Nota do Editor: A série Casos Clínicos aborda doenças difíceis de diagnosticar, algumas das quais não são vistas com frequência pela maioria dos médicos, mas é importante poder reconhecer com precisão. Teste sua capacidade diagnóstica e terapêutica usando o caso clínico a seguir e as perguntas correspondentes.
Contexto
Um estudante de 19 anos, do sexo masculino, procura atendimento seis meses depois de largar a faculdade no meio do segundo semestre. Ele foi suspenso da faculdade por faltar às aulas e não participar das atividades. No ensino médio, ele estava entre os primeiros da turma e tinha um grupo de amigos próximos com os quais convivia desde o ensino básico. Durante o ensino médio ele consumia bebidas alcoólicas com os amigos ocasionalmente, aos fins de semana, e tentou fumar maconha em duas ocasiões.
O rapaz foi para a faculdade com o melhor amigo, com o qual dividia o quarto do alojamento universitário. Inicialmente, ele frequentava as aulas regularmente e entregava os trabalhos no prazo estipulado. Ele começou a frequentar as festas da fraternidade, e passou a consumir bebidas alcoólicas todos os fins de semana. Ele começou a fumar maconha regularmente, até que seu amigo e companheiro de quarto o aconselhou a parar quando ele ficou mais introspectivo, começou as faltar às aulas e a "agir de modo estranho".
No final do outono, durante o primeiro ano de faculdade, o estudante tinha parado completamente de fumar maconha. No entanto, sua frequência às aulas diminuiu ainda mais. Ele parou de ir aos eventos sociais e conversava cada vez menos o colega de quarto. Ia menos ao refeitório e comentou com o companheiro de quarto que a faculdade estava "envenenando a sua comida". Ele começou a urinar em potes que armazenava no armário do quarto como "prova" de que estava sendo envenenado.
Preocupado com as mudanças de personalidade do amigo, o companheiro de quarto o estimulou a ir para casa durante o recesso de inverno. No entanto, o rapaz insistiu em permanecer na faculdade para poder "colocar os trabalhos em dia".
Quando o companheiro de quarto voltou para o segundo semestre, percebeu que o amigo estava ainda mais alheio à vida universitária. Embora previamente um dos melhores estudantes da turma, no primeiro semestre seu CR foi muito baixo. Ele se inscreveu em novos cursos, mas parou inteiramente de frequentar depois de algumas semanas. Ocasionalmente, seu colega de quarto voltava para o quarto e o encontrava sentado na cama, falando sozinho. A higiene do estudante ficou descuidada, porque ele parou de tomar banho regularmente. Ele perdeu muito peso quando parou de comer no refeitório e só comia lanches das máquinas de venda automática. Por fim, depois que a coordenação da faculdade entrou em contato com os pais do jovem por conta do absentismo e do mau desempenho acadêmico, eles o levaram para casa e insistiram para que procurasse atendimento médico.
Exame físico e propedêutica
Ao exame, o paciente é um jovem alto e magro. Está vestido com roupas maiores do que o seu tamanho e que parecem estar manchadas. O cabelo está oleoso e despenteado. Ele exala um odor desagradável. Raramente estabelece contato visual e olha para baixo enquanto fala. Sentado, mantém uma postura estranha e rígida.
O paciente fala pouquíssimo, sem muita espontaneidade. Suas respostas são geralmente com poucas palavras e pobres em detalhes. Ele refere que seu humor está "bem", mas parece neutro. A sua expressão emocional é muito contida. Seu afeto parece embotado.
Quando indagado por que abandonou a faculdade há cerca de seis meses, o paciente murmurou algo sobre estar sendo envenenado e que "eles" sabiam a sua "verdadeira identidade". O rapaz não estabelece contato visual com o médico; negou o uso excessivo de drogas ou bebidas alcoólicas, e informou que parou de fumar maconha a pedido do amigo com quem divide o quarto. Ele não tem história de trauma encefálico. O paciente também informou ter uma tia materna que permaneceu internada em um hospital psiquiátrico durante décadas.
Ele afirmou que não ouve nem vê coisas que outras pessoas não ouvem nem veem. Ele também não reconheceu sentir cheiros que outras pessoas não sentem. No entanto, na sala de espera foi observado que ocasionalmente ele falava em voz alta com seres invisíveis. Quando perguntado sobre pensamentos ou planos de suicídio, ele afirmou que "não faria esse tipo de coisa". Ele negou qualquer pensamento homicida. Seu processo de pensamento é lento, e suas ideias são ocasionalmente desconectadas. Seu afeto é embotado e sua voz é monocórdica, mesmo ao descrever as tentativas envenená-lo.
O paciente estava orientado no tempo, no espaço e autopsiquicamente. A memória, apesar de vaga, estava preservada para eventos imediatos, recentes e remotos. Quando convidado a explicar o significado de expressões como "quem tem telhado de vidro não joga pedras no telhado do vizinho", suas respostas foram pessoais, abrangentes e excessivamente abstratas.
Os resultados do perfil metabólico de rotina do paciente, hemograma, hormônio estimulante da tireoide, provas de função hepática, perfil lipídico, exame de urina, toxicológico de urina, e níveis séricos de drogas e álcool foram normais. Foi feita uma ressonância nuclear magnética do crânio, cujo resultado foi normal (Figura 1).
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| Figura 1. |
Citar este artigo: Estudante de 19 anos com notas cada vez mais baixas e comportamento estranho - Medscape - 16 de janeiro de 2019.
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