COMENTÁRIO

Expectativas para o AHA 2018

Dr. Bruno Valdigem

Notificação

8 de novembro de 2018

Terra do lendário Buddy Guy, da pizza deep-dish e da espetacular escultura  Portal das Nuvens (Cloud Gate), mais conhecida como "o feijão", Chicago irá sediar novamente o congresso anual da American Heart Association, de 10 a 12 de novembro. Esse congresso sempre nos brinda com novidades muito aguardadas, como novas diretrizes, geralmente lançadas em conjunto com outras sociedades protagonistas em cardiologia do mundo, e as últimas notícias dos ensaios clínicos (late breaking).

As diretrizes mais aguardadas, do meu ponto de vista, são as de controle do colesterol para 2018, a serem apresentadas na sessão principal do primeiro dia do congresso, e as novas diretrizes de estimulação cardíaca.

Nos últimos anos, os medicamentos alirocumab e evolocumab foram posicionados como efetivos na redução de mortalidade, pela obtenção de metas e pela criação de valores até pouco tempo impensáveis para o tratamento de pacientes com resposta insuficiente a estatinas. Metas de 70 mg/dL foram comparadas com valores médios de 30 mg/dL ou menos. Será essa a meta das novas diretrizes? E a que custo financeiro para os programas de saúde e para os pacientes?

As novas diretrizes de estimulação cardíaca podem trazer um posicionamento mais centrado na estimulação hissiana, na extração de eletrodos e no implante de cardiodesfibriladores subcutâneos. Apesar dos resultados promissores dess as três novidades nos últimos anos, a escolha da população na qual esses dispositivos serão implantad o s ainda é feita de acordo com preferências pessoais extrapoladas de estudos não randomizados.

Outras diretrizes aguardadas falam das atividades físicas para os norte-americanos, prometendo orientações baseadas em evidências a respeito da quantidade de exercícios que minimizam o risco de vida e de doenças cardiovasculares.

Talvez a questão dos custos financeiros das novas seja respondida pelo estudo ODYSSEY Outcomes , sobre o custo e a efetividade do uso do alirocumabe, e por estudos de prevenção primária, como o EWTOPIA75 – com ezetimibe na prevenção de eventos cerebrovasculares em idosos.

No estudo DECLARE-TIMI 48 , a medicação para controle de glicemia, dapagliflozina, foi testada em 17.000 pacientes diabéticos de alto risco cardiovascular ou com doença estabelecida, randomizados para receber 10 mg de dapaglifozina ao dia ou placebo .

O estudo CIRT avaliou 7.000 pacientes diabéticos com doença arterial coronária estável para receber metotrexato ou placebo em busca da prevenção de eventos cardiovasculares.

Ômega 3 e derivados, na reta final de indicação para prevenção cardiovascular após resultados nulos no recém- publicado ASCEND , ressurgiram nos estudos REDUCE- IT (ácido etil- eicosapentaen oico ) e   VITAL ( vitamina D e ômega 3), em busca de evidências para a prevenção das doenças cardiovasculares e do câncer.

A metade de um dos três dias do AHA 2018 será dedicada a intervenções com auxílio tecnológico para a prevenção das doenças cardiovasculares (BRIDGE CV prevention), orientações e tratamento após o acidente vascular cerebral e ataque isquêmico transitório (BRIDGE Stroke), orientação de anticoagulação (IMPACT_AF e AF_ALERT) e atendimento na atenção primária de saúde (mWELLCARE).

No dia 11 de novembro, haverá uma sessão especial com o tema cérebro e coração, em um a mesa de tratamento otimizado em urgências cardiovasculares .

Para os monitores e prestadores de ACLS (sigla do inglês, Advanced Cardiovascular Life Support), serão apresentadas novas evidências sobre proteção cerebral.

O estudo PRINCESS avaliou os efeitos do resfriamento cerebral intranasal na fase pré-hospitalar em 700 pacientes randomizados.

O Neuroprotect post-CA trial busca comparar a estratégia de manter a pressão arterial média (PAM) entre 85 e 100 mmHg com SvO2 entre 65% e 75% ou controle (PAM, > 65 mmHg) em pacientes após parada cardiorrespiratória (PCR).

Os intervencionistas não precisam se desanimar, também haverá novidades paras eles : o estudo T-TIME testa uma dose baixa de alteplase intracoronariana em pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM) e oclusão total de ramo principal coronariano em três braços, com duas estratégias utilizando alteplase – alteplase 10 mg, alteplase 10 mg + 10 mg  – ou placebo .

O estudo DTU comparou o implante do dispositivo de assistência circulatória Impella por 30 minutos antes de nova reperfusã o com implante no momento da reperfusão, como estratégia para reduzir extensão do IAM. Imediatamente antes deste, será apresentado o estudo EARLY, que busca o tempo ideal da intervenção nas síndromes coronarianas agudas sem elevação do segmento ST.

O AHA 2018 também terá resultados tardios de mais de 10 anos de estudos clássicos, como o FREEDOM (revascularização de múltiplas artérias por angioplastia ou cirurgia) e o ISAR TEST 4 (stent de liberação de medicamentos através de polímero biodegradável).

Em insuficiência cardíaca, será apresentado mais um estudo de sacubritril/valsartana, desta vez em pacientes em descompensação aguda de insuficiência cardíaca, o estudo PIONEER- HF ( não confundir com o PIONEER, que avaliou a empaglifozina em tratamento por período prolongado).

O Withdrawal Of Pharmacological Heart Failure Therapy In Recovered HF vai responder à pergunta: quando podemos suspender as medicações após recuperação de função em cardiopatia não isquêmica?

Já o estudo EMPA-HEART, seguindo o recente conceito de medicamentos para controle de glicemia, mostrará o impacto destes na insuficiência cardíaca e na coronariopatia randomizada s entre empagliflozina ou placebo. Sem esquecer, claro, os resultados de rivaroxabana em portadores de insuficiência cardíaca e ritmo sinusal (Effects of Rivaroxaban on Thrombotic Events in Heart Failure Patients with Coronary Disease and Sinus Rhythm), com desenho aparentemente semelhante ao recém-publicado COMMANDER-HF, que deu resultado negativo.

Por fim, eis a lguns estudos que despertaram minha curiosidade, mas que não consegui encaixar nos outros grupos: o estudo YOGA-CARe, que utilizou a ioga como exercício para a reabilitação cardiovascular em metade de 4 mil indianos após IAM, e outro artigo sobre remodelamento cardíaco pós ligação de fístula arteriovenosa em pacientes estáveis pós transplante renal, randomizado e controlado.

O congresso deste ano terá ainda diversos temas livres orais, e a comemoração dos 40 anos desde o primeiro congresso cardiovascular de Bethesda (EUA).

O Medscape irá cobrir o AHA 2018 com um time de experts. Acompanhe e participe: qual resultado pode mudar mais sua prática clínica?

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