Cannabis de alta potência ligada a 50% dos novos casos de psicose

Megan Brooks

Notificação

4 de abril de 2019

O uso diário de maconha, particularmente da Cannabis de alta potência, está associado a maior incidência de psicose, revela nova pesquisa.

No primeiro estudo a mostrar o impacto do consumo da maconha em nível populacional, os pesquisadores descobriram que as pessoas que usam maconha de alta potência diariamente tiveram até cinco vezes mais probabilidade de abrir um primeiro quadro de psicose do que as pessoas que não usam maconha.

"As diferenças da frequência do consumo da maconha e do uso de Cannabis de alta potência contribuíram para a impressionante variação da incidência de transtornos psicóticos nos 11 centros de estudo em toda a Europa", disse ao Medscape a primeira pesquisadora do estudo, a Dra. Marta Di Forti, Ph.D., médica do Institute of Psychiatry, Psychology, and Neuroscience no King's College em Londres, Reino Unido.

Nas cidades onde há Cannabis de alta potência amplamente disponível, como Londres e Amsterdã, uma proporção significativa de novos casos de psicose está associada ao uso diário de maconha e ao uso da maconha de alta potência. O uso da Cannabis de alta potência pode ser vinculado à metade de todos os novos casos de psicose em Amsterdã e a cerca de um terço em Londres, sugerem os achados.

"Isto tem importantes implicações para a saúde pública, dada a crescente disponibilidade da maconha de alta potência", disse a Dra. Marta.

O estudo foi publicado on-line em 19 de março no periódico Lancet Psychiatry.

Prejuízos à saúde mental

Os pesquisadores analisaram detalhadamente as medidas de uso de maconha entre 901 pacientes abrindo um quadro de psicose e 1.237 controles saudáveis pareados.

O uso diário de Cannabis foi mais comum entre as pessoas que abriram um quadro de psicose em comparação com os controles (29,5% versus 6,8%). O uso de Cannabis de alta potência (≥ 10% de delta-6-tetraidrocanabinol ou THC) também foi mais comum entre pessoas abrindo um quadro de psicose em comparação aos controles (37,1% vs. 19,4%).

Entre os 11 centros do estudo, as pessoas que usavam maconha diariamente tiveram uma probabilidade três vezes maior de abrir um quadro de psicose do que as pessoas que nunca usaram (razão de chances ou odds ratio ajustada, aOR, de 3,2; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 2,2 a 4,1). As pessoas que usavam maconha de alta potência diariamente tiveram uma probabilidade quase cinco vezes maior de abrir um quadro de psicose do que as que nunca usaram (aOR = 4,8; IC 95%, de 2,5 a 6,3).

"Nossos resultados vão ao encontro dos resultados de estudos anteriores que mostraram que o uso de Cannabis com alta concentração de THC tem mais efeitos nocivos sobre a saúde mental do que o uso da substância com menos THC", disse a Dra. Marta.

Além disso, os autores calcularam a "fração atribuível à população", que avalia a contribuição da Cannabis na incidência de psicose em determinada população e a proporção de casos que seriam evitados se a exposição fosse eliminada.

Nas 11 cidades, foi estimado que um em cada cinco novos casos (20,4%) de psicose pode estar relacionado com o uso diário de maconha e 1 em 10 (12,2%) ao uso de Cannabis de alta potência.

Em Amsterdã, um em cada quatro (43,8%) novos casos de psicose pode ser decorrente do uso diário de Cannabis e 5 em 10 (50,3%) do uso de Cannabis de alta potência. Os índices correspondentes em Londres foram de 21,0% para o uso diário e 30,3% para o uso da substância de alta potência.

Presumindo uma relação de causalidade, se não houvesse mais Cannabis de alta potência disponível, a incidência de psicose cairia significativamente de 37,9 para 18,8 por 100.000 habitantes por ano em Amsterdã e de 45,7 para 31,9 por 100.000 habitantes por ano em Londres, calcularam os pesquisadores.

Observações cautelares

Comentando os resultados para o Medscape, a Dra. Suzanne Gage, Ph.D., da University of Liverpool, no Reino Unido, destacou duas "observações cautelares fundamentais" sobre o estudo.

"Em primeiro lugar, os níveis de THC da Cannabis não foram dosados diretamente, mas sim avaliados por meio de uma combinação de informações obtidas com os usuários e do que se sabe sobre os níveis da Cannabis apreendida nas regiões do estudo a partir de outras fontes. E, em segundo lugar, as comparações entre o consumo da Cannabis e a prevalência de psicose nas diferentes regiões se basearam em amostras muito pequenas de usuários de maconha", disse a Dra. Suzanne para o Medscape.

No editorial que acompanha o estudo, a Dra. Suzanne questiona se o estudo confere a certeza de que o consumo diário e de que a Cannabis de alta potência causem psicose.

"Infelizmente, nem todas as evidências utilizando diferentes métodos são congruentes sobre a causalidade. É perfeitamente possível que a associação entre a Cannabis e a psicose seja bidirecional", escreveu a editorialista.

"O estudo da Dra. Marta e colaboradores agrega um desenho de estudo moderno e inovador às evidências disponíveis, o que indica que, para algumas pessoas, existe aumento do risco de psicose pelo uso diário de Cannabis de alta potência. Dada a mudança de status legal da Cannabis em todo o mundo e o potencial associado de aumento da sua utilização, a próxima prioridade é identificar quais são as pessoas em risco ao usar diariamente Cannabis potente, e elaborar estratégias e intervenções educativas para aplacar esse risco", conclui a Dra. Suzanne.

O estudo foi financiado por Medical Research Council, European Community's Seventh Framework Program, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, National Institute for Health Research (NIHR) Biomedical Research Centre (BRC) do South London and Maudsley NHS Foundation Trust e do King's College London, NIHR BRC do University College London e Wellcome Trust. A Dra. Marta Di Forti informou receber honorários da empresa Janssen sem relação com este estudo. A Dra. Suzanne Gage informou não ter conflitos de interesses relevantes.

Lancet Psychiatry. Publicado on-line em 19 de março de 2019. Texto completo, Editorial

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