Você deve compartilhar o próprio diagnóstico com os pacientes?

Marcia Frellick

Notificação

25 de março de 2019

A Dra. Heather Thompson Buum, médica da atenção primária em Minnesota, nos Estados Unidos, conta que a decisão de compartilhar sua luta contra um câncer de mama com alguns dos seus pacientes trouxe novos ares para a sua prática clínica e também para a vida pessoal.

"Tem sido extremamente recompensador conseguir usar a minha experiência para ajudar os outros", escreveu a Dra. Heather, que atua na University of Minnesota, em um ensaio publicado on-line em 11 de março no periódico Annals of Family Medicine.

Ela pode ter empatia com as pacientes que têm câncer de mama, e compartilhar que passou por alguns dos mesmos efeitos físicos e emocionais, contratempos e efeitos colaterais dos medicamentos.

Essa abertura pode trazer humanidade e vulnerabilidade à ideia que os pacientes têm sobre o papel do médico, disse Dra. Heather, acrescentando que também se beneficiou pessoalmente quando os pacientes se abriram com ela.

Quando compartilha a sua história, ela vê o comportamento dos pacientes mudar. "Eles ficam visivelmente aliviados, ali mesmo no consultório; o pânico desaparece do olhar, a testa franzida relaxa e a mandíbula apertada se solta em um pequeno sorriso", descreve.

Muita informação?

No entanto, ela reconhece que ainda tem dificuldades de saber para quais pacientes deve contar e o quanto deve compartilhar.

Ela disse ao Medscape que procura pistas, como se a pessoa parece ser reservada ou se pode querer manter uma distância profissional.

Dito isso, seus resultados vão além dos pacientes com câncer de mama. Por exemplo, ela pode compartilhar as próprias experiências e consegue empatizar quando outros pacientes se frustram com o sistema de saúde.

Ela reconhece que a literatura médica sobre o compartilhamento de informações pessoais é controversa.

"Eu tenho alguns colegas, com cerca de 70 ou 80 anos de idade, que dizem que quando estavam se formando, a instrução de não criar intimidade com os pacientes era explícita, porque isso poderia ofuscar a capacidade de julgamento ou atrapalhar a objetividade da avaliação clínica", disse ela.

Embora as coisas possam ter mudado nesse momento de exposição nas redes sociais e com as mudanças na formação do médico, é importante ter em mente as crenças geracionais sobre o que o paciente espera ouvir do médico, de acordo com a Dra. Heather.

Ela disse que não acredita que compartilhar a própria experiência afete a sua avaliação, e que não notou nenhum efeito negativo nos pacientes, embora afirme que está aberta a ficar atenta a isso.

"Eu espero que meus pacientes vejam isso como uma grande expressão de empatia", disse ela.

Quando foi diagnosticada, em 2016, a Dra. Heather escolheu para tratá-la uma equipe no próprio hospital onde trabalha, e isso contribuiu para seus pacientes saberem que estavam recebendo o tratamento que ela escolheu para si.

Ela contou que ter uma relação longínqua com o paciente pode influenciar a decisão de compartilhar a sua história – no caso, a Dra. Heather já tratou de alguns pacientes por mais de 15 anos.

Um potencial desdobramento negativo de contar a própria história seria se algum paciente enfrentando uma recidiva ou a progressão do tumor comparasse a própria doença com a do médico, que sobreviveu ao câncer, mas a Dra. Heather disse que essa não foi a experiência dela, acrescentando que as pacientes com câncer de mama e seus familiares sabem perfeitamente que o câncer se manifesta de forma diferente em cada paciente.

Parte da literatura sobre a decisão de compartilhar ou não a própria experiência sugere que o fato de o médico revelar os seus problemas de saúde para o paciente pode se tornar um fardo. O paciente pode se preocupar com o bem-estar do médico ou temer que aquela pessoa não possa atendê-lo durante todo o tratamento.

Desequilíbrio de poder

A Dra. Danielle Ofri, Ph.D., médica internista da New York University School of Medicine, em Nova York, que é escritora e editora-chefe da Bellevue Literary Review, disse ao Medscape que outro ponto que os médicos devem considerar ao decidir compartilhar essas informações com o paciente é o desequilíbrio de poder inerente à situação.

"Os pacientes não vão dizer: 'por favor, não me conte'."

Em alguns casos, o benefício de compartilhar é mais claro, disse a médica – por exemplo, se um médico foi submetido ao mesmo procedimento ou exame que o paciente e pode ajudar afastar possíveis temores.

A análise sobre o benefício e o dano fica um pouco nebulosa quando o que está sendo compartilhado é multifatorial, como cuidados ao fim de vida, um diagnóstico grave ou a perda de uma pessoa amada.

"É preciso ponderar com cuidado, quando o nosso reflexo é desabafar sobre tudo", disse ela.

Ela contou que, na sua experiência, percebeu ter cometido um erro quando mostrou fotos da própria família para um paciente, e notou que ao fazer isso estimulou um sentimento de solidão dele.

Algumas vezes não dá para esconder uma condição dos seus pacientes, disse a Dra. Danielle, como uma gestação. Quando ela estava grávida, contou, percebeu que as pacientes ficavam felizes e orgulhosos de dar conselhos sobre suas próprias gestações ou sobre a maternidade.

"Elas gostavam de ser as especialistas na sala, e isso proporcionava satisfação", disse ela. "E eu também ficava feliz de ganhar esses conselhos".

Ela disse que quando estava cuidando do pai idoso decidiu não falar a respeito, em parte por pensar que poderia ser empática sem precisar contar a própria história, e também porque falar poderia acabar fazendo com que os pacientes se sentissem obrigados a tomar alguma atitude, como dar um presente, o que em muitas culturas é uma resposta comum a essa revelação.

"A regra de ouro deveria ser, isso ajuda o meu paciente? Se sim, pode ser bom, mas se você acha que não, é melhor optar por não compartilhar", disse ela. "Depois de contar, não dá para voltar atrás".

A Dra. Heather e a Dra. Danielle informaram não ter relações financeiras relevantes.

Ann Fam Med. Publicado on-line em 11 de março de 2019. Texto completo

Siga o Medscape em português no Facebook , no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....