Solicitar somente ressonância magnética em vez de US para detectar lesões cerebrais relacionadas à zika?

Roxana Tabakman

Notificação

21 de dezembro de 2018

Uma avaliação longitudinal do cérebro fetal e neonatal em crianças com exposição intrauterina ao vírus Zika indica que, de forma geral, a ressonância magnética e a ultrassonografia são exames que se complementam, e o seu somatório permite uma avaliação mais completa do cérebro fetal após a exposição ao vírus Zika.

A pesquisa também mostrou que, apesar da ausência de achados nas ultrassonografias fetais, é possível que a ultrassonografia de crânio pós-natal revele mudanças.

O estudo publicado no periódico JAMA Pediatrics [1] avaliou mulheres com provável infecção por vírus Zika selecionadas por critérios clínicos. A maioria tinha confirmação da infecção, mas não todas. A ausência de sintomas foi critério de exclusão, mas uma participante assintomática foi incluída porque seu feto apresentava sintomas e o teste para o vírus Zika foi positivo. Dentre as participantes, 80 eram colombianas (de Barranquilla) e duas eram norte-americanas.

A primeira suspeita de malformação ou de lesão cerebral relacionada com a infeção congênita se dá após uma ultrassonografia pré-natal de rotina. Mas, na coorte de 82 mulheres, dos três casos (4%) em que a ressonância magnética fetal revelou anomalias, um apresentou resultados normais pel a ultrassonografia pré-natal , ou seja, este exame de imagem não detectou caso de anomalia fetal . Nos três casos, os achados da ressonância magnética fetal for am compatíveis com infeção congênita pelo vírus Zika: heterotopias, malformações no desenvolvimento cortical, encefalocele parietal, malformação Chiari II e microcefalia.

Dentre as crianças com exames de imagem pré-natais normais, as imagens da ultrassonografia pós-natal revelaram anomalias. Dos 79 casos com resultados normais pelos exames de imagem durante o pré- natal, 21 dos 57 (37%) que foram submetidas a ultrassonografia de crânio pós-natal apresentaram anomalias, assim como 7 dos 53 submetidos à ressonância magnética pós-natal.

 

Neste estudo, a ausência de viremia prolongada não teve valor preditivo. As mães de dois dos três bebês com lesão cerebral fetal grave tinham PCR ( vírus Zika) negativo nas semanas 9 e 12 após início dos sintomas. E a mãe do outro bebê era assintomática, mas os três casos apresentaram IgG e ensaio de redução de placa positivos.

"Comparada à ultrassonografia, a ressonância magnética do cérebro fetal pode permitir uma avaliação mais completa. E, após o nascimento, a US de crânio é importante porque podem existir alterações que não estavam presentes nas imagens fetais", disse ao Medscape a primeira autora do estudo, Dra. Sarah Mulkey, neurologista fetal e neonatal do Sistema Nacional de Saúde infantil dos Estados Unidos.

Dra. Sarah Mulkey

"Encontramos 38% das crianças com anomalias após o nascimento, sendo que todas tinham perímetro cefálico normal ao nascer e exames de imagem normais durante o pré -nata l. Os achados são leves, inespecíficos e não se sabe se haverá repercussão no desenvolvimento neurológico. Para os pais, essa é uma das perguntas mais importantes, e não tem resposta. Agora estamos acompanhando as crianças para avaliar o desenvolvimento neuronal no primeiro ano de vida ", acrescentou a neurologista.

A Dra. Sarah acredita que se a pesquisa tivesse sido feita no Brasil, as diferenças seriam apenas numéricas em algumas regiões.

"Provavelmente os resultados do nosso est udo seriam semelhantes se a coorte tivesse casos de todo o Brasil . A ultrassonografia fetal conseguiria detectar a maioria das anomalias cerebrais nas gestações com complicações pela exposição ao vírus Zika. Mas as autoridades de saúde brasileiras informaram diferenças regionais em como o Zika afeta o cérebro em desenvolvimento. Dadas algumas  notificações de um número maior de crianças infectadas em algumas partes do Brasil, o número de casos anômalos poderia ser maior do que o do nosso estudo".

Convidado a comentar a pesquisa para o Medscape, o Dr. Jean Pierre Schatzmann Peron, professor associado da Universidade de São Paulo (USP) no Laboratório de Interações Neuroimunes do Instituto de Ciências Biomédicas, que pesquisa a neuropatogê nese da zika, e que não participou do estudo , disse: "os achados neurológicos são bastante semelhantes aos notificados, e a linhagem do  vírus que circula na Colômbia é a mesma do que circula no Brasil. No geral, a pesquisa é importante, porque é sempre interessante avaliar cada vez mais o cérebro destes bebês, e a ressonância magnética tem claramente uma sensibilidade bem maior. Mas não houve grandes achados em relação às novas lesões que não haviam sido descritas" .

Segundo o editorial que acompanha o estudo, [2] " mesmo que a transmissão do vírus Zika seja muito inferior à de 2016, ainda existem 100 países em situação de risco ( ...) não se sabe a magnitude do risco para viajantes gestantes, parceiras gestantes de viajantes ou residentes de áreas de risco". Todos devem permanecer atentos, alertou o editorial.

Os autores do trabalho e o Dr. Jean Pierre informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....