Infecções e higiene oral ruim em crianças podem promover aterosclerose na idade adulta

Notificação

10 de maio de 2019

Crianças com evidências de infecção oral, como cáries e sangramento gengival, tiveram uma probabilidade significativamente maior de ter o nível mais alto de espessamento da túnica média e íntima da carótida (TMI) mais de 25 anos depois, revela análise baseada na coorte do estudo prospectivo finlandês Lasten Sepelvaltimotaudin riskitekijät-tutkimus .

Os sinais de infecção oral em crianças também foram significativamente associados aos fatores convencionais de risco de doença cardiovascular, como a hipertensão arterial e o aumento do índice de massa corporal (IMC).

Ainda assim, o maior espessamento da túnica média e íntima da carótida, marcador de aterosclerose subclínica e considerado marcador alternativo de doença coronariana, permaneceu associado de modo independente após ajuste por exposição a um conjunto de marcadores convencionais de risco cardiovascular durante toda a vida, escreveram os autores da análise, liderados pelo Dr. J. Pirkko Pussinen, Ph.D. da Helsingin yliopisto.

"Os resultados mostram pela primeira vez, ao nosso conhecimento, que as infecções orais na infância podem ser um fator de risco modificável de doença cardiovascular na idade adulta", disseram os autores no artigo publicado no periódico JAMA Network Open em 26 de abril.

Seria um grande passo concluir a partir dos dados atuais que essas infecções podem causar doença cardiovascular em adultos ou que sua prevenção possa reduzir o risco de doença cardiovascular. Mas seria coerente com as copiosas evidências observacionais e epidemiológicas sobre a existência de alguma associação entre a higiene oral e o risco de doença cardiovascular.

A periodontite, por exemplo, foi diretamente associada ao risco de infarto agudo do miocárdio (IAM), doença coronariana (DC) em geral, e acidente vascular cerebral (AVC), e pode promover a perda dos dentes, que está relacionada com a doença cardiovascular nos estudos epidemiológicos, observou Dr. Pirkko ao Medscape.

"Mas todos esses estudos foram feitos com populações de adultos. Este é o primeiro estudo feito com crianças. O estudo reforça a importância de manter uma boa saúde oral desde a infância", disse o pesquisador por e-mail.

O editorial que acompanha o estudo propõe várias explicações possíveis para as associações vistas na análise em tela. Entre as quais existe a possibilidade de que "as pessoas que não tiveram uma boa saúde oral quando crianças também tenham pior saúde oral quando adultas", e existem mais evidências respaldando a doença periodontal do adulto como promotora de aterogênese e risco cardiovascular.

No entanto, seria extraordinariamente difícil testar essa hipótese em um ensaio clínico randomizado, de modo que a questão permanece “em aberto”, observaram os editorialistas Dr. Anwar T. Merchant, odontologista da University of South Carolina, em Columbia, e o Dr. Salim S. Virani, Ph.D., médico do Baylor College of Medicine, em Houston.

Os editorialistas descreveram várias outras possíveis explicações para a relação entre a saúde oral e o espessamento da túnica média e íntima da carótida nos adultos, mas explicaram como elas parecem ter menos probabilidade de ter desempenhado algum papel na análise em tela.

Por exemplo, pode ser porque "a má saúde cardiovascular e oral compartilham fatores de risco comuns, tais como tabagismo, má alimentação, inatividade física ou fatores genéticos desconhecidos, predispondo a pessoa a uma resposta inflamatória exacerbada". No entanto, o Dr. Anwar e o Dr. Salim disseram que a análise parece ter controlado adequadamente essas possíveis variáveis de confusão.

Os 755 participantes da coorte, dentre os quais 51% eram do sexo feminino, fizeram exames orais aos seis, nove ou 12 anos de idade (média de idade de oito anos) e acompanhamento clínico em 2001, quando tinham 27, 30 ou 33 anos de idade e/ou em 2007, com 33, 36 ou 39 anos de idade, informaram o Dr. Pirkko e colaboradores.

Os exames da cavidade oral avaliaram sangramento com sonda, profundidade de bolsas periodontais com sonda, cáries e produtos de obturações dentárias.

Da coorte, 4,5% não tinham nenhum sinal de infecção oral na avaliação inicial, 5,6% tinham um dos quatro marcadores; 17,4% tinham dois, 38,3% tinham três e 34,1% tinham todos os quatro sinais. Não houve diferenças significativas entre meninos e meninas.

Marcadores de risco cardiovascular (pressão arterial sistólica e diastólica, IMC e glicemia, triglicerídeos, lipoproteína de alta densidade e lipoproteína de baixa densidade do colesterol) foram avaliados em cinco pontos do acompanhamento. O alto risco de cada marcador em cada uma das cinco avaliações foi definido como resultado ≥ 75o percentil; < 75o percentil foi definido como baixo risco.

O número médio de resultados de alto risco aumentou significativamente com o número de sinais de infecção oral na infância. Por exemplo, nas avaliações na infância, o resultado passou de 5,31 na ausência de sinais de infecção para 7,2 com quatro sinais de infecção (P = 0,008); na idade adulta, passou de 4,9 na ausência de sinais para 6,1 com os quatro sinais (P = 0,04); e em todo o acompanhamento, aumentou de 11,4 para 14,1 com os quatro sinais de infecção (P = 0,01).

A aterosclerose subclínica, conforme definida pelo espessamento da túnica média e íntima da carótida foi avaliada em 2001 e em 2007, nas duas vezes na maioria da coorte e utilizando o mesmo protocolo e o mesmo leitor.

A diferença da média de espessamento da túnica média e íntima da carótida entre os que tiveram zero vs. quatro sinais de infecção oral ao início do estudo foi de 0,056 mm (P = 0,004) em 2001 e 0,051 mm (P = 0,003) em 2007.

Pela análise multivariada, a doença periodontal no início do estudo se correlacionou significativamente com o espessamento da túnica média e íntima da carótida na idade adulta (P = 0,01), bem como as cáries dentárias (P = 0,008) e a presença de cárie junto com doença periodontal (P = 0,004).

O risco relativo (RR) de aumento do espessamento da túnica média e íntima da carótida (isto é, o 3o tercil vs. o 1o e o 2o tercis) foi de 1,87 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,25 a 2,79) para a presença de qualquer um dos quatro sinais de infecção oral na infância quando ajustado pelos marcadores de risco cardiovascular. O risco relativo da presença dos quatro sinais foi de 1,95 (IC 95%, de 1,28 a 3,00).

O espessamento da túnica média e íntima da carótida é um marcador de aterosclerose generalizada, e acredita-se que esteja correlacionado com a doença coronariana. O Dr. Pirkko disse que a coorte, agora com 45 a 50 anos de idade, continua a ser acompanhada, de modo que "talvez mais adiante a gente venha a saber mais" sobre como o espessamento da túnica média e íntima da carótida se relaciona com a doença cardiovascular.

O Dr. J. Pirkko Pussinen informou não ter conflitos de interesses. Os conflitos de interesses dos outros autores constam no artigo. O Dr. Anwar T. Merchant e o Dr. Salim S. Virani informaram não ter conflitos de interesses.

JAMA Netw Open. 2019;2:E192523 e E192489. Texto completo, Editorial

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