Mais da metade dos pacientes com febre amarela apresenta anomalias eletrocardiográficas

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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27 de março de 2019

Em 2018 o Brasil vivenciou uma epidemia de febre amarela. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com colaboração norte-americana investigou pacientes que contraíram a doença naquele período e comprovou que há envolvimento cardíaco nessa infecção.

Segundo um artigo publicado em março no periódico American Journal of Cardiology, [1] alterações eletrocardiográficas e ecocardiográficas foram mais frequentes em pacientes com febre amarela do que na população geral, especialmente bradicardia e espessamento da parede do ventrículo esquerdo com hiper-refringência sugestiva de infiltração miocárdica.

O Dr. Bruno Ramos Nascimento, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e cardiologista intervencionista do Hospital das Clínicas da UFMG falou ao Medscape sobre o trabalho.

A pesquisa foi realizada com pacientes admitidos no Hospital Eduardo de Menezes, unidade de saúde estadual (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – FHEMIG) da região metropolitana de Belo Horizonte, entre março e abril de 2018. Dos 103 pacientes com suspeita de arbovirose, 70 tiveram confirmação sorológica de febre amarela, sendo que 48 desenvolveram a forma grave da doença.

Além de avaliação clínica e laboratorial, todos os pacientes com febre amarela foram submetidos a eletrocardiograma e ecocardiografia à beira do leito e, naqueles em que foram detectadas anomalias, foi feito Holter de 24 horas. Ressonância magnética cardíaca também foi realizada em alguns pacientes.

Os autores identificaram anomalias eletrocardiográficas em 52% dos pacientes com febre amarela. Quando consideraram apenas o grupo com a forma grave da doença, a taxa passou para 77%. Repolarização ventricular anormal e bradicardia sinusal sem prolongamento do intervalo PR foram as alterações mais frequentes.

O Holter de 24 horas foi feito em 32 pacientes, e os parâmetros foram similares entre os pacientes com formas discreta, moderada e grave. Dentre os indivíduos submetidos a esse exame, 44% tiveram frequência cardíaca média < 60 batimentos por minuto (bpm), apesar do envolvimento inflamatório sistêmico da doença.

A ecocardiografia revelou anomalias em 27 pacientes (39%), mas essas também foram mais frequentes no grupo com a forma grave da doença (48%). Espessamento da parede do ventrículo esquerdo com aspecto hiper-refringente sugestivo de infiltração miocárdica foi observado em 17 (24%) pacientes, sendo que 13 deles tinham a forma grave da infecção.

Embora todos os exames cardíacos (com exceção da ressonância magnética) tenham sido realizados no próprio hospital no qual os pacientes foram admitidos, as imagens foram analisadas à distância por especialistas, por meio de telemedicina, como parte do programa PROVAR+, [2] uma parceria entre a UFMG e o Children's National Health System, Washington, DC.

O Dr. Bruno explicou que estudos anteriores já haviam revelado alguns tipos de acometimento do tecido miocárdico em outras arboviroses [3,4,5,6,7] e, inclusive, já havia a sugestão de alguns padrões de anomalia cardiovascular na própria febre amarela. [8,9,10] No entanto, a ausência de estudos sistemáticos com tamanho amostral significativo motivou o grupo a desenvolver a pesquisa.

Os achados do grupo de Minas Gerais chamam atenção para a necessidade de atentar para a saúde cardiovascular dos pacientes com febre amarela. O estudo de coorte ELSA-Brasil [11] mostrou, por exemplo, que a frequência de anomalias eletrocardiográficas em mulheres saudáveis foi de 7,9% e 11,3% em homens. Nesse caso, os participantes tinham em média 52 anos, idade próxima da verificada no estudo de febre amarela (média de idade de 48 anos).

"Considerando a faixa etária relativamente baixa dos nossos pacientes, essas alterações eletrocardiográficas foram muito mais frequentes entre os indivíduos com febre amarela do que em controles saudáveis na mesma faixa etária, ou seja, provavelmente são alterações relacionadas a alguma alteração cardiovascular induzida pelo vírus ou secundária ao processo inflamatório desencadeado pela doença", afirmou o Dr. Bruno.

A elevada frequência de bradicardia nos pacientes com febre amarela, segundo o médico, é um achado interessante, pois, normalmente, quadros inflamatórios estão associados à taquicardia.

"O envolvimento do músculo cardíaco tanto pelo vírus como pela inflamação que ele causa, em princípio, pode ser uma das causas dessa bradicardia que também vem sendo reportada em outras arboviroses", destacou o pesquisador.

O Dr. Bruno contou que em um dos pacientes que foi submetido à ressonância magnética cardíaca o contraste observado no ventrículo esquerdo sugeria também a existência de processo inflamatório no miocárdio, tal como o sugerido pelo ecocardiograma. Além disso, foi identificada miocardite em um dos três pacientes que foram necropsiados.

Para o cardiologista, os achados não dão subsídio para fazer exames cardíacos avançados em todos os pacientes que são internados por febre amarela, mas apontam a necessidade de observá-los com mais cuidado no aspecto cardiovascular.

"Devemos, pelo menos, fazer os exames mais básicos, por exemplo, eletrocardiograma e raio X de tórax. Embora esses exames sejam de rotina, até então, não se dava muita atenção para essas alterações nos pacientes com febre amarela. Agora, estes têm de ser olhados de forma diferente, pois é um grupo com muito mais anomalias do que a população geral. Esses exames precisam ser avaliados com cuidado e, se houver alguma alteração, devemos então considerar a realização de exames de imagem mais avançados, por exemplo, ecocardiograma e ressonância magnética cardíaca", destacou.

Além das anomalias cardíacas, o estudo de Minas Gerais mostra, segundo o Dr. Bruno, que a telemedicina pode ser uma ferramenta importante, possibilitando que o cuidado cardiovascular, dentre outras modalidades, chegue a regiões necessitadas em situações de epidemia.

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