COMENTÁRIO

É mesmo verdade que chá faz bem para a saúde?

Steven Rourke

Notificação

5 de fevereiro de 2019

Introdução

O chá, que provavelmente foi preparado pela primeira vez como bebida na China por volta de 2700 a.C., [1] é uma das bebidas mais antigas e a segunda mais consumida no mundo (depois da água). [1] A Camellia sinensis é um arbusto perene com folhas verdes brilhantes, flores fortemente perfumadas e frutos com sementes marrom-esverdeadas, usadas para produzir chá. [2] Existem mais de 1.500 cultivares, derivados principalmente de duas variedades: C. sinensis var. assamica, uma planta da Índia, de caule único com folhas grandes, macias e de vida curta, [2] e C. sinensis var. sinensis, um arbusto chinês com múltiplos caules com folhas menores, e mais resistentes a baixas temperaturas. [2] Costuma crescer em climas quentes e úmidos, preferencialmente em solos ácidos, em colinas inclinadas em altitudes de até 2.000 metros. [1]

Depois de se tornar popular na Europa, o chá foi amplamente difundido pelas forças do colonialismo e grandes sistemas de monocultura latifundiária foram estabelecidos na Índia, no Sri Lanka, na África e na Indonésia. [2] Hoje, os maiores produtores de chá são a China (1,9 milhão de toneladas em 2013, ou 38% do total mundial), a Índia (1,2 milhões de toneladas), o Quênia (436.000 toneladas) e o Sri Lanka (343.100 toneladas). [1] Em todo o mundo, muitas culturas celebram o chá por suas contribuições para a coesão social, pelo seu sabor e por seus potenciais benefícios à saúde. E nós bebemos muito chá – 4,8 milhões de toneladas em todo o mundo em 2013; a China (1,6 milhão de toneladas), a Índia (1 milhão de toneladas) e a Turquia (228 mil toneladas) são líderes de consumo, [1] enquanto os Estados Unidos consumiram 127 mil toneladas. [1] Em 2017, a indústria do chá foi avaliada em cerca de 12,5 bilhões de dólares nos Estados Unidos. [3]

Qual é o seu chá preferido?

Seis tipos de chá vêm da planta C. sinensis: branco, verde, amarelo, preto, oolong e vermelho (pu'er).

Tabela. Tipos de chá [4,5,6,7]

Subtipo

Características

Exemplos

 

Branco

Os botões das folhas são colhidos antes de sua abertura, e são secos em baixas temperaturas. É o menos processado de todos os chás. Tem os sabores mais delicados, e é o tipo com a maior quantidade de antioxidantes.

  • Yin Zhen (agulha de prata)

  • Bai Mu Dan (peônia branca)

  • Bai Mei (sobrancelha branca)

Verde

É cozido no vapor ou aquecido imediatamente após a colheita, para impedir a oxidação e o escurecimento das folhas. Tem sabores mais intensos do que o chá branco e mais suaves que o chá preto; muitos sabores vegetais.

  • Sencha

  • Matcha

  • Longching (poço do dragão)

Amarelo

Uma variedade rara; as folhas são secas por mais tempo do que as do chá verde, e ficam amarelas. Tem sabor de erva. É feito em pequenas quantidades, por isso é caro e difícil de encontrar.

  • Meng Ding Huang Ya

  • Jun Shan Yin Zhen

  • Huo Shan Huang Ya

Preto

Oxidado por mais tempo para obter um sabor mais forte. O processamento das folhas diminui o conteúdo de flavonoides. As variedades aromatizadas são feitas com o acréscimo de sabores.

  • Darjeeling Assam

  • Lapsang Souchong

  • Earl Grey (bergamota)

Oolong

Parcialmente oxidado; um tipo intermediário entre o chá verde e o preto. A oxidação determina o sabor.

  • Baozhong

  • Dong Ding

  • Ali Shan

Vermelho

Um chá de gosto forte e telúrico, que é fermentado (ao contrário de outros chás) para maturação após a oxidação; premido em tijolos ou bolos e enterrado ou guardado durante muitos anos antes de ser consumido.

  • Tuo Cha

  • Ban-Zhang

  • Pu'erh de folha preta solta

Do industrial ao artesanal, a produção e o consumo do chá variam enormemente em escala e execução. De acordo com a International Specialty Tea Association, a qualidade do chá depende de vários fatores, como o cultivo e a condição do arbusto, o conhecimento da técnica de cultivo, se as folhas são quebradas quando colhidas, o estilo de colheita e a forma das folhas, a data da colheita, a qualidade e o tipo de processamento, a umidade e a oxidação. [8] Todos esses fatores – sem contar com a técnica de preparo do chá – irão influenciar o sabor e a qualidade da bebida e, muito possivelmente, suas propriedades terapêuticas.

Efeitos terapêuticos do chá

Os potenciais benefícios do consumo de chá para a saúde têm sido objeto de milhares de estudos, muitos dos quais examinaram o papel dos polifenóis (por exemplo, a epigalocatequina galato no chá verde e as teaflavinas e tearubiginas no chá preto). Os polifenóis (inclusive os flavonoides) são uma classe de fitoquímicos creditados pelas propriedades antioxidantes do chá (assim como do café, de certos vegetais, frutas e cereais), por seu sabor, cor e cheiro. Esses compostos fortemente antioxidantes podem reduzir a oxidação do colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL), e diminuir o risco de doença cardíaca. Também podem ter efeitos anticarcinogênicos decorrentes da sua capacidade de mediar a oxidação do DNA, e por induzir as glicuronosiltransferases, ajudando, assim, a eliminar substâncias tóxicas e carcinogênicas. [9] Os polifenóis do chá também podem promover uma flora intestinal favorável e inibir o crescimento das espécies reativas ao oxigênio associadas às doenças relacionadas com a idade. [9]

Benefícios potenciais

Atualmente, as pesquisas mais promissoras sobre o consumo de chá estão relacionadas com os efeitos positivos dos flavonoides na doença arterial coronariana e no acidente vascular cerebral (AVC). [10] A ingestão de flavonoides e flavonas está associada a menor risco de morte por doença cardiovascular.

Grassi e colaboradores [11] avaliaram como os flavonoides encontrados no chá podem influenciar a dilatação arterial mediada pelo fluxo sanguíneo, e ajudar a combater a disfunção endotelial, fase inicial da patogênese da aterosclerose. Embora esses efeitos não sejam inteiramente compreendidos, as evidências atuais sugerem que o consumo moderado de chá pode aumentar a vasodilatação relacionada com o endotélio, o que explicaria alguns dos benefícios positivos do chá para o sistema cardiovascular.

Em animais de experimentação, o chá tem demonstrado ser um fator protetor contra o estresse oxidativo induzido por chumbo e cádmio, [12] o que reforça a hipótese de que o chá possa aumentar a capacidade oxidativa do corpo. Uma outra pesquisa [13] estudou os efeitos dos polifenóis do chá no estresse oxidativo, e se o ritmo circadiano poderia explicar seu efeito protetor. Os polifenóis do chá mostraram poder melhorar o desequilíbrio nas reações de oxidação e/ou redução e a disfunção mitocondrial nos hepatócitos. [13]

Ide e colaboradores [14] fizeram uma revisão de vários estudos bem conduzidos revelando os efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios das catequinas do chá no estresse oxidativo, considerado um componente crucial do mecanismo patológico da doença de Alzheimer.

Potenciais danos

Em um grande estudo de caso-controle populacional, Yang e colaboradores [15] concluíram que beber chá muito quente aumenta significativamente o risco de carcinoma de células escamosas no esôfago, em uma amostra de homens chineses de alto risco, especialmente entre os que também consumiam álcool. Em um editorial que fez referência a esta pesquisa, Cronin-Fenton [16] postulou que é plausível que o aumento do risco de câncer de esôfago seja atribuível à lesão térmica causada por beber chá muito quente, em vez de ao próprio chá, e aconselha aos que gostam de chá para deixarem o chá esfriar antes de beber. A International Agency for Research on Cancer classifica o consumo de bebidas quentes de qualquer tipo como "provavelmente cancerígeno". [17]

Exposição à cafeína do chá. Todos os tipos de chá derivados da planta C. sinensis contêm cafeína; no entanto, vários fatores (como o processamento das folhas, o tipo de chá, a técnica de preparo e o teor) influenciam na quantidade de cafeína no produto. As estimativas mais amplamente divulgadas revelam que a menor quantidade de cafeína (em 237 mL) é encontrada nos chás amarelo e branco (30 a 55 mg), seguido pelo verde (35 a 70 mg), oolong (50 a 75 mg) e preto (60 a 90 mg). Uma xícara de café do mesmo tamanho contém cerca de 100 mg de cafeína. Nenhum estudo recente teve como objeto os danos da exposição à cafeína do chá; as preocupações atuais com a segurança da cafeína estão ligadas principalmente à dose da cafeína, independentemente da origem. [18]

Chá verde

Os compostos ativos no chá verde são os polifenóis conhecidos como catequinas. O polifenol mais abundante no chá verde é o galato de epigalocatequina, que pode inibir a ação da molécula de espécies reativas ao oxigênio, prevenindo assim os danos oxidativos.

Doença cardíaca

O consumo de chá verde em quantidades variadas foi significativamente associado a menor risco de doença cardiovascular, infarto do miocárdio (IAM), AVC, hemorragia intracerebral, infarto cerebral e altos níveis de lipoproteína de baixa densidade do colesterol (LDL, do inglês Low-Density Lipoprotein). Uma possível explicação para este efeito preventivo envolve as propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias do chá verde. Xiang e colaboradores [19] mostraram, em um estudo retrospectivo, que beber pequenas quantidades de chá verde com frequência está associado à redução do risco de doença coronariana para as mulheres – mas não para os homens.

Neurodegeneração e câncer

Roy e Bhat [20] descobriram que os polifenóis do chá verde suprimem, desagregam e modulam a fibrilação da sinucleína γ, que tem um papel potencialmente importante na doença de Parkinson. Esta pesquisa demonstrou os possíveis efeitos benéficos do chá verde contra a neurodegeneração. Além disso, mostrou que os oligômeros gerados pela epigalocatequina galato podem reduzir a viabilidade das células do neuroblastoma, mas protegem as células do câncer de mama da toxicidade da sinucleína γ.

Schröder e colaboradores [21] descobriram que o galato de epigalocatequina e a quercetina (tanto as extraídas como as encontradas naturalmente no chá verde) têm efeitos anticancerígenos nas células de câncer de mama com e sem receptor de estrogênio.

Yang e colaboradores [22] relataram que os polissacarídeos do chá verde diminuíram o microRNA-93 – potencial alvo terapêutico no câncer de próstata – e inibiram o crescimento de células do câncer de próstata.

Doença renal

Wang e colaboradores [23] estudaram os efeitos antioxidantes dos polifenóis do chá verde na prevenção da hiperuricemia, que leva à doença arterial pré-glomerular e à doença renal crônica. Os pesquisadores descobriram que os polifenóis do chá verde protegem contra a progressão da doença renal crônica ativando a via Jagged1/Notch1-STAT3.

Ainda não se sabe se o consumo de chá verde tem algum efeito real sobre o risco de cálculos renais.

Estudando coortes prospectivas compostas de 58.054 homens e 69.166 mulheres, Shu e colaboradores [24] descobriram que beber chá verde está associado a menor risco de incidência de nefrolitíase referida pelos próprios pacientes, efeito que foi mais forte entre os homens.

Por outro lado, Wu e colaboradores [25] descobriram que o consumo de chá é fator de risco de cálculos renais, embora os participantes do estudo tenham bebido uma combinação de chás verdes, pretos e aromatizados.

Altos níveis de oxalato de cálcio na urina estão associados a maior risco de formação de litíase renal. O chá verde contém níveis muito mais baixos de oxalato e maior concentração de galato de epigalocatequina, que impede a formação de cálculos renais. (O chá preto contém altos níveis de oxalato e foi demonstrada a sua capacidade de aumentar as concentrações urinárias de oxalato quando consumido regularmente, levando às recomendações de retirar o chá preto das dietas das pessoas com propensão aos cálculos renais.) [26]

Outros potenciais benefícios do chá verde

Prevenção da doença periodontal. O chá verde promove a saúde periodontal reduzindo a inflamação, prevenindo a reabsorção óssea e inibindo o crescimento de bactérias associadas a doenças periodontais. [27] Gartenmann e colaboradores [28] descobriram que a aplicação local da catequina do chá verde, como adjuvante à raspagem e ao alisamento radicular, resulta na redução benéfica da profundidade da bolsa periodontal, apesar dos dados obtidos terem sido bastante heterogêneos. Além de seus benefícios sistêmicos, a descoberta dos benefícios tópicos do chá verde levou à comercialização da pasta de dentes com chá verde.

Redução do estresse. A L-teanina – um aminoácido no matcha – tem efeitos na redução do estresse. O matcha também contém bastante cafeína, que antagoniza os efeitos da L-teanina. Portanto, as concentrações relativas desses e de outros componentes (galato de epigalocatequina e arginina) determinam a eficácia do matcha na redução do estresse. [29]

Chá preto

Efeitos metabólicos

Um ensaio de eficácia biológica conduzido por Imran e colaboradores [30] mostrou redução do LDL e dos triglicerídeos, e aumento significativo da lipoproteína de alta densidade do colesterol em ratos que receberam polifenóis do chá preto (teaflavinas e tearubiginas). O estudo mostrou o potencial dos polifenóis do chá preto para o tratamento da hipercolesterolemia e da hiperglicemia, ou seja, para o tratamento do diabetes.

Acredita-se que níveis elevados de homocisteína estejam associados às doenças cardiovascular e cerebrovascular. [31] Zhu e colaboradores [32] encontraram uma correlação significativa entre beber chá preto e a hiper-homocisteinemia em pacientes com hipertensão. Este efeito não foi encontrado em pessoas que consumiram chá verde ou oolong.

Câncer de ovário

O polifenol do chá preto (3,3-digalato de teaflavina ou TF3) usado junto com a cisplatina mostrou sinergia do efeito citotóxico nas células de câncer de ovário resistentes à cisplatina, indicando que o TF3 pode ter potencial como adjuvante no tratamento do câncer de ovário. [33]

Transtornos neurodegenerativos e saúde vascular

Os metabólitos microbianos isolados (L-teanina, CDT-1 e CDT-2) extraídos do chá preto ajudaram a diminuir os transtornos neurodegenerativos relacionados com a idade em camundongos. [34]

O antigo debate sobre o leite e o chá não é apenas sobre qual deles vai primeiro à xícara. Mais de uma década atrás, um pequeno estudo sugeriu que o acréscimo de leite ao chá preto anula os benefícios vasculares do chá, provavelmente por alguma reação com as catequinas do chá. [35] Em um pequeno estudo recente, Ahmad e colaboradores [36] também descobriram que o acréscimo de leite ao chá preto altera o efeito favorável do consumo de chá na função vascular e na pressão sanguínea – por razões ainda desconhecidas.

Chá oolong

Em um estudo recente, [37] seis linhagens de células de câncer de mama foram tratadas com diferentes concentrações de extratos de chá oolong, verde, preto e escuro. Os pesquisadores estudaram o efeito desses extratos de chá na viabilidade celular, morfologia celular, danos e clivagem do DNA, entre outros fatores. Assim como o chá verde, o extrato de chá oolong induziu danos e clivagem do DNA; desempenhou um papel inibitório no crescimento, proliferação e carcinogênese de células de câncer de mama; e demonstrou potencial como agente quimiopreventivo contra o câncer de mama.

Nada conclusivo até o momento

As evidências atuais indicam os potenciais benefícios do consumo de chá – alguns dos quais parecem estar associados às suas propriedades antioxidantes, enquanto outros podem simplesmente coincidir com um estilo de vida saudável. De qualquer forma, a qualidade dos dados e a diversidade dos tipos de estudos dificultam chegar a alguma conclusão. Quais chás trazem maiores benefícios (ou riscos) para a saúde e por quê? Ainda não há resposta. Os pesquisadores ainda precisam responder muitas perguntas sobre o chá e seu papel na saúde, como por exemplo: os métodos ideais de preparo; o acréscimo de substâncias; a frequência, a quantidade e a duração do consumo; e se os benefícios de uma folha de chá diminuem à medida que ela envelhece. Além disso, uma proporção significativa dos estudos foi realizada em populações asiáticas, entre as quais o consumo de chá é comum. As novas pesquisas devem englobar populações com maior diversidade.

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