COMENTÁRIO

AHA lança novas diretrizes sobre exercícios físicos

Dr. Bruno Valdigem

Notificação

12 de novembro de 2018

A segunda edição do Physical Activity Guideline for Americans, com 22 referências, três textos e um vídeo como material de apoio, foi publicada hoje (12/11) durante o congresso do American Heart Association 2018 (AHA), em Chicago.

A construção do texto fluido que, em nove páginas, resume as evidências relacionadas com a quantidade, a qualidade e o tipo de atividade física, voltado para a prevenção de eventos cardiovasculares, começou a ser feita em 2016.

A 36ª edição da Conferência de Bethesda sobre atividades físicas tem sido a referência das recomendações sobre a prática de esportes para os pacientes cardiopatas desde 2005. Infelizmente, a ausência de evidências cientificas da época condenou muitos deles às atividades conhecidas como IA (leves e sem esforço importante, como caminhada ou jogo de bocha, por exemplo).

A falta de definições sobre a duração das atividades levou os médicos a extrapolarem, prescrevendo exercícios leves para pacientes com doenças como arritmias ventriculares ou tetralogia de Fallot.

É importante ressaltar que o objetivo dessas recomendações era limitar as atividades potencialmente perigosas para os pacientes. Passamos anos prescrevendo caminhadas leves sem supervisão, três vezes por semana, ou obrigamos os pacientes mais graves a entrar em programas de reabilitação cardíaca (programas esses dos quais sou defensor ferrenho). Não faltam evidências sobre os benefícios da atividade física, sua constância é uma das poucas mudanças de estilo de vida que reduz, comprovadamente, a mortalidade.

A título de normatização, chamamos de aeróbica a atividade com movimentos musculares rítmicos e praticada por um período sustentado e classificamos a intensidade como leve, moderada ou forte. O termo frequência se refere à quantidade de vezes que a atividade é realizada em um determinado período (semana ou mês, por exemplo) e a duração diz respeito ao tempo de atividade.

Nas atividades de fortalecimento muscular(de resistência e levantamento de peso), o termo intensidade se refere à carga utilizada e o termo repetições à quantidade de vezes que cada movimento é realizado.

As atividades de fortalecimento ósseo (wheight bearing ou sustentação de peso) promovem crescimento e fortalecimento ósseo. As atividades de equilíbrio costumam ser focadas no dorso, no abdome e nas pernas, e têm como objetivo aumentar a força para prevenir quedas e evitar o efeito das forças externas sobre o equilíbrio. Atividades multicomponentes são uma combinação das anteriores, como ioga, dança, jardinagem ou esportes, de acordo com a forma de realização.

Em relação a intensidade, o benefício de atividades moderadas exige o dobro de tempo do benefício obtido com atividades intensas (por exemplo, correr meia hora "vale" por uma hora de caminhada). Formas sugeridas de dividir a atividade em moderada ou forte são escalas absolutas (1 MET equivale a ficar parado, 2 a 5,9 MET equivale a atividade moderada, e 6 ou mais MET, a atividade intensa) ou relativas (0 significa nenhum esforço e 10 máximo esforço imaginado).

Uma forma interessante de determinar a intensidade do exercício é conversar com o paciente durante a atividade: se ele conseguir falar, mas não conseguir cantar, a atividade pode ser considerada como moderada; se tiver dificuldade para dizer mais do que palavras isoladas, a intensidade é forte.

Começar a caminhar é recomendado, a progressão pode se dar com aumento do tempo de caminhada, da quantidade de vezes por semana, ou pelo aumento gradual da velocidade, de modo que o paciente se adapte e, assim, evite lesões.

Essas diretrizes reafirmaram a necessidade de redução do tempo total que as pessoas passam sentadas e da prática de atividade física de moderada a forte. As recomendações para crianças, mesmo em idade pré-escolar, foram feitas de forma clara.

As recomendações indicam que os pais de crianças em idade pré-escolar devem estimular a prática de atividades de toda a natureza, com uma meta de três horas por dia (qualquer intensidade).

Crianças mais velhas e adolescentes devem ser encorajados a praticar atividade física por uma hora por dia todos os dias da semana: preferencialmente aeróbica, mas que inclua fortalecimento muscular e do equilíbrio, por pelo menos três dias na semana cada uma. Dislipidemia, hipertensão arterial e hábitos saudáveis se desenvolvem nessa idade, é importante cultivar o último.

Adultos devem praticar o mínimo de 150 minutos de exercícios moderados ou 75 minutos de exercícios de intensidade forte por semana e, preferencialmente, o dobro disso (300 e 150 minutos de exercícios moderados e intensos, respectivamente) para obter algum benefício cardiovascular. Se houver disponibilidade para a prática de exercícios além do tempo recomendado, o excedente tem benefício adicional. As atividades de fortalecimento muscular duas vezes por semana, de qualquer intensidade, promovem benefícios adicionais.

Após os 65 anos de idade, a atividade física regular reduz o risco e a gravidade das quedas, aumenta a socialização e a sensação de bem-estar. O tempo mínimo de 150 minutos de exercícios por semana deve ser distribuído em atividades multicomponentes, com especial interesse pelas que aumentam a estabilidade postural. O tempo, a temperatura e as doenças crônicas devem ser fatorados e as atividades estimuladas dentro do razoável para o praticante.

Gestantes podem se beneficiar com a redução da depressão pós-parto, do diabetes gestacional, do ganho excessivo de peso e, talvez, da pré-eclâmpsia. A meta de 150 minutos por semana deve ser encorajada, preferencialmente com atividades aeróbicas e, se possível, orientadas por um médico que acompanhe a gestação e esteja confortável com o desenvolvimento do bebê.

Portadores de doenças crônicas devem ser orientados por seus médicos, ainda que a frequência e a carga sugeridas devam ser semelhantes às dos adultos saudáveis. As possíveis limitações devem ser conversadas com os profissionais que assistem o paciente para maior segurança.

Agora, outra parte brilhante dessas recomendações, que poderia ser chamada de "ensinando a pescar": os especialistas listaram nove setores que podem contribuir para o estímulo à prática de atividades físicas, como donos de empresas, criando espaços para atividade no ambiente de trabalho; instituições religiosas, disponibilizando espaço e orientando os praticantes; e os setores de transporte, disponibilizando locais para deixar bicicletas perto das estações de ônibus e de metrô, por exemplo. Atividades físicas em grupo, com a participação de profissionais de saúde, por exemplo, podem ser mais duradouras e promover mais envolvimento.

Opinião do autor

O aumento dos casos de obesidade, diabetes e hipertensão entre pessoas mais jovens expandiu o conceito de prevenção cardiovascular. Aproximadamente 20% dos jovens nos Estados Unidos praticam uma hora por dia de atividade física de intensidade moderada ou forte, sendo este comportamento mais frequente em meninos que em meninas. Essas diretrizes chegaram em boa hora, pois abrem o debate sobre como o médico pode intervir de forma objetiva na mudança de estilo de vida do paciente.

Talvez as recomendações para os norte-americanos não se apliquem aos brasileiros. É possível que as regras de uso das bicicletas nos transportes públicos sejam diferentes nos estados. Em relação à alimentação as diferenças são grandes, como a quantidade de calorias no café da manhã. Apesar disso, as diferenças apontadas no estudo PURE não foram tão marcantes.

O estímulo à atividade física nas escolas, contando com as aulas de educação física obrigatórias e a preferência por esportes coletivos pode oferecer um contraponto a uma eventual falta de estrutura.

A abordagem multiprofissional é extremamente importante para os que não praticam atividades físicas. Em uma era de soluções fáceis, vide a redução milagrosa de colesterol com inibidores da PCSK9, o uso indiscriminado de anabolizantes, os termogênicos e a propaganda de anorexígenos em publicações leigas – facilmente obtidos sem prescrição –, essas diretrizes devem ser louvadas. O objetivo delas é desburocratizar a prescrição de exercícios, em especial na prevenção primária de doenças cardiovasculares. A medicina do esporte, em especial a cardiologia do esporte, foi criada para cuidar dos casos que requerem atenção especial. Com o estímulo e orientação objetivos, talvez possamos reduzir cada vez mais os casos que precisam dessa atenção especial.

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