Poucos adolescentes conseguem seguir as recomendações de tempo de uso de tela, horas de sono e de exercícios

Jennifer Clopton

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13 de março de 2019

Kathy Ferony tem quatro filhos entre 12 e 19 anos de idade. Durante as férias, o fato de todos serem ávidos jogadores de beisebol faz com que ela fique satisfeita com a quantidade de exercício praticado por eles. E, apesar de serem notívagos, ela diz que eles parecem felizes e que tiram notas boas, tendo cerca de 6,5 a 8 horas de sono por noite. Mas ela afirma que o verdadeiro desafio em sua família é o tempo de tela.

"O tempo que eles gastam nos aparelhos eletrônicos me deixa louca", disse Kathy. "Para conseguir que sejam saudáveis, temos de brigar constantemente para controlar o tempo de tela".

Pat Jesten disse que se sente confortável com o tempo de tela do filho adolescente Chris. Ele é um atleta de natação, então ela sabe que ele pratica uma quantidade suficiente de exercícios. O que a preocupa é o sono do rapaz, que, segundo ela, é extremamente comprometido pelas tarefas escolares, que ela acompanha pelo Apple Watch dele.

"Eu me pergunto se ele deveria desistir de algumas aulas complementares, assim ele teria menos deveres de casa e poderia dormir mais. Ele acha que precisa delas para entrar na faculdade. Mas eu sei que sono é saúde, e acho que com empenho e força de vontade o sucesso vem", disse Pat.

Quando se trata da quantidade adequada de tempo de tela, exercício e sono, uma pesquisa publicada este mês no periódico JAMA Pediatrics revela que apenas 5% dos adolescentes estão cumprindo o recomendado pelas diretrizes, e que as meninas são menos propensas a fazê-lo do que os meninos. Apenas 3% das adolescentes atingem o tempo recomendado, em comparação com 7% dos meninos. A pesquisa foi feita pelo Dr. Gregory Knell, Ph.D., pesquisador de pós-doutorado no Health Science Center da University of Texas, na Houston School of Public Health, em Dallas.

"Já esperávamos que o percentual fosse baixo, mas eu não imaginava que seria de apenas 5%", disse o pesquisador.

As diretrizes preconizam que as crianças de 6 a 12 anos devem dormir de 9 a 12 horas por noite, e as de 14 a 18 anos de 8 a 10 horas por noite. Todas as crianças entre 6 e 18 anos devem ter pelo menos uma hora de exercício aeróbico moderado a vigoroso por dia e devem limitar o tempo de tela e a exposição a todos os meios digitais com tela a menos de duas horas em um período de 24 horas.

O Dr. Gregory afirma que a sua é a primeira pesquisa a analisar essas três atividades (sono, exercício e tempo de tela) ao mesmo tempo, em uma amostra nacional de adolescentes dos Estados Unidos.

"Acreditamos que isso é importante porque agora temos evidências de que atingir as recomendações para todos as três atividades traz maiores benefícios para a saúde do que apenas uma delas isoladamente", explicou. "O ciclo de atividade em 24 horas é mais importante para a saúde do que uma destas atividades independente da outra."

A ciência do sono, o tempo de tela e o exercício

A pesquisa mostrou claramente que o bom sono, o exercício adequado e o tempo de tela limitado são benéficos para adolescentes e crianças. As crianças que são fisicamente ativas têm menores taxas de obesidade, melhor saúde óssea e cardiovascular e melhor forma física em geral. Há também efeitos positivos sobre a saúde do cérebro, habilidades acadêmicas e de raciocínio. A falta de exercício também tem sido associada à depressão em adolescentes, especialmente meninas.

As crianças que dormem bem são mais atentas na escola, têm taxas mais baixas de ansiedade e depressão e se saem melhor na vida escolar. Há muitas pesquisas mostrando que o uso frequente de smartphones e tablets piora os problemas de sono. Uma variedade de coisas, incluindo o que os adolescentes estão vendo, atraso na hora de dormir, dormir tarde, excitação mental, exposição à luz da tela e até mesmo a exposição a campos eletromagnéticos são possíveis fatores a se considerar.

"Em nosso estudo, descobrimos que fazer mais chamadas telefônicas, usar mais tablet e a dependência do celular diminuem a qualidade do sono e aumentam o tempo de despertar após o início do sono, indicando um sono mais pobre e fragmentado nos adolescentes que mais usam os celulares e tablets", explicou Alba Cabré-Riera do Barcelona Institute for Global Health, a primeira autora de um estudo publicado no final de 2018 sobre o tema.

A pesquisa também mostra que a falta de sono ou mudanças em quanto tempo os adolescentes dormem afetam a coordenação deles, assim como a capacidade de prestar atenção na aula e o quão bem eles se saem na escola. Também mostra uma conexão com a depressão e outros desfechos negativos em saúde.

Kati Duncan, uma psicóloga clínica em Chesapeake, Virginia (EUA), disse que o sono ruim ou inadequado podem mimetizar os sintomas do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Ela avalia problemas de aprendizagem em crianças e adolescentes e diz que a falta de sono – alguns dormem apenas três ou quatro horas – é o fator desencadeante para até 70% dos pacientes que a procuram.

"Eu posso dizer que avalio muitas crianças com suspeita de TDAH, que na verdade só precisam dormir mais e diminuir o tempo de tela. A privação do sono pode parecer muito com o TDAH em termos de dificuldade de concentração e de ficar quieto. Os pais precisam entender que a quantidade de sono pode adoecer os adolescentes. Quando estão cansados também querem se desligar. E fazem isso se colocando na frente de um dispositivo eletrônico, e isso aumenta essa adição".

O Dr. Gregory disse que sua pesquisa mostra que mais pessoas estão se dando conta de que todos esses comportamentos estão conectados.

"Se você é mais ativo fisicamente durante o dia, a nossa hipótese é que isso resultará num sono de melhor qualidade à noite. Além disso, se você dormir melhor à noite, nós supomos que você terá mais energia para ser ainda mais ativo no dia seguinte", explicou. "Nós também sabemos que o tempo de tela tem um efeito negativo na qualidade do sono, então há coisas que podem ser feitas".

"Espero que isto sirva de alerta para os pais", disse Dr. Gregory.

Pesquisa e o mundo real

Algumas pessoas acreditam que não precisam ser alertadas. "Tenho certeza de que meus filhos não estão dentro dessas diretrizes, mas estão indo muito bem", disse Jenny Christie, mãe de três, no Colorado.

Outros pais argumentam que os compromissos dos adolescentes nos dias de hoje não lhes permitiriam seguir as diretrizes – mesmo que eles quisessem.

"Queremos que nossos filhos se envolvam em atividades e sejam bem-sucedidos; portanto, entre atividades e estudos, é muito difícil para eles conseguirem dormir o suficiente", disse Frances Phan, uma mãe que mora na Virgínia com seus três filhos que tocam música e tem uma banda.

Muitos pais dizem que o funcionamento da vida adolescente não é congruente com as recomendações feitas pelas pesquisas.

"Dez horas de sono para um estudante do ensino médio é impossível", disse Kim Guest, mãe de dois rapazes adolescentes em Raleigh, Carolina do Norte. "Meu filho entra na escola às 7 h 20, para isso, ele sai de casa às 6 h 50. Ele precisaria dormir às 20 horas para cumprir as diretrizes. Mas ele sequer está em casa a essa hora quando os ensaios das peças de teatro vão até 21 h ou 22 h, e depois que ele chega ainda precisa fazer os deveres da escola".

Terri Tolliver, uma mãe em Washington, DC, diz que 6 a 7,5 horas de sono por noite é mais o comum para seu filho de 12 anos. "Determinamos uma hora de dormir, mas seja qual for o motivo – jantar atrasado, terminar o dever de casa, tarefas depois do trabalho – ele não dorme antes 21:30 com frequência. E é claro que quando ele consegue ir para cama na hora combinada, mesmo ao som de jazz suave e com um difusor de aromas, ele nem sempre dorme de pronto. Todas as manhãs eu tenho de levar um smoothie ou uma xícara de chá para que ele acorde. Ele nunca se levanta com o despertador".

O tempo de tela é outro desafio estressante para muitos pais, e muitos dizem que as escolas de seus filhos estão aumentando o problema.

"As escolas fazem com que eles usem iPads, computadores e Chromebooks mais do que eu gostaria", disse Kathy, a mãe de quatro filhos.

"A maioria dos deveres de casa envolve aparelhos eletrônicos, ou seja, mais um empecilho, em termos de cumprir essas diretrizes", concordou Kim.

"É por isso que eu odeio iPads na escola", ecoou Jenny Erard, mãe de três filhos em Oregon. "Eles passam sete horas por dia na escola e, pelo menos, a metade disso, se não mais, eles estão usando um iPad. Aí, o dever de casa está no iPad. E todos os livros da biblioteca que eles querem ler estão no iPad. É tão difícil".

Negociar o tempo de tela não relacionado à escola com os adolescentes é muitas vezes difícil.

"Meu filho de 12 anos é muito ativo em esportes e faz muito exercício longe de casa, mas se deixássemos, ele ficaria nos aparelhos eletrônicos o dia inteiro em casa", disse Marci Jerome, que tem dois filhos.

"Nós chamamos o Xbox de 'o diabo à espreita' porque é o motivo de brigas constantes no fim de semana: de quem é a vez, quem jogou por muito tempo ou quem está gritando muito alto enquanto joga", disse Kathy. "Acho que isso afeta a criatividade deles. No verão passado, eles disseram que ninguém estava na piscina porque todos estavam em casa jogando 'Fortnite'". Eles simplesmente não saem mais para brincar. Isso provoca muitas dúvidas e representa muitos desafios para nós, enquanto pais".

Terri concordou: "Esta vaca está solta no pasto, e eu não sei como colocá-la de volta no celeiro. 'Fortnite' é meu segundo filho. Eu sinto que tenho que cuidar desse novo bebê, alimentá-lo, repreendê-lo, gastar tempo com ele... affe", diz ela. "Eu dei essa oportunidade para ele porque eu disse que se ele fizesse todos os deveres durante a semana, os fins de semana seriam dele. Mas pense em alguém obsessivo. Ainda por cima tem a pressão dos amigos, que têm autorização para jogar livremente. Eu já tirei todos os dispositivos eletrônicos como forma de disciplina e, eu juro, ele teve sinais de abstinência. Ainda assim, os benefícios para mim foram mais tempo juntos, conversas e novas atividades".

Criando hábitos mais saudáveis

O Dr. Gregory diz que quando se trata de promover mudanças, é melhor começar pequeno. Ele diz que é importante saber que os pesquisadores acreditam que melhorar um comportamento pode ajudar a melhorar todos eles.

"Não desanime com esses resultados ou se amedronte e pense: 'para que tentar se isso não é possível'. Pequenas mudanças que você pode fazer na sua vida e na vida do seu filho podem ter um grande impacto", disse. "Se você faz pequenas mudanças com o tempo de tela antes de dormir, e incentiva as crianças a serem fisicamente ativas durante o dia, nós acreditamos que isso levará a um sono melhor, o que levará a mais atividade física no dia seguinte".

Então vá para uma caminhada com a família, estacione mais longe do seu destino, use as escadas, vá para o parque depois da escola ou em um passeio de bicicleta depois do jantar e imponha uma hora de dormir consistentemente. A American Academy of Pediatrics também recomenda que você tenha horários livres de mídia – como durante as refeições e ao dirigir – e áreas livres de mídia, como os quartos.

"O tempo de tela é definitivamente o mais difícil para nós", disse Liz Gurgel, de Michigan que tem um filho de 14 anos. "O que eu acho difícil é quando digo ao meu filho, 'largue o telefone', e ele diz: 'Mas só estou assistindo vídeos no YouTube, e por que isso é diferente de assistir TV?' Eu acho que eu deveria dar o exemplo, mas não quero deixar de assistir minha TV".

O Dr. Gregory disse que este é um ponto importante, e que ele sabe que não é fácil para os pais. Você tem que ver como os seus próprios hábitos afetam os seus filhos.

"Olhar para o seu próprio celular o tempo todo ou mantê-lo na sua cama à noite envia a mensagem errada para as crianças", disse o Dr. Gregory. "Sabemos que servir de exemplo para bons comportamentos tem um forte impacto no comportamento das crianças, então pense nisso".

Kati disse que encaminha muitos pacientes para orientações sobre como dormir bem e também para os pais. Ela recomenda ler livros e se informar sobre como fazer pequenas mudanças e fazer cumprir as regras.

Pesquisas mostram que o envolvimento dos pais faz a diferença. Um estudo publicado neste mês no periódico Sleep Health, por exemplo, mostrou que quando os pais monitoram seus filhos adolescentes quando estão acordados, isso afeta o modo como eles dormem. A percepção de que estão sendo monitorados, também pode afetar o tempo de sono.

Audrey Jung, psicoterapeuta no Arizona e mãe de dois adolescentes, disse que, no final das contas, ela enfatiza que sempre há oportunidades de melhorias, mas não há soluções que sirvam para todos.

"Você tem que fazer o que funciona para a sua família. Você pode procurar por esses estudos e por sinais de problemas, assim pode agir mais rapidamente. Mas também tem que ver seu filho de uma maneira equilibrada em termos de seu ambiente. Tudo está funcionando bem?"

Audrey disse que isso significa verificar o tempo de sono e de exercício do seu filho adolescente durante uma semana ou um mês – não apenas o que acontece em um determinado dia.

"Se os pais não são ativos, esta é uma conversa desconfortável para ter", disse.

Audrey disse que horários de dormir consistentes e comuns para todos, espaços para guardar dispositivos eletrônicos para toda a família e regras de tempo de tela para pais e filhos são úteis. Ela disse que reuniões familiares semanais e atividades em conjunto também podem ajudar a manter comportamentos saudáveis.

"Nós usamos um calendário de dois meses na cozinha. Ele ensina meus filhos a encontrar pontos problemáticos com o sono ao se sentarem para as refeições, por exemplo, e nos ajuda como pais, a planejar com antecedência", disse Audrey.

Ela disse que o aconselhamento de casais pode ajudar os pais a concordar com as regras que querem impor, e o aconselhamento para adolescentes pode ajudá-los a controlar o seu comportamento e a buscar hábitos mais saudáveis. Em última instância é importante lembrar que não se trata apenas de impor regras. Trata-se de ensinar aos adolescentes comportamentos importantes para toda a vida.

"Eu sempre encorajei e uso em casa, uma abordagem comportamental de conversar sobre as consequências e entender os impactos sobre você e sobre a família das decisões que você toma sobre o sono e outros comportamentos", disse Audrey.

"Eu sou a favor de ensinar moderação e não castigar por pequenas infrações. Em última instância, você só quer criar o seu filho para ser responsável".

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Fontes:

Alba Cabré-Riera, Barcelona Institute for Global Health, Barcelona, Spain.
Jenny Christie, Indian Hills, CO.
Kati Duncan, clinical psychologist, Chesapeake, VA.
Jenny Erard, Bend, OR.
Kathy Ferony, Bowie, MD.
Kim Guest, Raleigh, NC.
Liz Gurgel, Canton, MI.
Pat Jesten, Springfield, VA.
Gregory Knell, PhD, University of Texas Health Science Center, Dallas.
Marci Jerome, Fairfax, VA.
Frances Phan, Springfield, VA.
Audrey Jung, psychotherapist, Phoenix, AZ.
Terri Tolliver, Washington, D.C.
American Academy of Pediatrics: "American Academy of Pediatrics Announces New Recommendations for Children's Media Use."
JAMA Pediatrics: "Prevalence and Likelihood of Meeting Sleep, Physical Activity, and Screen-Time Guidelines Among US Youth."
Preventive Medicine Reports: "The influence of depression status on weekly exercise in children ages 6 to 17 years."
Exercise and Sports Sciences Reviews: "Raising an Active and Healthy Generation: A ComprehensivePublic HealthInitiative."
Environmental Research: "Telecommunication devices use, screen time and sleep in adolescents."
Sleep Health: "Young adolescent sleep is associated with parental monitoring."
SSM Population Health Journal: "Family contexts and sleep during adolescence."
Journal of Sleep Research: "The impact of sleep on complex gross-motor adaptation in adolescents."
Revista Medica de Chile: "[Quality of sleep and academic performance in high school students]."

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