Hiperêmese gravídica permanece sendo subdiagnosticada

Laura Arenschield

Notificação

3 de junho de 2019

Náuseas e vômitos podem parecer andar de mãos dadas com a gestação, mas enjoos graves podem indicar uma doença complicada, que pode levar a lesões esofágicas, disfunção hepática e renal, depressão pós-parto, estresse pós-traumático e – em casos extremos – morte.

Essa doença é subdiagnosticada. "Muitos médicos sabem da existência da hiperêmese gravídica, mas não fazem ideia de como reconhecer a diferença entre as náuseas da gestação e a hiperêmese gravídica", disse Kimber MacGibbon, cofundadora da HER Foundation, uma organização sem fins lucrativos dedicada à pesquisa e educação sobre hiperêmese gravídica para pacientes e profissionais de saúde.

"E, quando eles reconhecem a doença, muitas vezes não sabem tratá-la", disse ela ao Medscape.

A hiperêmese gravídica – presente nos noticiários ultimamente, porque, tanto a comediante Amy Schumer como a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, tiveram a doença durante a gestação – pode ser penosa.

Muitas vezes as mulheres vomitam até desmaiar e apresentam incontinência urinária, disse Kimber durante uma apresentação na conferência anual de 2019 da Infusion Nurses Society, em Baltimore. Elas também têm fadiga importante.

Complicações tanto para a mãe como para o bebê

Os sintomas geralmente começam com cerca de quatro a seis semanas de gestação e chegam ao auge com cerca de 11 a 13 semanas. No entanto, 22% das mulheres com hiperêmese gravídica têm sintomas durante toda a gestação, disse Kimber. Quanto mais tempo os sintomas persistirem e quanto mais graves forem, maior o risco de complicações em longo prazo tanto para a mãe como para o bebê.

Filhos de mães com hiperêmese gravídica não tratada podem apresentar atraso no desenvolvimento neurológico, problemas comportamentais e embriopatia por deficiência de vitamina K. A chance de parto prematuro e de restrição do crescimento intrauterino também aumenta. Os tratamentos podem ajudar, mas, para isso, os profissionais de saúde precisam fazer o diagnóstico, disse Kimber.

"Muitos médicos esperam até que as mães estejam muito doentes, e não administram hidratação venosa para ajudar a metabolizar os medicamentos", ela contou. "Muitas estratégias de medicação precisam ser melhoradas."

Mulheres com hiperêmese gravídica têm níveis elevados do hormônio GDF15, produzido pela placenta durante a gestação, de acordo com pesquisa financiada pela HER Foundation (Geburtshilfe Frauenheilkd. 2019;79:382-388 e 2018;78:866-870).

Influências hormonais e genéticas

Parte dessa pesquisa mostrou que o GDF15 – que desempenha um papel no controle do apetite e foi associado a caquexia em pacientes com câncer – e o gene IGFBP7 associado a hiperêmese gravídica (Nat Commun. 2018;9:1178).

Antigamente, "os médicos falavam para as mulheres que [os sintomas] eram psicológicos ou causados por hormônios da gestação", disse a Dra. Marlena Fejzo, Ph.D., da David Geffen School of Medicine, em Los Angeles, que foi a primeira pesquisadora deste estudo.

Mas "isso não é verdade. O estudo mostrou que existe um fator genético", explicou a Dra. Marlena. O hormônio interage com o cérebro da gestante, provocando vômito incontrolável.

A Dra. Marlena disse que está interessada em procurar medicamentos para bloquear a ação do hormônio causando os vômitos no sistema nervoso central, mas esse trabalho provavelmente ainda está longe de ser concluído. No entanto, resultados de estudos clínicos em andamento sobre tratamentos para caquexia em pacientes com câncer podem ter aplicações na hiperêmese gravídica, ela destacou.

Tem mulheres que sofreram descolamento de retina, fratura de costelas, perfuração timpânica, lesão esofágica – tudo isso causado pela violência dos vômitos.

Enquanto isso, ajudar médicos, profissionais de enfermagem e outros profissionais de saúde a identificar a condição é a prioridade.

"Tem mulheres que sofreram descolamento de retina, fratura de costelas, perfuração timpânica, lesão esofágica – tudo isso causado pela violência dos vômitos. Há mulheres cujas unhas caíram devido à desnutrição", disse ela.

E, "casos de encefalopatia de Wernicke têm sido cada vez mais notificados", quando as mulheres não recebem tiamina suficiente e não conseguem tomar as vitaminas pré-natais por causa dos vômitos, disse ela, mencionando o caso de uma menina de 15 anos de idade.

Mas, se identificada suficientemente cedo, a encefalopatia pode ser tratada, observou a Dra. Marlena.

Ferramentas que contribuem para gestantes e seus médicos determinarem se os sintomas se enquadram nos critérios da hiperêmese gravídica e informações sobre os protocolos de tratamento para médicos e pacientes estão disponíveis no site da HER Foundation . Além disso, um aplicativo para smartphone feito para ajudar as mulheres a rastrear seus sintomas foi desenvolvido pela fundação e pela UCLA.

"Essas mulheres precisam de tratamento", enfatizou Kimber. "Precisamos que os profissionais comecem a usar essas ferramentas, que acreditem nessas mulheres e as tratem". Não é correto mandá-las de volta para casa, orientando a beber mais líquidos.

Kimber MacGibbon e Dra. Marlena Fejzo informaram não ter relações financeiras relevantes.

Conferência anual de 2019 da Infusion Nurses Society (INS): Apresentado em 19 de maio de 2019.

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