Metade dos pais não sabe de que seus filhos adolescentes já pensaram em cometer suicídio, e três quartos não sabem que os filhos pensam sobre a morte com frequência, revelam dados de uma nova pesquisa. Além disso, os próprios adolescentes costumam negar os pensamentos suicidas quando os pais lhes perguntam sobre isso.
"Dada a alta prevalência de desconhecimento dos pais e da negação dos pensamentos suicidas pelos adolescentes encontrada neste estudo, é possível que uma grande quantidade de adolescentes com risco de suicídio não seja identificada pelos pequenos rastreamentos feitos nas consultas de avaliação de rotina", escreveram os pesquisadores.
"Isso evidencia a urgência da necessidade de capacitação continuada dos pediatras do atendimento primário em termos de avaliação e conduta nos casos de ideação suicida, bem como da importância da obtenção de informações de várias fontes e da correção de relatos discordantes".
O Dr. Jason D. Jones, Ph.D., do Departamento de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e das Ciências do Comportamento no Children's Hospital of Philadelphia, na Pensilvânia, e colaboradores, publicaram suas descobertas on-line em 14 de janeiro no periódico Pediatrics.
O estudo foi realizado com 5.137 jovens entre 11 e 17 anos de idade (52,1% meninas; 43% minoria racial) e um dos pais ou responsável (97,2% dos quais eram um dos pais biológico ou adotivo) da Philadelphia Neurodevelopmental Cohort (PNC). Os pais e os adolescentes fizeram uma consulta, na qual foi indagado se o adolescente já tinha tido pensamentos suicidas e se pensava com frequência sobre a morte.
"De modo importante, os participantes não foram recrutados de programas de tratamento de saúde mental; assim, a coorte PNC é uma amostragem não enriquecida de pessoas não institucionalizadas que procuram ajuda psiquiátrica", escreveram os pesquisadores.
A concordância entre os relatos dos adolescentes e dos adultos foi moderada para os pensamentos suicidas e baixa para os pensamentos sobre a morte ou a vontade de morrer (κ = 0,171). As discrepâncias resultaram tanto do fato dos pais não terem conhecimento sobre os pensamentos suicidas dos adolescentes, como do fato dos adolescentes negarem a ideação suicida informada pelos pais.
Metade (49,9%) dos pais não sabia que os adolescentes tinham pensamentos suicidas, enquanto três quartos (75,6%) dos pais não sabiam que seus filhos tinham pensamentos recorrentes sobre a morte. Entre aqueles adolescentes cujos pais responderam "sim", 48,4% negaram pensar em cometer suicídio e 67,5% negaram pensar sobre a morte.
"A consciência dos pais sobre os sintomas que os adolescentes podem negar é um achado importante do estudo em tela. A inclusão dos pais e de outras fontes de informação nas avaliações pode ajudar a identificar um percentual maior de adolescentes em risco", escreveram as médicas Dra. Khyati Brahmbhatt e Dra. Jacqueline Grupp-Phelan da University of California San Francisco Benioff Children's Hospitals, no comentário que acompanha o estudo.
As comentaristas disseram que novas pesquisas sobre os fatores que levam os adolescentes a negar a ideação suicida e sua associação ao risco de tentativa de suicídio podem melhorar o rastreamento e as intervenções.
A probabilidade dos pais não saberem e dos adolescentes negarem foi menor entre os adolescentes mais velhos, o que possivelmente indica que a probabilidade de adolescentes mais jovens receberem um atendimento adequado é menor. Isso também pode refletir menor capacidade dos adolescentes mais jovens de interpretar as perguntas referentes a ideação suicida e morte, o que poderia influenciar a concordância dos relatos.
As comentaristas escreveram que "até 40% dos adolescentes que pensam sobre o suicídio passam ao ato". Por esse motivo, os métodos para identificar os jovens em maior risco de suicídio precisam ter maior especificidade do que os oferecidos atualmente. As Dras. Khyati e Jacqueline concordam com os pesquisadores sobre a necessidade de avaliações com várias fontes de informação e a exploração criteriosa das discordâncias.
"As intervenções direcionadas mais amplamente a todos com ideação suicida e/ou fatores de risco subjacentes (p. ex., depressão) podem não ser suficientes para modificar o desfecho do suicídio", explicaram Dra. Khyati e Dra. Jacqueline.
Um dos autores faz parte do conselho científico e informou ter ações da Taliaz, sem relação com este trabalho. Os demais autores e as comentaristas informaram não ter conflitos de interesses relevantes.
Pediatrics. Publicado on-line em 14 de janeiro de 2019. Abstract Editorial
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Citar este artigo: Metade dos pais desconhece os pensamentos suicidas dos filhos adolescentes - Medscape - 30 de janeiro de 2019.
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