentes em crianças, mas não em pacientes adolescentes e adultos.

Para o Dr. Paulo Mattos, as conclusões esclarecem o transtorno que acomete cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos. "Tanto no primeiro como no segundo estudo, desmistifica-se a ideia de que é uma doença inventada pela indústria farmacêutica para vender medicamentos. Demonstrar a presença de alterações no sistema nervoso é muito importante, porque se coloca uma pedra em cima deste assunto", defendeu.

Descobertas e desafios

O especialista ressaltou que, principalmente no primeiro estudo, os pesquisadores encontraram mudanças em estruturas que permitem explicar sintomas que não fazem parte da definição oficial do TDAH. O transtorno se destaca por desatenção, hiperatividade e impulsividade. No entanto, com o passar do tempo, constatam-se mudanças nas estruturas subcorticais responsáveis pela regulação do humor.

"Isso pode ser visto quando as pessoas remoem uma determinada situação durante dias, sem conseguir voltar ao estado de equilíbrio normal. A reação é desproporcional ao fato", exemplificou o Dr. Paulo, emendando: "Sabíamos que isso acontecia no TDAH. É muito comum, mas não fazia parte dos critérios. Algumas das regiões que encontramos alteradas pelo TDAH são justamente as responsáveis por essa regulação emocional. Nenhum estudo havia descrito a alteração para justificar por que as pessoas têm esse tipo reação".

Para ele, este é um dos desafios trazidos pelos resultados. "Abriu-se espaço para se fazer novos estudos investigando especificamente essa área. Pesquisadores de vários países já entraram em uma fila de espera do nosso banco de dados para analisar fatores específicos", completou.

Na avaliação do pesquisador, poder estudar pacientes de países e culturas diferentes, cujos diagnósticos foram realizados a partir dos mesmos critérios, é um dos pontos inovadores. Ele explicou que o processamento das imagens também foi feito exatamente da mesma forma. O consórcio utilizou os critérios da quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5).

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