Associação de antipsicóticos pode reduzir risco de reinternação na esquizofrenia

Deborah Brauser

Notificação

25 de março de 2019

Alguns protocolos de associação de antipsicóticos podem diminuir o risco de reinternação relacionada com a esquizofrenia em adultos, mais do que a monoterapia, sugere uma nova pesquisa.

Em um estudo com mais de 62.000 pacientes finlandeses com esquizofrenia e acompanhados por até 20 anos, o risco de reinternação psiquiátrica foi de 7% a 13% menor entre os que fizeram tratamento com associação de antipsicóticos do que entre os que fizeram monoterapia com qualquer antipsicótico.

Em toda a coorte, os pacientes com menor risco de reinternação foram os que tomaram clozapina (várias marcas) com aripiprazol (várias marcas). Embora a clozapina tenha sido a monoterapia associada aos melhores resultados, ela foi superada em 14% pela associação clozapina e aripiprazol.

Dr. Jari Tiihonen

"Os resultados sugerem que certas combinações de antipsicóticos, como a clozapina com o aripiprazol, podem ser úteis," disse ao Medscape o primeiro autor Dr. Jari Tiihonen, Ph.D., médico do Departamento de Neurociências Clínicas do Karolinska Institutet em Estocolmo, na Suécia.

"O resultado relativamente bom da associação de antipsicóticos não foi surpreendente, uma vez que está alinhado aos resultados de estudos observacionais feitos anteriormente – embora os estudos anteriores tenham tido algumas limitações metodológicas", acrescentou o Dr. Jari.

Essas descobertas foram publicadas on-line em 20 de fevereiro no periódico JAMA Psychiatry.

Tratamento controverso

"A eficácia da associação de antipsicóticos na prevenção da recidiva da esquizofrenia é controversa, e acredita-se, em geral, que a utilização de mais de um antipsicótico prejudique o bem-estar físico", escrevem os pesquisadores.

Ainda assim, estima-se que até 30% dos pacientes esquizofrênicos recebam mais de um antipsicótico, acrescentam.

Os pesquisadores indicam que as metanálises de ensaios clínicos randomizados controlados "têm mostrado resultados heterogêneos", e que estudos observacionais utilizando grandes bancos de dados eletrônicos podem ser mais úteis.

Os pesquisadores acrescentaram que nenhum estudo observacional realizado comparou por meio de análises interindividuais a eficácia do tratamento antipsicótico em monoterapia vs. associado.

"A associação de antipsicóticos é amplamente utilizada, embora as diretrizes terapêuticas não incentivem sua utilização, uma vez que os ensaios clínicos randomizados controlados de períodos curtos não demonstraram nenhum benefício substancial de eficácia", disse Dr. Jari.

"No entanto, muito pouco se sabe sobre a eficácia do uso prolongado da associação de antipsicóticos na prevenção das recidivas".

Para o estudo em tela, os pesquisadores avaliaram dados de alta hospitalar, prescrição e morte nos prontuários de 62.250 pacientes com esquizofrenia (50,2% homens; média de idade de 45,6 anos) de janeiro de 1996 a dezembro de 2015. Todos os participantes viviam na Finlândia e foram usados 29 antipsicóticos diferentes, isoladamente ou em associação.

O desfecho primário foi o risco de reinternação psiquiátrica "interindividual durante o uso da associação de antipsicóticos vs. durante a monoterapia", observaram os pesquisadores.

Viabilidade da associação de antipsicóticos

Os resultados mostraram que a única monoterapia entre os 10 melhores tratamentos para diminuir o risco de reinternação psiquiátrica foi com a clozapina. De todos os protocolos, o menor risco de reinternação foi com a associação de clozapina e aripiprazol.

As razões de risco (HR, do inglês hazard ratio) deste protocolo vs. monoterapia com clozapina foram de 0,86 na análise que incluiu todos os períodos de associação de antipsicóticos (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,79 a 0,94) e 0,82 "na análise de associação de antipsicóticos definida de forma conservadora, excluindo períodos abaixo de 90 dias" (IC 95%, de 0,75 a 0,89; P < 0,001).

As diferenças foram ainda maiores entre os dois protocolos para os pacientes com um primeiro episódio de esquizofrenia – com HR de 0,78 e 0,77 para todos os períodos e pela análise conservadora na associação de antipsicóticos, respectivamente.

"Em nível agregado", a HR variou de 0,87 a 0,93 para qualquer associação de antipsicóticos vs. qualquer monoterapia, informam os pesquisadores.

Além disso, as conclusões sobre "hospitalização clínica e mortalidade por todas as causas, bem como outras análises de sensibilidade estiveram alinhadas com os desfechos primários", escreveram os autores.

De maneira geral, os resultados indicam que "certos tipos de associação de antipsicóticos podem ser viáveis" ao tratar a esquizofrenia.

"Porque a associação de medicamentos começa quando a monoterapia não é mais suficiente para controlar a piora dos sintomas, é provável que os tamanhos de efeito da associação de antipsicóticos sejam subestimados", escrevem os pesquisadores.

Os autores observam que, embora os resultados não sugiram benefício para todos os tipos de associação de antipsicóticos, "as diretrizes terapêuticas atuais devem modificar suas recomendações categóricas que não incentivam nenhuma associação de antipsicóticos para o tratamento de manutenção da esquizofrenia".

Fator de confusão por indicação?

No editorial que acompanha o estudo o Dr. Donald C. Goff, médico do Nathan Kline Institute for Psychiatric Research da New York University School of Medicine em Nova York, observa que o estudo usou "métodos estatísticos sofisticados em grandes bancos de dados administrativos" para avaliar seus resultados.

"Os dados observacionais destes bancos de dados podem conter informações valiosas sobre a resposta ao tratamento, porém essa abordagem tem limitações importantes. A principal preocupação é o fator de confusão por indicação, que ocorre quando a indicação clínica para a escolha do medicamento a ser acrescentado ao tratamento também pode influenciar o resultado", escreveu Dr. Donald.

Neste estudo, "os pesquisadores foram confrontados ao problema de não saber se os pacientes recebendo determinado antipsicótico tinham riscos semelhantes de internação aos riscos dos pacientes que não receberam esse medicamento", acrescentou o editorialista.

"Contrariamente à maioria das diretrizes terapêuticas, Dr. Jari e colaboradores descobriram que a associação de antipsicóticos esteve relacionada com melhores resultados do que a monoterapia, e que o acréscimo de aripiprazol melhorou os resultados para os pacientes tratados com a clozapina", escreveu o Dr. Donald.

No entanto, estes resultados devem ser considerados preliminares até os ensaios clínicos randomizados controlados poderem confirmar o que foi observado, disse o editorialista.

"Se os médicos e os pacientes optarem pelo acréscimo de outro antipsicótico após ponderar os resultados dos (...) estudos observacionais e ensaios clínicos randomizados controlados, as limitações das evidências devem ser reconhecidas e a evolução do paciente deve ser monitorada com rigor", concluiu o Dr. Donald.

O estudo foi financiado pelo Sosiaali- Ja Terveysministeri finlandês, pelo fundo para o desenvolvimento do Niuvanniemi Sairaala e por financiamento de pesquisa do estado. O Dr. Jari Tiihonen informa ter participado de projetos de pesquisa financiados por doações de Janssen-Cilag e Eli Lilly; receber honorários provenientes de Finnish Medicines Agency e European Medicines Agency e das empresas Eli Lilly, Janssen-Cilag, Lundbeck e Otsuka; e receber doações da Stanley Foundation e da Sigrid Juséliuksen Säätiö. Os conflitos de interesses dos outros autores estão listados no artigo. O Dr. Donald Goff informa ter recebido financiamentos da empresa Avanir Pharmaceuticals.

JAMA Psychiatry. Publicado on-line em 20 de fevereiro de 2019. Abstract Editorial

Siga o Medscape em português no Facebook , no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....