Durante o ENDO 2019, realizado em Nova Orleans, tive a oportunidade de entrevistar o Dr. Valter Longo, Ph.D., biólogo, e diretor do Longevity Institute da University of South California, e pioneiro no estudo sobre os benefícios do jejum, que ele acredita ser o segredo para evitar doenças crônicas e ajudar aumentar a longevidade. Ele é o idealizador de uma dieta criada para enganar o corpo, que mimetiza o estado de jejum, e que ele chama de fasting mimicking diet (FMD). Leia a seguir alguns trechos da conversa.
Dr. Fabiano Serfaty: Em se tratando de perda ponderal, o que é melhor: comer ou não comer?
Dr. Valter Longo: O melhor é comer bem e com qualidade a maior parte do ano, e jejuar algumas vezes por ano.
Dr. Fabiano Serfaty: O que você acha da prática bem estabelecida de recomendar que todas as pessoas (saudáveis ou não) contemplem café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia na alimentação diária?
Dr. Valter Longo: Cada pessoa tem necessidades diferentes, especialmente aquelas com doenças. Os pacientes com obesidade ou sobrepeso
devem comer até duas vezes por dia, fazendo no máximo mais um lanche por dia.
Dr. Fabiano Serfaty: Como começou o seu interesse pelo efeito terapêutico do jejum?
Dr. Valter Longo: Começou depois que observei que tanto as bactérias como as leveduras vivem por muito mais tempo e se tornaram mais protegidas quando não se alimentam.
Dr. Fabiano Serfaty: Muito se fala a respeito do jejum intermitente e seus benefícios. Qual a sua opinião sobre isso?
Dr. Valter Longo: Jejum intermitente não significa nada, é como dizer comer intermitentemente. Precisamos começar a falar sobre intervenções específicas para cada tipo de paciente. Eu e meu grupo de pesquisa nos concentramos em estudar dietas que imitam o jejum, e demonstramos em ratos e humanos que elas têm efeitos potentes e protetores contra os fatores de risco de doenças. Em camundongos, demonstramos também grandes efeitos contra o câncer, bem como efeitos positivos na memória e aumento da longevidade.
Dr. Fabiano Serfaty: Você poderia explicar o raciocínio por trás das fasting mimicking diets, as dietas que imitam o jejum?
Dr. Valter Longo: São dietas que contêm baixas calorias, baixo teor de açúcar, pouca proteína e pouca gorduras insaturadas que causam mudanças nos fatores metabólicos e de crescimento similares àqueles causados apenas pelo jejum em que o paciente não come nada e ingere apenas água.
Dr. Fabiano Serfaty: Você poderia apontar alguns benefícios, algo que mais chamou atenção, que tenha sido recentemente publicado por você e por sua equipe?
Dr. Valter Longo
Dr. Valter Longo: Reduções em: colesterol, glicose em jejum, triglicerídeos, IGF-1 (do inglês, insulin-like growth factor 1), gordura abdominal e pressão arterial – particularmente em indivíduos com níveis elevados. [1,2]
Dr. Fabiano Serfaty: Por que estes benefícios não são amplamente divulgados na mídia e entre a comunidade médica? Existem interesses ocultos por trás disso?
Dr. Valter Longo: Nós viemos de décadas e décadas de um sistema focado nos medicamentos. É difícil pensar em dietas que imitam o jejum e buscam a longevidade nesta “era médica”. Mas as coisas estão mudando, eu prevejo que em 10 anos a maioria dos médicos vai considerar as fasting mimicking diets na prevenção e no tratamento de doenças.
Dr. Fabiano Serfaty: Quais são as evidências científicas disponíveis sobre o tratamento do câncer associado ao jejum?
Dr. Valter Longo: Muitas publicações em modelos murinos, e agora quatro ensaios clínicos foram publicados [3,4,5,6] avaliando o efeito do jejum e de dietas que mimetizam o jejum no tratamento do câncer, com foco em viabilidade e no potencial de redução dos efeitos colaterais. Dois desses estudos foram randomizados. [3,6] Em um deles foi relatada a redução da toxicidade hematológica e do dano ao DNA em células mononucleares circulantes em um grupo de mulheres que fez jejum antes da quimioterapia contra o câncer de mama. [5] Outro estudo randomizado mostrou melhora da qualidade de vida e redução da fadiga em pacientes com câncer de mama e ovário que fizeram uma dieta imitando o jejum por 60 horas em associação com quimioterapia. [6] Um outro relatou uma tendência de redução da neutropenia de grau 3 e 4 e de danos no DNA de leucócitos em pacientes que jejuaram por 72 horas em comparação com aqueles que fizeram jejum de 24 horas em combinação com quimioterapia à base de platina aplicada a uma variedade de tumores. [4] Além disso, uma série de casos relatou que o jejum por períodos variáveis reduziu os efeitos adversos da quimioterapia em seis pacientes com vários tipos de câncer. [5] Pelo menos três ensaios clínicos testando o papel das dietas que imitam o jejum no tratamento do câncer, envolvendo mais de 250 pacientes, estão previstos para serem publicados nos próximos 12 meses.
Dr. Fabiano Serfaty: Como médico, infelizmente vejo que muitas vezes orientamos os nossos pacientes, mas não fazemos o principal para dar o exemplo. Você pratica o que defende para os pacientes? Qual estratégia você usa?
Dr. Valter Longo: Eu recomendo o que eu mesmo faço: uma dieta que imita o jejum uma vez por mês a cada seis meses. Além disso, sugiro comer, no máximo, ao longo de 12 horas por dia.
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Citar este artigo: Os poderes terapêuticos do jejum - Medscape - 6 de mai de 2019.
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