Pesquisa mostra aumento da incidência de câncer de pâncreas em vários países

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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14 de março de 2019

Ao analisar tendências temporais de 1973 a 2015 em 41 países, incluindo o Brasil, pesquisadores da SunYat-sen University e da Shantou University Medical College, ambas na China, observaram aumento na incidência de câncer de pâncreas em homens e mulheres na maioria dos países pesquisados.

Apesar do declínio da prevalência do tabagismo, os autores apontaram outros fatores que podem estar por trás desse crescimento, entre eles, o aumento da prevalência da obesidade e do diabetes, o consumo crescente de carne vermelha e processada, a diminuição da ingesta de frutas e vegetais e o aumento do sedentarismo. A oncologista Dra. Anelisa Coutinho, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), falou ao Medscape sobre a pesquisa publicada em fevereiro no periódico Pancreas.[1]

Os autores usaram o Cancer Incidence in Five Continents (CI5) [2] como fonte, bem como bancos de dados on-line mantidos pelos governos dos países pesquisados. Dados do GLOBOCAN [3] também foram utilizados.

Os resultados mostram que, em 2012, a maior taxa ajustada por idade de câncer de pâncreas foi observada na Europa Central e Oriental para homens (8,9/100.000 habitantes), e na América do Norte para mulheres (6,4/100.000). A menor taxa foi registrada na Ásia Central do Sul para homens (1,3/100.000) e na África Média para mulheres (0,8/100.000).

A maioria das regiões apresentou disparidades entre os gêneros, com taxas maiores em homens do que em mulheres. Nos últimos dez anos foram verificadas tendências crescentes em América do Norte, Europa Ocidental e Oceania. O maior aumento na incidência de câncer pancreático se deu na França, com variação média percentual anual de 4,4% para homens e 5,4% para mulheres.

A análise de coortes de nascimento revelou ainda que, entre os homens, houve aumento no risco em Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, Costa Rica, Dinamarca, Estônia, França, Israel, Letônia, Noruega, Filipinas, Coreia do Sul, Cingapura, Espanha, Suécia, Holanda e Estados Unidos e em norte-americanos brancos.

Já, entre as mulheres, o aumento foi verificado em Austrália, Áustria, Brasil, Bulgária, Canadá, China, República Checa, Dinamarca, Finlândia, França, Israel, Itália, Japão, Lituânia, Nova Zelândia, Noruega, Filipinas, Coreia do Sul, Cingapura, Espanha, Suécia, Suíça, Holanda, Reino Unido, Estados Unidos e em norte-americanas brancas e negras.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Ministério da Saúde, o câncer de pâncreas é o 13º tipo de câncer com maior incidência no Brasil. [4]

A Dra. Anelisa destacou que o diagnóstico de câncer de pâncreas é dificultado por questões anatômicas. "O pâncreas fica dentro do abdome, em uma posição retroperitoneal, portanto, é um órgão de difícil avaliação. O ultrassom consegue avalia-lo grosseiramente e as tomografias também não são exames indicados para serem feitos rotineiramente como rastreio para esse tipo de tumor pelo custo-benefício. Os estudos não mostram que fazer o rastreamento periódico populacional se converte em benefício em termos de aumento de sobrevida", disse a médica, destacando que, atualmente, não há, portanto, políticas de deteção de câncer de pâncreas voltadas para a população geral, como ocorre com os tumores de mama, próstata e cólon.

Populações de alto risco, no entanto, têm uma atenção diferenciada. "Se estamos diante de um núcleo familiar com múltiplos casos de câncer de pâncreas em parentes de primeiro grau, ele vai ser tratado de forma diferente, vai se avaliar e triar alterações genéticas que predispõem à ocorrência do câncer e, eventualmente, pode se propor exames específicos, como a tomografia", afirmou a especialista.

Na prática clínica, o que se observa é que a maioria dos casos de câncer de pâncreas é diagnosticada em uma fase mais avançada. Nos EUA, esse tumor é a quarta causa de morte por câncer, com perspectiva de passar a ser o segundo tipo de câncer mais frequente em 2030. [5] Para a Dra. Anelisa, isso está associado tanto ao aumento da incidência dessa neoplasia como ao maior controle, que vem sendo alcançado nos outros tipos de câncer.

A maior incidência que, segundo a médica, vem, de fato, sendo percebida, inclusive no Brasil, parece estar relacionada principalmente aos possíveis fatores de risco, tal como aborda o artigo chinês.

Quando se fala em câncer de pâncreas não há um grande vilão, porém, vários fatores vêm sendo relacionados à possibilidade maior de ocorrência desse tipo de tumor, por exemplo, tabagismo, consumo exagerado de álcool, obesidade, sedentarismo, diabetes, consumo de carne vermelha, e redução do consumo de frutas e vegetais. A Dra. Anelisa explicou que, na pesquisa publicada recentemente, a incidência crescente observada nos últimos anos na França é correlacionada, por exemplo, com o aumento das taxas de obesidade na região, e com o aumento da incidência de tabagismo, sendo esse último uma tendência contrária ao que vem sendo observado mundialmente.

"Óbvio que também podem haver fatores genéticos por trás disso, que ainda estão por ser desvendados", disse ela, afirmando que, "hoje em dia, já existem algumas alterações genéticas que são mais encontradas nos tumores de pâncreas".

A médica destacou a importância de diminuir urgentemente o consumo de carne vermelha, controlar fatores de risco como obesidade e diabetes, e aumentar a prática de atividade física. Ela lembrou ainda que, se por um lado há uma tendência crescente na incidência desse câncer, por outro, o tratamento avançou muito nos últimos anos.

"Passamos a contar com esquemas de medicação mais eficientes. Esperamos que a ciência continue a avançar", concluiu.

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