Metade dos pais desconhece os pensamentos suicidas dos filhos adolescentes

Troy Brown

Notificação

30 de janeiro de 2019

Metade dos pais não sabe de que seus filhos adolescentes já pensaram em cometer suicídio, e três quartos não sabem que os filhos pensam sobre a morte com frequência, revelam dados de uma nova pesquisa. Além disso, os próprios adolescentes costumam negar os pensamentos suicidas quando os pais lhes perguntam sobre isso.

"Dada a alta prevalência de desconhecimento dos pais e da negação dos pensamentos suicidas pelos adolescentes encontrada neste estudo, é possível que uma grande quantidade de adolescentes com risco de suicídio não seja identificada pelos pequenos rastreamentos feitos nas consultas de avaliação de rotina", escreveram os pesquisadores.

"Isso evidencia a urgência da necessidade de capacitação continuada dos pediatras do atendimento primário em termos de avaliação e conduta nos casos de ideação suicida, bem como da importância da obtenção de informações de várias fontes e da correção de relatos discordantes".

O Dr. Jason D. Jones, Ph.D., do Departamento de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e das Ciências do Comportamento no Children's Hospital of Philadelphia, na Pensilvânia, e colaboradores, publicaram suas descobertas on-line em 14 de janeiro no periódico Pediatrics.

O estudo foi realizado com 5.137 jovens entre 11 e 17 anos de idade (52,1% meninas; 43% minoria racial) e um dos pais ou responsável (97,2% dos quais eram um dos pais biológico ou adotivo) da Philadelphia Neurodevelopmental Cohort (PNC). Os pais e os adolescentes fizeram uma consulta, na qual foi indagado se o adolescente já tinha tido pensamentos suicidas e se pensava com frequência sobre a morte.

"De modo importante, os participantes não foram recrutados de programas de tratamento de saúde mental; assim, a coorte PNC é uma amostragem não enriquecida de pessoas não institucionalizadas que procuram ajuda psiquiátrica", escreveram os pesquisadores.

A concordância entre os relatos dos adolescentes e dos adultos foi moderada para os pensamentos suicidas e baixa para os pensamentos sobre a morte ou a vontade de morrer (κ = 0,171). As discrepâncias resultaram tanto do fato dos pais não terem conhecimento sobre os pensamentos suicidas dos adolescentes, como do fato dos adolescentes negarem a ideação suicida informada pelos pais.

Metade (49,9%) dos pais não sabia que os adolescentes tinham pensamentos suicidas, enquanto três quartos (75,6%) dos pais não sabiam que seus filhos tinham pensamentos recorrentes sobre a morte. Entre aqueles adolescentes cujos pais responderam "sim", 48,4% negaram pensar em cometer suicídio e 67,5% negaram pensar sobre a morte.

"A consciência dos pais sobre os sintomas que os adolescentes podem negar é um achado importante do estudo em tela. A inclusão dos pais e de outras fontes de informação nas avaliações pode ajudar a identificar um percentual maior de adolescentes em risco", escreveram as médicas Dra. Khyati Brahmbhatt e Dra. Jacqueline Grupp-Phelan da University of California San Francisco Benioff Children's Hospitals, no comentário que acompanha o estudo.

As comentaristas disseram que novas pesquisas sobre os fatores que levam os adolescentes a negar a ideação suicida e sua associação ao risco de tentativa de suicídio podem melhorar o rastreamento e as intervenções.

A probabilidade dos pais não saberem e dos adolescentes negarem foi menor entre os adolescentes mais velhos, o que possivelmente indica que a probabilidade de adolescentes mais jovens receberem um atendimento adequado é menor. Isso também pode refletir menor capacidade dos adolescentes mais jovens de interpretar as perguntas referentes a ideação suicida e morte, o que poderia influenciar a concordância dos relatos.

As comentaristas escreveram que "até 40% dos adolescentes que pensam sobre o suicídio passam ao ato". Por esse motivo, os métodos para identificar os jovens em maior risco de suicídio precisam ter maior especificidade do que os oferecidos atualmente. As Dras. Khyati e Jacqueline concordam com os pesquisadores sobre a necessidade de avaliações com várias fontes de informação e a exploração criteriosa das discordâncias.

"As intervenções direcionadas mais amplamente a todos com ideação suicida e/ou fatores de risco subjacentes (p. ex., depressão) podem não ser suficientes para modificar o desfecho do suicídio", explicaram Dra. Khyati e Dra. Jacqueline.

Um dos autores faz parte do conselho científico e informou ter ações da Taliaz, sem relação com este trabalho. Os demais autores e as comentaristas informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Pediatrics. Publicado on-line em 14 de janeiro de 2019. Abstract Editorial

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