Minas Gerais registra caso de transmissão vertical de febre amarela

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

9 de abril de 2019

Um artigo publicado em março deste ano no Pediatric Infectious Disease Journal[1] traz o relato de um caso de transmissão vertical de febre amarela registrado em Minas Gerais durante o surto da doença (2016-2017).

Os autores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Hospital Infantil João Paulo II, Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, alertam para a necessidade de proteção das gestantes devido à gravidade clínica da situação. No caso apresentado, mãe e bebê morreram. A Dra. Lilian Martins Oliveira Diniz, infectologista pediatra do Hospital Infantil João Paulo II e professora da UFMG, falou ao Medscape sobre o caso.

A gestante de 22 anos de idade, moradora do município de Simonésia, em Minas Gerais, estava com 38 semanas de gestação quando foi admitida no hospital com queixa de febre, dor de cabeça, mialgia e dor abdominal há dois dias. Ela foi submetida a uma cesariana e deu à luz a uma menina saudável de 2,940 kg. O quadro evoluiu e a mãe mostrou agravamento clínico, sendo transferida para a unidade de terapia intensiva (UTI), onde desenvolveu instabilidade hemodinâmica e insuficiência renal, necessitando de hemodiálise. Ela apresentou hepatite fulminante, hemodiscrasia, edema cerebral e morreu.

O bebê, embora tenha nascido assintomático, no sexto dia de vida apresentou icterícia, hepatite aguda e instabilidade hemodinâmica. A equipe utilizou diferentes estratégias (como expansão de volume, aminas vasoativas, administração de oxacilina e amicacina), porém, no nono dia a criança teve convulsões e sinais de encefalopatia hepática, exigindo intubação para suporte ventilatório. Sendo transferida para UTI de um hospital referência no tratamento de doenças infecciosas, desenvolveu falência renal e hepática e foi submetida à diálise. O óbito ocorreu no 19° dia de vida.

A equipe analisou amostras de sangue das pacientes por ensaio de imunoadsorção enzimática (IgM), que não detectaram infecção pelo vírus da febre amarela (YFV). No entanto, ambas foram positivas para a infecção por reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real.

Embora a transmissão vertical já esteja bem estabelecida em outras arboviroses, apenas um caso havia sido descrito anteriormente para a febre amarela. [2] O relato, que também foi feito no Brasil, se deu durante o surto de 2009 em São Paulo, mas a mãe amamentou o bebê por dois dias. No caso reportado no artigo desse ano, não houve aleitamento materno devido à condição crítica da paciente.

A Dra. Lilian explicou que no caso reportado, tal como verificado em outras arboviroses, o momento de manifestação da doença esteve associado ao momento em que a criança se infectou: "a criança pode manifestar sinais da doença logo ao nascimento ou poucos dias após, em geral na primeira semana de vida. Esse é o período de incubação da doença", afirmou.

Para a pesquisadora, a mensagem mais importante do trabalho é que a gestante desprotegida, ou seja, não vacinada, pode se infectar e transmitir a doença para o bebê durante a gestação e que a evolução nesses casos costuma ser muito grave.

"Em termos de saúde pública, deve-se reforçar a importância da vacinação em áreas de risco das mulheres em idade fértil, até mesmo das gestantes ainda não vacinadas", disse a médica, destacando que o uso da vacina em gestantes é permitido e indicado pelo Ministério da Saúde em situações de alto risco de aquisição da doença. Isso porque, segundo a professora, ao contrário do que se esperava com uma vacina de vírus vivo, a vacina de febre amarela na gestação não foi associada a nenhum malefício para a mãe ou para o bebê.

Em 2006, um estudo brasileiro avaliou os efeitos da imunização contra febre amarela em gestantes. As mulheres no início da gestação haviam sido vacinadas inadvertidamente durante campanha de vacinação em massa. Os autores observaram alta taxa de soroconversão materna e não identificaram aumento na frequência de malformações, complicações no sistema nervoso central e nem de resultados perinatais adversos, tal como parto prematuro ou morte perinatal. [3]

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