Nenhum prejuízo e quiçá algum benefício com a espera pelo resultado da mutação RAS no câncer colorretal

Liam Davenport

Notificação

7 de novembro de 2018

Munique — Os médicos que tratam de pacientes com câncer colorretal metastático podem esperar com segurança para receber resultados do status de mutação dos genes RAS antes de acrescentar o inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR, do inglês Epidemal Growth Factor Receptor) ao segundo ou terceiro ciclo da quimioterapia.

De fato, aparentemente isso melhorou alguns desfechos quando comparado ao tratamento imediato dos pacientes com um antagonista do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF, do inglês Vascular Endothelial Growth Factor), embora os índices de sobrevida global tenham sido semelhantes.

Esta é a conclusão de uma análise retrospectiva, que deve tranquilizar os médicos e seus pacientes, disseram os autores.

A Dra. Lola-Jade Palmieri, médica gastroenterologista do Hôpital Cochin em Paris, na França, e colaboradores, avaliaram se a espera pelo resultado de mutações dos genes RAS antes do início do tratamento com o inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico foi associada a piora dos desfechos em comparação com o início imediato do tratamento com algum antagonista do fator de crescimento endotelial vascular. Pode demorar 20 dias para receber os resultados do status de mutação dos genes RAS.

O estudo foi feito com mais de 260 pacientes com câncer colorretal metastático. Os pesquisadores descobriram que adiar o tratamento enquanto aguardavam os resultados do exame não teve repercussão nos resultados.

De fato, os pacientes para os quais o tratamento com inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico foi adiado enquanto iniciavam a quimioterapia tiveram uma sobrevida livre de progressão da doença significativamente mais longa e melhores índices de resposta objetiva do que os pacientes que receberam tratamento imediato com antagonista do fator de crescimento endotelial vascular. Não houve diferença em termos de sobrevida.

"Nossos resultados sugerem que, enquanto se espera pelo status de mutação dos genes RAS, a introdução tardia do inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico é uma opção válida em comparação com a introdução imediata do antagonista do fator de crescimento endotelial vascular", concluiu a equipe.

O estudo foi apresentado em pôster no congresso de 2018 da European Society for Medical Oncology (ESMO).

Em entrevista, a Dra. Lola-Jade disse ao Medscape que essas descobertas significam que os médicos "não precisam ficar ansiosos sobre se devem ou não iniciar o tratamento com o inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico imediatamente para seu paciente, já que é necessário esperar muito tempo pelos resultados do status de mutação dos genes RAS".

Indagada se acreditava que a demora na obtenção dos resultados poderia ser encurtada, a médica indicou que o tempo de espera atualmente é o mesmo de quando o teste foi introduzido em 2010.

A pesquisadora disse que, na França, o status de mutação dos genes RAS é avaliado em alguns centros que dispõem das plataformas disponíveis para análise. O atraso inclui o tempo que leva para a amostra ser transportada até o centro e, a seguir, o tempo de realização do teste.

Dra. Lola-Jade acrescentou: "Mesmo que todos digam que isso precisa ser feito em menos tempo, é realmente difícil de viabilizar".

"Acredito que isso talvez mude com o teste de mutação EGFR em DNA tumoral circulante, mas atualmente, já fazem 7 ou 10 anos que temos esse tempo de espera, então não acho que vá ficar mais rápido", comentou a pesquisadora.

Detalhes do estudo

Em seu pôster, a equipe explicou que o tratamento de primeira linha do câncer colorretal metastático irressecável nos pacientes com uma mutação do tipo selvagem RAS/BRAF pode ser a quimioterapia junto com um antagonista do fator de crescimento endotelial vascular ou um inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico.

Mais da metade dos pacientes com câncer colorretal metastático tem mutação KRAS ou NRAS na apresentação. Vários estudos comprovaram o valor prognóstico das mutações dos genes RAS em relação à resposta ao tratamento com inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico.

Embora estes resultados subsidiem a determinação do status de mutação dos genes RAS antes de iniciar o tratamento com inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico, na prática, isso leva a adiamentos do tratamento enquanto se aguarda os resultados do teste. Um estudo revelou que o tempo médio para receber os resultados do status de mutação dos genes RAS foi de 20 dias.

Com o objetivo de determinar o impacto do atraso dos inibidores do receptor do fator de crescimento epidérmico no tratamento de primeira linha do câncer colorretal metastático, a equipe reuniu dados de 22 hospitais universitários, quatro centros de oncologia e dois hospitais gerais na França.

Foram incluídos todos os pacientes com câncer colorretal irressecável, para os quais foi solicitado o teste de mutação KRAS e NRAS entre 2013 e 2015, e que ainda não haviam feito quimioterapia no estágio metastático.

Após a triagem, a equipe incluiu 262 pacientes. Destes, 129 pacientes fizeram quimioterapia e tratamento imediato com antagonista do fator de crescimento endotelial vascular, e 133 fizeram quimioterapia com o acréscimo do inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico no segundo ou terceiro ciclo.

A equipe observou que o tratamento com inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico foi introduzido no segundo ciclo para 70% dos pacientes e no terceiro ciclo para 30% dos pacientes.

A mediana do tempo desde o pedido do teste do status de mutação dos genes RAS até o recebimento do resultado foi de 19 dias (variado de 13 a 26 dias).

Os pacientes tratados imediatamente com antagonistas do fator de crescimento endotelial vascular tiveram mais probabilidade de ser do sexo masculino do que os pacientes do grupo tratado mais tarde com o inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico, de 68% vs. 56% (P = 0,048). Estes pacientes também tinham maior probabilidade de ter metástase em mais de um local, de 57% vs. 40% (P = 0,02).

Para justificar isso, os pesquisadores criaram uma classificação de propensão que levou em conta os locais das metástases, a fim de assegurar que os dois grupos fossem comparáveis.

Durante uma mediana de acompanhamento de 37,9 meses, os índices de resposta objetiva foram mais altos para os pacientes no grupo do inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico adiado do que entre aqueles no grupo do antagonista do fator de crescimento endotelial vascular, de 66,7% vs. 45,6% (P = 0,0007).

Além disso, a sobrevida livre de progressão da doença foi significativamente maior entre os pacientes com câncer colorretal de cólon descendente que fizeram tratamento tardio com inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico, de 13,8 vs. 10,8 meses (hazard ratio de 0,69; P = 0,003).

Não houve melhora importante da sobrevida livre de progressão da doença com o adiamento do inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico versus o adiamento do tratamento com antagonista do fator de crescimento endotelial vascular para câncer colorretal de cólon ascendente. E não houve diferença significativa na sobrevida global entre os grupos, independentemente da localização do tumor.

Em relação aos efeitos tóxicos com incidência maior de 10%, os pacientes que receberam inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico tardio tiveram mais efeitos adversos cutâneos (P < 0,0001), enquanto os pacientes que fizeram tratamento tardio com antagonista do fator de crescimento endotelial vascular tiveram mais eventos hemorrágicos (P = 0,0007).

A equipe concluiu que a "introdução tardia do inibidor do receptor do fator de crescimento epidérmico não foi associada à diminuição da sobrevida global e da sobrevida livre de progressão da doença, em comparação à introdução imediata do antagonista do fator de crescimento endotelial vascular junto com a quimioterapia".

Não foi informado financiamento para o estudo. A Dra. Lola-Jade Palmieri informou não ter relações financeiras relevantes. Dois coautores informaram ter relações com a indústria farmacêutica, conforme detalhado no Abstract.

European Society for Medical Oncology (ESMO) 2018 Congress. Abstract 485P, apresentado em 21 de outubro de 2018.

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