Um estudo recém-publicado pelo periódico PLoS Medicine reforçou a associação entre a infecção pelo vírus Zika e a microcefalia durante o surto da doença no Brasil entre 2015 e 2017. O levantamento envolveu pesquisadores de Brasil, Alemanha, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido, e analisou os registros de mais de cinco milhões de bebês nascidos neste período.
De acordo com os dados compilados, as mulheres infectadas pelo vírus Zika nos dois primeiros trimestres de gestação apresentaram uma probabilidade cerca de 17 vezes maior de dar à luz uma criança com microcefalia, quando comparadas à média nacional.
A pesquisa analisou números relacionados a nove possíveis causas de microcefalia, com o objetivo de demonstrar a maior influência do vírus Zika sobre o aumento dos casos observados no país.
"Antes desse estudo, nós tínhamos boas evidências provenientes de ensaios clínicos detalhados, apontando que a infecção pelo vírus Zika na gestação causava microcefalia. No entanto, a microcefalia tem muitas outras causas e boa parte dos estudos não havia sido capaz de excluir por completo todas as outras possibilidades", argumentou o Dr. Oliver Brady, do Departamento de Epidemiologia de Doenças Infecciosas da London School of Hygiene & Tropical Medicine, que liderou o estudo.
Doenças presentes em surtos anteriores no país, como a dengue ou a febre amarela, não tiveram a mesma associação com a microcefalia que os pesquisadores detectaram no caso do vírus Zika.
O estudo também não encontrou uma influência clara de outras doenças infecciosas como eventuais potencializadoras dos riscos associados ao Zika, reiterando que o vírus, por si só, é o causador mais provável do aumento do índice de microcefalia no Brasil durante o surto da doença.
"Em nosso estudo, testamos uma grande variedade de alternativas que foram sugeridas como causas para a microcefalia e não encontramos evidências do seu envolvimento. O grande número de casos de microcefalia no Nordeste brasileiro é melhor explicado por um grande surto de zika", explicou o Dr. Oliver.
Para chegar aos números finais, os pesquisadores partiram de dados de todos os nascidos vivos registrados entre 1º de janeiro de 2015 e 23 de maio de 2017 no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), que também armazena informações como: sexo do bebê, ocorrência de doenças congênitas, data da gestação, idade, raça e município de residência da gestante.
Também foram utilizadas informações sobre microcefalia reportadas ao Registro de Eventos em Saúde Pública (RESP) e os casos semanais de zika, dengue e chikungunya informados pelos municípios ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Ao todo, os pesquisadores tiveram acesso a informações de mais de 5,3 milhões de nascimentos, com registros sobre a exposição (ou não) ao vírus Zika para uma ou mais semanas de gestação.
"O grande desafio que encontramos foi o fato de que uma vigilância padronizada e de rotina sobre o vírus Zika só começou no final de 2015, quando muitas mulheres afetadas já tinham dado à luz. Isso tornou difícil estimar a exposição no início da epidemia", apontou Dr. Oliver.
O estudo estima entre 9 e 22 meses o período em que a zika circulou de forma não detectada e descontrolada no Nordeste. A dificuldade, no entanto, era esperada devido ao caráter emergencial do surto – e, segundo o Dr. Oliver, não impediu que se chegasse a um cálculo mais preciso sobre o peso do vírus Zika no aumento dos casos de microcefalia.
"Uma vantagem desses dados é a sua escala e o fato de que, analisando casos posteriores durante o surto, quando os sistemas de vigilância já estavam bem estabelecidos, ainda assim fomos capazes de mensurar com precisão a associação entre o vírus Zika e a microcefalia", destacou.
Do total de nascimentos no período analisado, ao menos 2.791 registraram microcefalia com danos cerebrais estruturais. Em um resultado que reforça os achados encontrados em estudos de menor escala realizados anteriormente, o risco ampliado foi verificado em mulheres infectadas com o vírus Zika nos dois primeiros trimestres de gestação – infecções ocorridas no terceiro trimestre ou nas semanas anteriores à gestação não demonstraram uma associação relevante com o aumento nos casos de microcefalia.
Os pesquisadores também encontraram um risco levemente incrementado de outras anomalias congênitas a partir da exposição ao vírus Zika, incluindo polidactilia, hipospádia, deformidades nos pés, hidrocefalia, entre outras doenças. Ainda assim, destacou o artigo, a possibilidade de ocorrência de microcefalia é muito maior do que a das demais anomalias.
No período analisado, o Nordeste foi – por grande diferença – a região com maior incidência de infecção pelo vírus Zika no Brasil: 92% dos 8,5 milhões de casos confirmados no país estiveram concentrados nos nove estados nordestinos. Fatores climáticos que historicamente favorecem a transmissibilidade de doenças como a dengue durante o ano inteiro costumam ser apontados entre as razões que tornaram a área mais vulnerável, bem como a precariedade nas condições de identificação precoce de um surto.
Para o Dr. Oliver, porém, convém realizar novos estudos com o objetivo de delimitar com precisão as razões que favoreceram o surto.
"Idealmente, o próximo passo seria conduzir uma série de pesquisas em cidades ao redor do Brasil, a fim de testar a exposição prévia a zika na população geral. Essas pesquisas nos diriam a proporção da população afetada pela epidemia de 2015 a 2017 e os fatores de risco para infecção", apontou o especialista.
"Esses fatores de risco nos ajudariam a entender por que algumas áreas foram afetadas de forma tão negativa e qual risco elas correm de viver futuros surtos de zika", concluiu.
Siga o Medscape em português no Facebook , no Twitter e no YouTube
© 2019 WebMD, LLC
Citar este artigo: Novo estudo reforça associação entre o surto de zika e o aumento dos casos de microcefalia no Brasil - Medscape - 19 de março de 2019.
Comente