Altos níveis de ômega-3 associados ao envelhecimento saudável

Batya Swift Yasgur

Notificação

6 de novembro de 2018

Altos níveis séricos de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 (AGPI n-3) estão associados ao envelhecimento saudável em adultos – definido como sobrevida livre de doenças crônicas, tais como doença cardiovascular, câncer, doença pulmonar ou doença renal crônica grave –, segundo achados de um novo estudo.

Pesquisadores mensuraram os níveis cumulativos do fosfolipídio AGPI n-3 no plasma de 2.600 adultos por três vezes num período de 13 anos e encontraram uma associação entre maiores níveis de AGPI n-3 de cadeia longa e uma chance 18% menor de envelhecimento não-saudável.

Mais especificamente, os AGPI n-3 provenientes de frutos do mar, ácido eicosapentaenóico (EPA), ácido docosapentaenóico (DPA) e ácido docosahexaenóico (DHA), estão associados ao envelhecimento saudável.

"Observamos que níveis mais altos de ômega-3 estavam associados a maior probabilidade de envelhecimento saudável. Também vimos que pessoas com os níveis séricos mais altos de ômega-3 reportaram maior consumo de peixe; cerca de duas porções por semana", disse a autora principal Dra. Heidi Lai, Ph.D., fellow de pós-doutorado, Friedman School of Nutrition Science and Policy, Tufts University, Boston, ao theheart.org/Medscape Cardiology.

"Este estudo confirma a indicação de maior consumo de frutos do mar, contida nas atuais diretrizes nacionais", disse a autora.

O estudo foi publicado on-line em 17 de outubro no BMJ.

Importância dos biomarcadores

"Estamos vivendo mais, mas não necessariamente de forma saudável e a qualidade de vida na terceira idade está se deteriorando", disse Dra. Heidi.

"Além das preocupações com a qualidade de vida, a longevidade sem saúde aumenta os custos do setor saúde. Como pesquisadores, queremos começar a concentrar na qualidade de vida em vez de na longevidade – um conceito que chamamos de envelhecimento saudável, que significa sobrevida livre de doenças crônicas e disfunções cognitivas ou físicas", explicou.

"Sabemos que os AGPI ômega-3 encontrados, principalmente, nos frutos do mar, trazem benefícios para a saúde do coração, mas pouco exploramos a influência dele em outras doenças crônicas e no envelhecimento saudável".

A maioria dos estudos prévios foi baseada em questionários sobre alimentação respondidos pelos pacientes, e poucos utilizaram biomarcadores para prover "uma medida complementar ao relato, com menor viés de memória e erros de estimação", segundo os autores.

Além disso, os biomarcadores facilitam muito a pesquisa sobre os efeitos de AGPI n-3 específicos, que incluem EPA de cadeia longa, DHA de frutos do mar e DPA metabolizado endogenamente (de forma menos importante, também derivada de frutos do mar). Ainda incluído nesta categoria, o ácido α-linoleico das plantas.

Importante ressaltar que todos os estudos prévios com biomarcadores utilizaram apenas uma medida de AGPI n-3 em seu início, e não acompanharam tendências ou mudanças ao longo do tempo.

Por isso, os pesquisadores utilizaram medidas em série de biomarcadores AGPI n-3 do estudo Cardiovascular Health, uma coorte prospectiva multicêntrica de idosos nos Estados Unidos, recrutados a partir de amostras aleatórias de indivíduos participantes do Medicare – seguro de saúde pago pelo governo dos EUA para pacientes idosos – para estudar a associação entre níveis de fosfolípides AGPI n-3 circulantes e a probabilidade de envelhecimento saudável.

O estudo Cardiovascular Health começou com 5.888 pacientes adultos ambulatoriais, recrutados em 1992 e 1993.

Para o presente estudo, após a exclusão de participantes que faleceram, tinham informações incompletas ou não participaram do acompanhamento, 2.522 participantes (média de idade de 74,4 com desvio padrão de 4,8, anos; 63,4% brancos; 10,8% não brancos) foram elegíveis para análise.

Os pesquisadores analisaram os níveis cumulativos de fosfolípides AGPI n-3 no plasma utilizando cromatografia gasosa em 1992 e 1993, em 1998 e 1999, e em 2005 e 2006, expressas na forma de porcentagem do total de ácidos graxos, incluindo o ácido α-linoleico de plantas, EPA, DPA e DHA de frutos do mar.

As informações sociodemográficas coletadas foram: idade, sexo, etnia, local de acompanhamento, educação e renda.

Os fatores adicionais foram: índice de massa corporal, atividade física (excluindo tarefas diárias), pressão arterial, lipídeos, tabagismo, autoavaliação de saúde, história familiar de infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC), hipertensão, drogas para controle de lipídeos, depressão, osteoporose, consumo de álcool e hábitos alimentares.

Novo estudo

Os participantes com maiores níveis de AGPI n-3 de cadeia longa tinham mais chance de ser do sexo feminino, brancos, ter maior renda, maior nível educacional e seguir um estilo de vida mais saudável.

Os pacientes no grupo mais alto consumiram cerca de uma porção diária a mais de peixe quando comparados com o grupo mais baixo.

Ao início do estudo, os níveis de AGPI n-3 eram semelhantes entre os participantes com envelhecimento saudável e os não saudáveis (critério de exclusão).

Durante o acompanhamento de um total de 21.803 pessoas-ano, 89% dos participantes tiveram um envelhecimento não saudável e 11% envelheceram de forma saudável – um desvio positivo, segundo os autores.

Após ajuste de múltiplas variáveis demográficas, de estilo de vida, riscos cardiovasculares, hábitos alimentares e outros ácidos graxos fosfolípides, maiores níveis de AGPI n-3 de cadeia longa foram associados a menor probabilidade de envelhecimento não saudável, apesar do ácido α-linoleico não ter mostrado esta associação.

No geral, os participantes do grupo com o nível mais alto de AGPI n-3 de cadeia longa teve um risco 18% menor de envelhecimento não saudável (IC 95%, 3% a 30%; P = 0,001), comparado com os pacientes com menor nível de AGPI n-3 de cadeia longa.

Quando os AGPI n-3 foram analisados separadamente, observou-se que os grupos com níveis mais altos de EPA ou DPA – mas não de ácido α-linoleico ou DHA – tiveram risco de envelhecimento não saudável menor em 24% (IC de 95%, de 11% a 35%; P < 0,001) e 18% (IC 95%, de 6% a 29%; P = 0,003), respectivamente, em comparação com o grupo de menor nível.

Modelos lineares revelaram que os maiores níveis de AGPI n-3 de cadeia longa, mas não de ácido α-linoleico, estavam consistentemente associados a menor probabilidade de envelhecimento não saudável, com o risco de envelhecimento não saudável diminuindo em 15% (para cada quintil) para EPA (IC 95%, de 6% a 23%), 16%  para DPA (IC 95%, de 5% a 24%), e 18% para AGPI n-3 de cadeia longa total (IC 95%, de 7% a 28%).

Após mais ajustes para potenciais mediadores, o DHA mostrou estar associado com um risco 12% menor para envelhecimento não saudável (IC 95%, de 0% a 23%), enquanto os resultados para os outros AGPI n-3 de cadeia longa permaneceram inalterados.

"Estudos prévios concentraram na relação entre o ômega-3 e os componentes individuais do envelhecimento saudável, mas nenhum os considerou em combinação", explicou Dra. Heidi.

"Nosso estudo traz novas evidências, avançando a pesquisa no campo do envelhecimento", disse.

"A segunda novidade do estudo é o uso de exames de sangue em série, em três pontos do estudo, que capturam a mudança ao longo do tempo, comparado com pesquisas que utilizam apenas uma medida no início".

Nenhuma conclusão sobre suplementação

O Medscape convidou Yeyi Zhu, cientista da divisão de pesquisa da Kaiser Permanente Northern California e professor adjunto assistente do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da University of California, em San Francisco (EUA), para comentar o estudo. Ele não fez parte do grupo de pesquisa.

Yeyi disse que este estudo "dá uma pista sobre a relação dos ácidos graxos ômega-3 provenientes dos frutos do mar e a maior probabilidade de envelhecimento saudável".

O cientista e coautor de um editorial que acompanha a publicação, fez uma ressalva; "Nota-se que o estudo focou nos níveis de ácidos graxos ômega-3 fosfolípides circulantes no plasma; não se pode fazer nenhuma conexão direta em relação à quantidade de alimentos consumidos ou mesmo de suplementos".

Dra. Heidi relatou que pesquisas prévias mostraram que a suplementação com ômega-3 não reduz o risco de doenças cardiovasculares.

Contudo, disse que, "nosso estudo não foi sobre suplementos, em vez disso consideramos os níveis séricos de ômega-3 provenientes de frutos do mar. Descobrimos que altos níveis estão ligados a maior chance de uma vida longa e saudável".

Esta pesquisa recebeu subsídios do National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI). O estudo Cardiovascular Health recebeu subsídios do National Institute of Neurological Disorders and Stroke, com apoio adicional do National Institute of Ageing (NIA).

A Dra. Heidi Lai e o cientista Yeyi Zhu declararam não ter conflitos de interesses relevantes. As declarações dos outros autores constam na publicação original.

BMJ. Publicado on-line em 17 de outubro de 2018. Abstract , Editorial

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....