Fármaco usado no tratamento da hepatite C parece eficaz contra a febre amarela

Elioenai Paes

Notificação

6 de mai de 2019

Um estudo pré-clínico brasileiro [1] publicado no periódico PLOS Neglected Tropical Diseases mostra que o vírus silvestre da febre amarela é suscetível ao sofosbuvir tanto em ensaios in vitro como in vivo. O medicamento, atualmente indicado e aprovado para o tratamento da hepatite C, já havia mostrado atividade antiviral contra os vírus Zika [2] e dengue [3] em estudos pré-clínicos anteriores.

Considerando que os vírus causadores de zika, dengue e febre amarela fazem parte da mesma família, os pesquisadores testaram a eficácia do sofosbuvir no vírus silvestre da febre amarela como forma de potencialmente ampliar as opções de tratamento para a doença, que hoje causa a morte de 30 a 60 mil pessoas no mundo por ano.

Por causa da alta letalidade da febre amarela, pesquisar a existência de algum medicamento usado para tratar outras doenças que também seja eficaz contra ela pareceu a melhor opção, de acordo com um dos autores do estudo, o virologista Thiago Moreno L. Souza.

Em outros estudos feitos com modelos animais em flavivírus, a pesquisa com sofosbuvir mostrou que o medicamento é mais efetivo quando usado de forma profilática ou o mais precocemente possível, mas houve benefícios mesmo em tratamentos tardios.

Quando comparado com outros pan-antivirais, como a ribavirina, o sofosbuvir é um medicamento que apresenta mais segurança em relação aos efeitos colaterais, e é considerado mais seguro para gestantes.

Conforme apresentado no estudo, o mecanismo de inibição da febre amarela pelo sofosbuvir consiste na associação do medicamento com resíduos de aminoácidos presentes na enzima de transcrição RNA polimerase NS5 do vírus da febre amarela, impedindo a ligação de nucleotídeos e, deste modo, inibindo a replicação do vírus no hepatoma de células humanas (huh-7), levando à redução da mortalidade.

De acordo com a pesquisa, embora os resultados sejam translacionais, é importante que novos estudos sejam feitos para determinar com mais precisão o mecanismo de ação do sofosbuvir sobre o vírus da febre amarela, bem como para estabelecer a dose do medicamento.

Para o Dr. Marcos Vinícius da Silva, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o trabalho traz uma luz para o futuro do tratamento da febre amarela. "A doença é complexa a partir do momento que os sintomas são desencadeados. O sofosbuvir se mostrou muito promissor no sentido de tratar ainda a fase inicial da doença. Mas serão necessários mais estudos para constatar se o que foi observado nos animais também vale para os humanos", avaliou.

Para o especialista, se o fármaco se mostrar eficaz contra a replicação do vírus da febre amarela em humanos, esta será uma possível solução para o tratamento de pessoas que não se vacinaram ou que não responderam bem ao imunizante.

De acordo com Thiago, a pesquisa mostrou que o sofosbuvir inibe a replicação de cepas selvagens e vacinais de febre amarela in vitro e in vivo. "O uso mais efetivo é o profilático. Ainda assim, à luz da melhora dos parâmetros hepáticos, ainda que tardiamente, é melhor tratar", disse o virologista.

Para Thiago, o uso off-label do sofosbuvir já poderia ser feito quando não houver mais recursos disponíveis para o tratamento da doença. "Entendo que, à sua discrição, o médico poderá usar o sofosbuvir para tratar a febre amarela de modo off-label ou compassivo, quando não existe outra possibilidade de tratamento. Vale notar que o vírus da febre amarela tem tropismo primário hepático e o sofosbuvir é ativado sobretudo nestas células. Portanto, o uso do sofosbuvir em qualquer circunstância pressupõe a necessidade de integridade do parênquima hepático, o que pode ser por vezes consistente com estágios que precedem a gravidade", avaliou.

O virologista explicou que, se provada a eficácia do sofosbuvir em humanos, o medicamento tem potencial de ser uma opção para pessoas com doença febril aguda e aumento das transaminases hepáticas.

"Para viajantes de áreas endêmicas de febre amarela que são alérgicos ou intolerantes à vacina, a profilaxia também seria útil. Em casos de doença vacinal, o sofosbuvir também tem potencial de colaborar", disse.

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