Suicídio após a cirurgia bariátrica: um tema ainda pouco compreendido e estudado

Roxana Tabakman

Notificação

29 de abril de 2019

A taxa de suicídio é maior nos pacientes que fizeram cirurgia bariátrica. Há bastante literatura com evidências de que, no longo prazo, os pacientes operados têm mortalidade por todas as causas significativamente menor do que as pessoas obesas que não fizeram a cirurgia, mas a mortalidade por causas como abuso de substâncias e suicídio é maior entre os que realizaram o procedimento. [1,2]

A cirurgia bariátrica também foi associada a aumento da autoagressão, [3] maior frequência de uso dos serviços psiquiátricos e presença de transtornos psiquiátricos, [4] sendo que estes eventos pareceram mais frequentes quando a técnica cirúrgica utilizada foi a derivação gástrica em Y de Roux. [5]

 Este assunto foi abordado pelo Dr. Adriano Segal, psiquiatra do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Cínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), durante o XVIII Congresso Brasileiro de Obesidade e Síndrome Metabólica da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), realizado nos dias 18, 19 e 20 de abril, em São Paulo. O médico apresentou dados publicados por diferentes grupos que evidenciam a associação da cirurgia bariátrica com o aumento do risco de suicídio, mas também compartilhou a própria experiência.

Dr. Adriano Segal

“Não tive nenhum caso de suicídio nos últimos 23 anos”, afirmou o Dr. Adriano, que tem grande experiência em cirurgia bariátrica, e também é responsável pela psiquiatria do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC) e pelo Setor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da ABESO.

A ideia defendida pelo Dr. Adriano em sua apresentação no evento, foi que a pergunta correta não é se existe aumento do risco de suicídio depois da cirurgia bariátrica, mas sim se “existe aumento do risco de suicídio depois da cirurgia bariátrica em pacientes adequadamente assistidos”. Na opinião do especialista, é possível que as taxas mais elevadas evidenciem, ao menos em parte, a ausência de psiquiatras nas equipes.

Os dados apresentados no congresso mostraram aumento do consumo de bebidas alcoólicas, de autoagressão e do risco de suicídio para uma minoria dos pacientes. O número absoluto é baixo, [6] e não é suficiente para desencorajar o procedimento em geral. Um dos desafios ainda pendentes é encontrar fatores preditivos que permitam identificar os pacientes em risco no pré-operatório. [7]

“A indicação é encaminhar para a avaliação psiquiátrica, mas normalmente o cirurgião percebe os casos que têm contraindicação cirúrgica”, disse o Dr. Adriano ao Medscape.

“Minha recomendação é, se tiver dúvida, encaminhe para o psiquiatra”, disse o médico, preconizando que o principal é o acompanhamento psiquiátrico depois da cirurgia, especialmente nos dois seguintes ao procedimento.

O que os estudos não levam em consideração

Pesquisas já apontaram que 50% dos pacientes que fizeram cirurgia bariátrica têm mais de três diagnósticos psiquiátricos [8]

“É uma população psiquiátrica muito grave, não é surpreendente uma taxa de suicídio aumentada. Além disso, estudos mostram que 81% dos pacientes submetidos a cirurgia bariátrica terão algum quadro psiquiátrico ao longo da vida, e que a prevalência de alguns transtornos psiquiátricos é até três vezes maior em obesos mórbidos em comparação com a população geral.”

Segundo o palestrante, as causas deste fenômeno não são conhecidas, nem têm sido muito estudadas. É sabido que quadros de desnutrição no pós-operatório podem levar a quadros mentais orgânicos e, acredita-se, a suicídios. Quanto mais agressiva a resseção anatômica, maior a disabsorção dos medicamentos nos pacientes em tratamento psiquiátrico.

“Mas a má absorção, tanto dos nutrientes como dos medicamentos, diminui com o tempo, e a tendência é que de seis a 12 meses depois da cirurgia o paciente tenha níveis séricos iguais aos do pré-operatório. E, o que costuma ser feito no início é aumentar a dose ou usar medicamentos de liberação rápida. Assim, essa causa potencial de suicídio pode ter importância apenas no pós-operatório imediato”, disse o pesquisador.

“Em todo caso, a prescrição é apenas uma parte, o paciente precisa tomar os medicamentos de acordo com as recomendações, o que raramente acontece”, lembrou.

Além da presença de um psiquiatra na equipe, para oferecer o tratamento e o acompanhamento adequados para a doença psiquiátrica de base, o especialista ressaltou a necessidade de manter o tempo de evolução em mente, “quanto maior o tempo de aparecimento do quadro psiquiátrico, maior a chance de suicídio. Não podemos deixar estes pacientes sem tratamento”.

 

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