Acupuntura no pronto-socorro: uma opção viável e benéfica para tratar a dor sem opioides

Nancy A. Melville

Notificação

8 de mai de 2019

Milwaukee – A acupuntura feita no pronto-socorro (PS) é uma opção viável e benéfica para tratar a dor sem opioides nem medicamentos, sugere nova pesquisa

O estudo de viabilidade e melhora da qualidade foi feito com mais de 700 pacientes com dor aguda atendidos no pronto-socorro do Aurora West Allis, em Milwaukee, Wisconsin, para os quais foi oferecida uma sessão de acupuntura.

"Descobrimos que mais de 50% dos pacientes para os quais os médicos e os acupunturistas concordaram com a indicação, aceitaram fazer acupuntura no PS; e, dentre os que aceitaram, vimos até 50% de redução da dor e até 60% de redução do estresse e da ansiedade", disse ao Medscape o primeiro autor John Burns, fisioterapeuta com especialização em medicina oriental e acupunturista do Departamento de Medicina Integrativa do Aurora Health Center, em Milwaukee.

"Estes são resultados descritos pelos próprios pacientes, mas o que queremos é informação para potencialmente levar à realização de ensaios clínicos randomizados controlados mais rigorosos – comparando a acupuntura a alguns de nossos métodos tradicionais de tratar a dor, como os narcóticos", acrescentou o autor.

John observou que esses resultados positivos ocorreram após uma única sessão de acupuntura no pronto-socorro, e os pacientes receberam informações sobre onde e como dar sequência ao tratamento. "Não tem diferença nenhuma de quando o paciente recebe um medicamento durante um atendimento no pronto-socorro", acrescentou o pesquisador.

"O fato de informarem melhora com a acupuntura é compreender que os pacientes podem se beneficiar de um tratamento de acupuntura de modo semelhante ao benefício que obtêm com os medicamentos, mas sem o risco de efeitos adversos", disse John.

Os resultados foram apresentados na reunião de 2019 da American Pain Society (APS).

Ceticismo inicial

Com a pressão da Joint Commission e de outras importantes organizações e agências hospitalares internacionais para a promoção de métodos não farmacológicos para o tratamento da dor, a acupuntura conquistou a aceitação em áreas que vão da ortopedia à dor do câncer.

O estudo em tela foi projetado para se alinhar às recomendações da Joint Commission, disse John.

"Tivemos de capacitar o acupunturista para prepará-lo acerca do que iria encontrar no pronto-socorro", explicou. "Nós também o apresentamos aos médicos e à equipe do pronto-socorro, para que soubessem o que estávamos planejando e comprassem a nossa ideia".

Como era de se esperar, em um primeiro momento houve ceticismo, disse John.

"Inicialmente o ceticismo foi grande e, naturalmente, todos deveríamos ter um certo grau de ceticismo saudável diante de novidades", observou. "Meu trabalho foi esclarecer, dar informações, fazer uma introdução, explicar as evidências que têm sido obtidas de vários tipos de pacientes. E, depois de cerca de um mês, a equipe começou a ver os benefícios nos próprios pacientes. Então agora o ambiente é de aceitação".

Para o estudo em tela, foi oferecido tratamento com acupuntura para 706 pacientes com dor aguda por indicação do médico emergencista. Entre esses pacientes, 379 (53,7%) concordaram em fazer este tratamento.

Os pacientes considerados mais adequados para a sessão de acupuntura foram aqueles com uma pontuação de três a cinco pelo índice de gravidade de urgência, que é considerada uma dor de menor intensidade do que a da pontuação um ou dois.

"Mais de 60% dos pacientes que procuram o pronto-socorro têm uma pontuação ≥ 3, de modo que estes foram a maioria dos que aceitaram a acupuntura", disse John. Os quadros clínicos dos pacientes foram variados, "de lombalgia a migrânea, e até mesmo um paciente com retenção urinária", observou o pesquisador.

Redução significativa da dor

Para os pacientes que fizeram acupuntura, a média da pontuação da dor diminuiu significativamente de 6,5 para 3,4 em uma escala de 0 (ausência de dor) a 10 (pior dor possível; P < 0,001).

Também foram observadas reduções significativas na média dos níveis de estresse, ansiedade e náuseas (todos P < 0,001). A média da pontuação de ansiedade diminuiu de 4,8 no início do estudo para 1,6; a média da pontuação de náuseas diminuiu de 1,6 para 0,6. Também houve boa aceitação da abordagem pela equipe.

Não houve diferenças significativas entre aqueles que fizeram e os que não fizeram acupuntura em termos de duração da permanência no pronto-socorro ou do uso de medicamentos ou opioides.

Pelo tratamento convencional, os pacientes que procuram o pronto-socorro com dor tipicamente recebem medicamentos controlados. Pesquisas feitas anteriormente sugerem que até 17% dos pacientes que nunca tinham tomado opioides ao receber sua primeira prescrição da classe ainda usavam esses medicamentos um ano depois da consulta na qual os medicamentos foram prescritos pela primeira vez, escreveram os pesquisadores do estudo em tela.

As sessões de acupuntura no estudo foram cobertas pelo hospital e não custaram nada para os pacientes, informou John. Ele disse não conhecer nenhum plano de saúde que reembolse a acupuntura no pronto-socorro.

O programa está em andamento e atualmente está no seu terceiro ano no centro, observou John. Embora a intervenção só esteja disponível atualmente em um centro, esse sistema hospitalar tem cinco centros e "esperamos conseguir implementar essa prática nos outros centros", disse o pesquisador.

"Já apareceram outras pessoas interessadas no nosso sistema", acrescentou John.

O encaminhamento médico é importante

Uma análise mais ampla, com 1.161 pacientes que fizeram acupuntura no Aurora Health Center entre 2005 e 2016, também foi apresentada na reunião da APS – e reforçou a importância do encaminhamento médico para o tratamento com acupuntura.

Os resultados mostraram que entre os pacientes encaminhados para o tratamento, 87,7% tiveram mais probabilidade de fazer novas sessões em comparação a 75,7% dos pacientes com demanda espontânea.

Os pacientes encaminhados também tiveram um número maior de sessões do que os pacientes com demanda espontânea (quatro a sete sessões em comparação a apenas uma a três, respectivamente). "Os resultados mostram que os pacientes encaminhados são mais propensos a continuar as sessões se tiverem o apoio do seu médico", disse ao Medscape a primeira autora, Dra. Carolita Heritage, médica do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Aurora Sinai Medical Center.

A grande maioria da população do estudo (N = 1.057) foi atendida com queixa de dor, e mais de 70% dos pacientes referiram melhora da dor após a acupuntura.

A Dra. Carolita fez a importante ressalva de que a cobertura da acupuntura pelos planos de saúde não é sistemática, e que o custo pode ser um problema para muitos pacientes.

"Apesar do aumento da aceitação, ainda é difícil obter cobertura; mas é por isso que precisamos de mais dados mostrando que a acupuntura é viável e proveitosa", disse a Dra. Carolita.

"Não desanime"

Comentando os resultados para o Medscape, a especialista em medicina da dor Dra. Lucy Chen, médica e professora associada de anestesiologia na Harvard Medical School, em Boston, e pesquisadora responsável do Mass General Center for Translational Pain Research do Massachusetts General Hospital, disse que embora o estudo sobre o uso da acupuntura no pronto-socorro sugira melhora da dor com apenas uma sessão, a maioria das evidências mostra ser necessário um tratamento mais prolongado.

"Você realmente precisa fazer seis ou sete sessões antes de definir se a acupuntura foi ou não bem-sucedida. De modo que é importante recomendar ao paciente que faça várias sessões", explicou a especialista.

"Se o paciente não perceber nenhum resultado após uma ou duas sessões, é importante dizer para que ele não desista", acrescentou. A Dra. Lucy, que não participou da pesquisa, disse que a acupuntura é oferecida atualmente no seu centro de tratamento da dor e em vários departamentos do Massachusetts General Hospital. No entanto, a médica sonha com um centro de saúde integrado mais centralizado, oferecendo a acupuntura e outras abordagens não farmacológicas para o tratamento da dor em todas as especialidades.

"A acupuntura está distribuída em diferentes departamentos do Massachusetts General Hospital. É oferecida no centro de tratamento da dor, no centro oncológico e em outros departamentos; mas estou pensando em criar um centro integrado para desempenhar um papel mais relevante", disse a especialista.

A Dra. Lucy concordou que os médicos não devem deixar de encaminhar os pacientes com dor para a acupuntura, acrescentando que a pesquisa mostrou que têm sido observadas reduções mensuráveis da dor até mesmo no mais cético dos pacientes.

"Na verdade, a questão são os dados – gosto de promover a pesquisa científica. Essa é a forma de avançar", disse Dra. Lucy.

Os autores do estudo e a Dra. Lucy Chen informaram não ter conflitos de interesse relevantes.

American Pain Society Annual Meeting: Abstract 361;794:362. Apresentado de 04 a 05 de abril de 2019.

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