Burnout médico: diferenças entre os países

Kerry Dooley Young

Notificação

1 de março de 2019

Os encargos administrativos e os salários inadequados emergiram como principais fatores de contribuição para o burnout em uma enquete do Medscape feita com médicos de seis países.

Os resultados da pesquisa ratificaram os de outras pesquisas, que identificaram anteriormente o burnout e a depressão como os principais problemas da prática médica. Nesta enquete, o Medscape analisou a situação dos médicos no Reino Unido, nos Estados Unidos, na França, na Espanha, em Portugal e na Alemanha.

Mais de um terço e até a metade (36% a 51%) dos entrevistados pelo Medscape informaram ter burnout, depressão, ou ambos. E, dentre os médicos que indicaram sofrer de burnout, de 19% a 25% em cinco dos países pesquisados disseram que sua angústia era grave o suficiente para que considerassem abandonar a medicina. Na Espanha, esse número foi de 9%.

Queixas comuns

Apesar da grande variação do modo de cada país financiar e administrar a saúde, os médicos de Reino Unido, EUA, França, Espanha, Portugal e Alemanha compartilharam algumas queixas.

Em cinco dos seis países pesquisados, os médicos tiveram mais probabilidade de dizer que o excesso de burocracia contribuía para o burnout. Isso foi citado por 56% dos entrevistados nos Estados Unidos e em Portugal, 52% dos médicos da Alemanha, 49% da França e 47% do Reino Unido. Enquanto os médicos espanhóis revelaram que a remuneração inadequada foi o fator que contribuía com mais frequência para esses distúrbios, 47% deles indicaram o excesso da burocracia como fator, tornando-se essa a segunda queixa mais comum dos entrevistados na Espanha.

Os médicos norte-americanos foram os mais propensos neste grupo a também listar o aumento da informatização do seu trabalho pelos prontuários eletrônicos como fator de burnout.

Um quarto (25%) dos entrevistados nos Estados Unidos indicou isso como um fator, em comparação com 18% dos alemães, 15% dos espanhóis, 13% dos portugueses, 12% dos franceses e 9% dos britânicos.

Os prontuários eletrônicos transformaram uma tecnologia antes considerada uma potencial economia de tempo para os médicos em importante fonte de estresse para quem trabalha nos Estados Unidos.

Os prontuários eletrônicos facilitaram que os convênios e os planos de saúde, bem como terceiros, imponham exigências para verificação de desempenho, sem que ninguém tenha uma visão panorâmica que identifique o acúmulo de trabalho gerado, disse em entrevista ao Medscape a Dra. Christine Sinsky, da American Medical Association (AMA).

"A concepção dos prontuários eletrônicos não levou em conta o somatório de todas essas boas ideias", disse a Dra. Christine, que atua como vice-presidente de satisfação pessoal da AMA.

"Parte disso foi facilitado pela tecnologia. Isso facilitou que os profissionais que trabalham com métricas exijam mais inclusão de métricas nos prontuários eletrônicos".

Outra diferença nacional foi o tempo de feriados e/ou férias remuneradas por ano. A pesquisa do Medscape descobriu que os médicos que trabalham nos Estados Unidos referiram ter muito menos tempo livre do que seus colegas europeus. Um terço (33%) dos entrevistados nos EUA informou ter duas semanas ou menos de férias por ano. Em contrapartida, 16% dos participantes do Reino Unido informaram tirar esse mesmo período de folga, enquanto apenas 7% a 9% dos colegas nos outros quatro países o fizeram.

A Dra. Christine, da AMA, disse que as estimativas do tempo de férias podem ser enganosas como representação do tempo de lazer dos médicos. Muitos médicos ficam horas longe da família e do lazer para colocar em dia as demandas administrativas durante as suas férias.

"Eles continuam recebendo trabalho por e-mail mesmo durante as férias. Eles não querem sobrecarregar seus colegas e não querem deixar a demanda acumular, voltando das férias e encontrando o que seria uma caixa de entrada claramente inadministrável", disse a Dra. Christine.

A pesquisa foi feita com os quase 20.000 médicos que aceitaram o convite para responder a uma pesquisa on-line de 10 minutos de duração. Os Estados Unidos tiveram a maioria esmagadora dos participantes, com 15.543 entrevistados. A seguir, veio a Espanha (1.053), a França (968), o Reino Unido (956), Portugal (800) e a Alemanha (615).

Crise econômica

Os médicos na Espanha e em Portugal tiveram muito mais probabilidade de indicar a remuneração inadequada como um fator de burnout do que seus colegas de outros países.

Mais da metade (56%) dos entrevistados na Espanha que informaram sofrer de burnout citaram a remuneração inadequada como fator causal, assim como 43% dos médicos em Portugal. Comparativamente, essa mesma reclamação foi feita por 27% da coorte do Reino Unido, 26% da coorte alemã, 23% da coorte dos EUA e 18% da coorte da França.

A insatisfação com a remuneração na Espanha e em Portugal provavelmente reflete as políticas fiscais ditadas por essas nações após a crise econômica de 2007 a 2011, disseram os médicos ao Medscape.

"O aumento da quantidade de atendimentos e a diminuição dos salários foram dois elementos fundamentais na promoção da exaustão emocional e da despersonalização, que são os elementos estruturais do burnout", disse aoMedscapepor e-mail o Dr. Oriol Yuguero, Ph.D., médico da Universitat de Lleida na Espanha.

O Dr. Gustavo Queirós, pediatra em Lisboa, disse que os cortes orçamentários resultantes agravaram a escassez crônica de funcionários nas unidades básicas de saúde em Portugal, levando muitos pacientes a procurar o pronto-socorro desnecessariamente. Muitos médicos passaram a trabalhar mais horas e o pagamento das horas extras foi suspenso. Portugal exigiu "um sacrifício brutal dos profissionais para manter o sistema funcionando", disse o médico ao Medscapepor e-mail.

"Com alguma recuperação econômica, esperávamos que a situação melhorasse", disse Dr. Gustavo. "Mas não é o caso".

Buscando ajuda

A pesquisa do Medscape constatou que os médicos na Espanha foram os com menor probabilidade de ter procurado atendimento profissional para tratar a depressão e o burnout.

Dos entrevistados da Espanha que disseram ter esses quadros, 64% afirmaram que não tinham planos de procurar auxílio profissional.

"Apesar do burnout, a maioria dos profissionais mantém altos os níveis de qualidade do atendimento, como revelaram os resultados de nossas pesquisas", disse o Dr. Oriol, referindo-se a um artigo que publicou junto com colaboradores em 2017 no periódico BMC Medical Ethics.

Nesse artigo, Dr. Oriol et al. descreveram que o burnout não influenciou significativamente a qualidade do atendimento em 22 centros de atendimento primário estudados na Espanha.

O Dr. Oriol disse ao Medscapeque a Espanha não tem programas estruturados suficientes para resolver os problemas de depressão e burnout entre os profissionais de saúde. Mas que houve algum progresso, observou.

"Na Catalunha, as sociedades médicas criaram ferramentas para ajudar os profissionais e eles são muito bem recebidos", disse Dr. Oriol.

Na pesquisa do Medscape, os médicos da França mostraram-se mais dispostos a procurar ajuda. Dentre os que referiram burnout ou depressão, 42% disseram que já tinham recebido ajuda profissional no passado, estavam recebendo ajuda atualmente ou pretendiam buscar ajuda.

Ainda assim, quase metade (47%) afirmou não ter procurado ajuda e não planejar fazê-lo, e outros 11% se recusaram a responder essa pergunta na pesquisa.

O tema burnout continua sendo "tabu" entre os médicos, disse ao Medscapepor e-mail o Dr. Ziad Kansoun, psiquiatra. Dr. Ziad, que publicou pesquisas este ano sobre o burnout entre os médicos franceses, disse que os médicos acham difícil falar sobre os próprios problemas psicológicos.

Alguns hospitais franceses estão usando o treinamento de atenção plena (mindfulness) e outras técnicas para prevenir o estresse no trabalho, disse Dr. Ziad. Outros hospitais disponibilizam uma linha telefônica para permitir que os médicos conversem sobre o assunto.

Depois dos franceses, os médicos do Reino Unido pareceram ser os segundos com mais probabilidade de procurar ajuda (56%).

Mais de um terço (34%) dos que informaram sentir burnout ou depressão disseram ter recebido ajuda profissional no passado, estar recebendo ajuda atualmente ou pretender buscar ajuda.

O Reino Unido se destacou no uso de assistentes sociais ou conselheiros para auxiliar os médicos a lidar com o burnout e a depressão. Mais da metade (56%) dos entrevistados que referiram ter burnout ou estar deprimidos afirmaram ter procurado esse tipo de orientação.

Um dos serviços de apoio ao bem-estar da British Medical Association's (BMA) aborda essas questões. Oferece um serviço confidencial de aconselhamento que está aberto 24 horas por dia, sete dias por semana, por telefone ou chamada por vídeo. O serviço é formado por membros da British Association for Counselling and Psychotherapy, que se pautam em rigorosos códigos de sigilo. São feitas cerca de 3.000 chamadas por ano para este serviço, disse em entrevista ao Medscape Tom Rapanakis, gerente de serviços de suporte de saúde da BMA.

Este serviço oferece uma forma imediata de contato, mesmo quando o médico trabalha em locais longínquos, disse Tom.

"Um médico que pode estar isolado e no final de um dia difícil, ainda assim pode falar com alguém", disse Tom.

Leia a análise especial da pesquisa para os médicos franceses (em francês) aqui.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....