Usar Cannabis uma única vez pode alterar o cérebro do adolescente

George W. Citroner

Notificação

29 de janeiro de 2019

O uso de maconha, mesmo feito apenas uma ou duas vezes, pode alterar significativamente o volume de substância cinzenta (VSC) em várias partes do cérebro em desenvolvimento do adolescente, sugere nova pesquisa.

Após analisar dados de um grande programa de pesquisa avaliando o desenvolvimento do cérebro adolescente e a saúde mental, pesquisadores descobriram que algumas regiões ricas em receptores canabinoides encontram-se alteradas de forma significativa nos adolescentes que referem ter usado muito pouca Cannabis.

"Quisemos estudar os efeitos da exposição a pequenas quantidades de maconha, porque, apesar do efeito direto das grandes quantidades de Cannabis e de outras drogas já ter sido analisado, o efeito do uso leve ainda é bem pouco estudado", disse ao Medscape o copesquisador Dr. Hugh Garavan, professor de psiquiatria na University of Vermont em Burlington, nos Estados Unidos.

Os achados foram publicados on-line em 14 de janeiro no periódico Journal of Neuroscience.

Amostra homogênea

Apesar de estudos feitos anteriormente terem demonstrado tanto aumento como redução do volume do cérebro humano pelo uso de maconha, a maior parte destas pesquisas foi feita com usuários regulares de grandes quantidades da droga, que também eram tabagistas e etilistas, disse Dr. Hugh.

"Algumas pesquisas com modelos animais demonstraram que mesmo um único uso pode causar efeitos na capacidade e no cérebro, e nós tínhamos esta grande amostra, possibilitando pesquisar adolescentes que informaram ter usado pouco a substância", disse o pesquisador.

Utilizando dados do projeto de pesquisa europeu IMAGEN, com 2.400 participantes, os pesquisadores identificaram quem informou ter usado maconha somente uma ou duas vezes. Esses participantes foram então pareados com participantes de controle utilizando várias variáveis.

Todos os participantes negaram o uso de quaisquer outras substâncias ilícitas e nenhum informou utilizar uma substância controle fictícia, a relevina, o que corroborou a fidedignidade das métricas descritas.

Os dois grupos foram pareados por: idade; mão dominante; desenvolvimento puberal; quociente de inteligência (QI), determinado pela pontuação em uma escala de compreensão verbal e de raciocínio perceptivo; nível socioeconômico; volume da substância cinzenta total; uso de bebidas alcoólicas; e uso de nicotina.

Foram recrutados adolescentes cujos quatro avós eram da mesma nacionalidade do participante, tornando a amostra homogênea em termos raciais e étnicos.

Imagens do cérebro

Nos oito centros do estudo IMAGEN foi realizada ressonância nuclear magnética e morfometria por voxel (MBV) para comparar o volume da substância cinzenta entre os grupos.

Imagens cruas ponderadas em T1 foram avaliadas em relação à existência de anomalias anatômicas ou artefatos, como movimentação da cabeça ou erros de reconstrução.

Após o processamento da morfometria por voxel, as imagens foram analisadas novamente em busca de erros na segmentação dos tecidos ou a normalização nos espaços definidos pelo Montreal Neurological Institute (MNI). Todas as imagens que não passaram no controle de qualidade foram excluídas.

Havia dados disponíveis sobre um subgrupo de participantes usuários de maconha de 14 anos de idade, com acompanhamento de dois anos para uso de substâncias ilícitas, capacidade cognitiva e psicopatologia aos 16 anos de idade. Isto permitiu a análise das diferenças do volume da substância cinzenta relacionadas com o uso de Cannabis para o futuro desempenho funcional nestas áreas.

Dos 47 adolescentes que informaram ter usado maconha apenas uma ou duas vezes, um foi excluído devido à má qualidade das imagens obtidas. Sendo assim, 46 adolescentes usuários de Cannabis foram incluídos na análise.

Os pesquisadores também identificaram 69 participantes que nunca tinham usado a droga aos 14 anos, mas que referiram ter usado pelo menos 10 vezes na consulta de acompanhamento dois anos depois.

Isto permitiu aos pesquisadores determinar se as diferenças entre o grupo que utilizou maconha e o grupo de controle podem ter precedido o uso da droga.

O uso de outras substâncias foi avaliado no início (aos 14 anos) e no acompanhamento (aos 16 anos) utilizando o European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs , questionário que computa o uso de bebidas alcoólicas, Cannabis, uma vasta variedade de substâncias ilícitas e a medida de controle fictícia relevina.

Os participantes informaram o quão frequentemente usaram cada uma das substâncias durante sua vida, nos últimos 12 meses, nos últimos 30 dias e nos últimos sete dias, utilizando uma escala de sete pontos. Os participantes também informaram a idade na qual experimentaram cada uma das substâncias usadas.

Achado tentador

Adolescentes que informaram ter usado maconha apenas uma ou duas vezes apresentaram maior volume da substância cinzenta em várias regiões cerebrais ricas em receptores canabinoides quando comparados com os não usuários.

As regiões com maior volume da substância cinzenta foram: o lobo temporal bilateral, o córtex cingulado posterior bilateral, os giros linguais e o cerebelo.

"Não sabemos ao certo a razão. Também não sabemos com certeza se as diferenças de volume da substância cinzenta são decorrentes do uso de Cannabis", disse Dr. Hugh.

"É ainda plausível que estas diferenças do volume da substância cinzenta tenham precedido o uso de maconha. Pode ser que as diferenças de volume da substância cinzenta não sejam consequência do uso de Cannabis, mas sejam a razão que levou o adolescente a usar a droga", acrescentou o professor.

Os usuários de maconha tiveram maior pontuação na busca de sensações e algumas medidas de ansiedade em comparação com os não usuários. Entretanto, os pesquisadores não têm certeza se isto foi resultado das diferenças no volume da substância cinzenta ou algum outro fator desconhecido.

"Eu acho que devemos investigar mais profundamente", disse o pesquisador.

"É preciso tentar replicar qualquer achado, especialmente em se tratando de algo tão instigante. Queremos ver se o achado tem mesmo importância e devemos ter cautela ao tirar conclusões".

Achados contrários às expectativas

Comentando os achados para o Medscape, o Dr. William Chow, neurologista e professor adjunto de clínica na University of California em Los Angeles, disse que alguns outros estudos sugeriram a "diminuição do volume cerebral nos lobos temporais nos participantes que fizeram uso de Cannabis".

"Entretanto, eu acho que isto só significa que há variabilidade nos estudos de imagem", disse Dr. William. "Nós ainda não entendemos muito bem o efeito da Cannabis no cérebro".

Também comentando o estudo, Dr. Alex Dimitriu, psiquiatra e médico do sono em Menlo Park, na Califórnia, disse ao Medscape que "os achados parecem ser contrários às expectativas".

"É surpreendente ver que o uso tão mínimo de Cannabis leve a qualquer modificação mensurável das estruturas cerebrais ou seus volumes", disse Dr. Alex, que não participou do estudo.

"Ainda não foi esclarecido se ter mais substância cinzenta é melhor ou pior para o cérebro em desenvolvimento do adolescente, mas persiste o fato de que mesmo o uso em quantidades mínimas causa alterações" acrescentou.

Os autores do estudo informaram não ter conflitos de interesses relevantes. A lista completa de patrocinadores do estudo está disponível no artigo original.

J Neurosci. Publicado on-line em 14 de janeiro de 2019. Abstract

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