Obesidade na adolescência quadruplica risco de câncer de pâncreas na vida adulta

Alexander M. Castellino

Notificação

28 de novembro de 2018

Um estudo nacional israelense descobriu que as pessoas que foram obesas durante a adolescência tinham um aumento aproximado de quatro vezes do risco de câncer de pâncreas mais tarde na vida; as pessoas acima do peso tinham o dobro do risco.

O estudo analisou dados de quase 1,8 milhões de adolescentes acompanhados por uma mediana de 23 anos.

"Esta é a maior análise até hoje da avaliação da obesidade na adolescência associada ao risco de câncer de pâncreas", disseram os autores, liderados pelo Dr. Zohar Levi, médico do Centro Médico Rabinem Petah Tikva, Israel.

"Observamos que o índice de massa corporal (IMC) aos 17 anos de idade foi significativa e positivamente associado ao câncer de pâncreas no início da vida adulta para os homens e as mulheres", disseram os autores.

O estudo também descreveu que a associação com o câncer de pâncreas é proporcional à dose – os percentis mais altos no grupo com IMC mais elevado foram associados a maior probabilidade de risco. O risco observado nas pessoas com um IMC de 19,8 kg/m2 foi mínimo; riscos significativamente elevados foram observados com valores superiores a 23,0 mg/m2.

O estudo foi publicado on-line em 12 de novembro no periódico Cancer.

O editorial que acompanha o estudo sugere que este trabalho é importante por dois motivos. Primeiro, como o estudo usou dois grandes bancos de dados israelenses relativamente completos, seus resultados podem ser extrapolados para a população geral de Israel. Além disso, o estudo confirma os achados de outros estudos que identificam a obesidade como fator de risco de câncer de pâncreas.

"A identificação dos fatores de risco dessa entidade nosológica é muito necessária porque, até o momento, esses fatores têm sido atribuídos exclusivamente a uma pequena parte da população abrangendo vários fatores de risco, biológicos, sociais e hereditários, embora estes componham apenas um modesto aumento do risco", escreveu o editorialista Dr. Chanan Meydan, médico do Departamento de Medicina Interna do Ma'ayanei HaYeshua Medical Center em Bnei Brak, Israel.

Detalhes do estudo

Os pesquisadores usaram dois grandes bancos de dados israelenses. Um deles foi o banco de dados de adolescentes judeus israelenses com idades entre 16 e 19 anos que passaram por exames compulsórios no final da adolescência a fim de determinar sua aptidão para o serviço militar. O outro foi o banco de dados do Registro Nacional de Câncer de Israel, do qual foram incluídos apenas os casos comprovados de adenocarcinomas pancreáticos.

Para a análise, os pesquisadores agruparam os valores do IMC em percentis estabelecidos pela classificação dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC):de < 5º percentil foi considerado abaixo do peso; do 5º a < 85º percentil foi o grupo de referência (peso "normal"); do 85º ao 95º percentil foi considerado sobrepeso; e igual ou maior ao 95º foi considerado obesidade.

O estudo fez uma análise de 1.794.570 pessoas (1.087.358 homens; 707.212 mulheres). A média de idade dos participantes ao início foi de 17 anos.

Segundo a classificação do índice de massa corporal dos CDC, 54.224 pessoas (3%) eram obesas e 140.467 pessoas (7,8%) estavam na faixa do sobrepeso.

Após uma mediana de 23,3 anos de acompanhamento (44.563.618 pessoa-anos), foram identificados 551 casos de câncer de pâncreas (423 entre os homens e 128 entre as mulheres). A mediana da idade no momento do diagnóstico foi de 51 anos.

A incidência cumulativa de Kaplan a Meier do câncer de pâncreas mostrou divergência em torno do 25º ano de acompanhamento.

As hazard ratios (razões de risco) de câncer de pâncreas foram como se segue, com os intervalos de confiança de 95% indicados entre parênteses:

  • Pessoas obesas na população geral: 3,89 (2,76 a 5,50)

  • Pessoas com sobrepeso na população geral: 1,68 (1,27 a 2,21)

  • Homens obesos: 3,67 (2,52 a 5,34)

  • Homens com sobrepeso: 1,86 (1,36 a 2,45)

  • Mulheres obesas: 4,07 (1,78 a 9,29)

  • Mulheres com sobrepeso: 1,21 (0,66 a 2,26)

De acordo com a análise dos percentis do IMC, as pessoas com IMC normal a elevado também foram consideradas como tendo aumento do risco de câncer de pâncreas em comparação com as pessoas com IMC baixo e normal.

Observações semelhantes foram identificadas quando os pesquisadores usaram a classificação do IMC em quatro grupos da Organização Mundial da Saúde (OMS), em vez da classificação dos CDC.

O país de nascimento, o país de origem e o nível socioeconômico não foram associados a aumento do risco.

Limitações do estudo

Os pesquisadores reconhecem várias limitações do estudo. Não havia dados disponíveis sobre a mudança de peso ao longo do tempo e, portanto, a associação do risco de câncer de pâncreas com a mudança de peso ao longo do tempo não pôde ser determinada. A análise do risco de câncer de pâncreas pela relação entre a cintura e o quadril ou pela circunferência abdominal, ambos correlatos independentes de câncer de pâncreas, também não foi possível, devido à ausência dessas informações.

Informações sobre outros fatores de confusão (por exemplo, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, diabetes, atividade física, tipo de alimentação ou mutações BRCA) também não estavam disponíveis e, portanto, sua contribuição para o risco do câncer de pâncreas não pôde ser avaliada. No entanto, os pesquisadores observaram que as mutações BRCA, que estão associadas ao aumento do risco de câncer de pâncreas, existem em aproximadamente 2% dos judeus asquenazes.

No seu editorial, Dr. Chanan também observou a limitação inerente às análises de uma grande quantidade de dados (big data). "As principais perguntas feitas pelos pesquisadores às vezes são elaboradas muito depois dos dados terem sido coletados, formulados e aguardarem para serem revelados", escreveu o Dr. Chanan.

"Dessa forma, os responsáveis iniciais pelo banco de dados podem não atender às futuras necessidades dos pesquisadores, limitando sua relevância", acrescentou.

Comentários do editorialista

O Dr. Chanan observou que os grandes bancos de dados populacionais israelenses refletem uma sociedade em desenvolvimento do rural ao urbano, da austeridade ao boom econômico, e do trabalho físico às ocupações sedentárias – todas associadas ao aumento progressivo da prevalência de obesidade na população.

Dr. Chanan ponderou que a obesidade é um componente da síndrome metabólica, que está sendo comprovada como fator modificador da patogenia do câncer de pâncreas e "deve ser considerada como parte do espectro do processo inflamatório sistêmico crônico".

O foco da obesidade está saindo da patologia vascular para abranger a disfunção metabólica, sugeriu o Dr. Chanan. O editorialista indicou que um corpo crescente de evidências denota que o tecido adiposo seja um órgão endócrino, com a adiponectina e a leptina como mediadores da regulação dos adipócitos; A adiponectina interfere na resistência à insulina e a leptina interfere na sensação de fome. O médico destacou o fato de as vias de sinalização que não codificam RNA estarem associadas à patogênese do câncer de pâncreas.

"No contexto do câncer de pâncreas, esses elementos moleculares (síndrome metabólica, inflamação, não codificação do RNA) estão emergindo como fatores desempenhando papeis diagnósticos, prognósticos e terapêuticos", observou o Dr. Chanan.

Este estudo foi financiado por bolsas de pesquisa do Israel Cancer Research Fund, na cidade de Nova York e do Fundo de Meio Ambiente e Saúde, em Jerusalém, Israel. Os autores do estudo informaram não ter relações financeiras relevantes. O Dr. Chanan Meydan recebeu honorários da empresa Raziel Therapeutics Ltd.

Cancer. Publicado on-line em 12 de novembro de 2018. Abstract , Editorial

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