Sorologia para o diagnóstico precoce da tuberculose pulmonar

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

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29 de outubro de 2018

Estudo publicado em setembro no International Journal of Tuberculosis and Lung Disease [1]mostra que o nível total de imunoglobulina IgG anticardiolipina pode ser útil para complementar os testes bacteriológicos convencionais usados para o diagnóstico rápido de tuberculose pulmonar em adultos.

A pesquisa, desenvolvida no Laboratório Avançado de Saúde Pública (LASP), do Instituto Gonçalo Moniz da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia é, segundo o médico patologista Dr. Sérgio Arruda, subchefe do LASP, parte de um projeto que visa identificar biomarcadores capazes detectar infecções precocemente.

O projeto, desenvolvido pela biomédica Iukary Takenami, sob orientação do Dr. Sérgio, buscou justamente identificar marcadores para detectar a tuberculose na fase de transição da doença, antes do agravamento do quadro. O pesquisador conversou com o Medscape sobre o estudo.

O Dr. Sérgio, explicou que não é possível detectar o bacilo Mycobacterium tuberculosis no escarro em aproximadamente de 40% dos pacientes com tuberculose pulmonar.

"Um dos principais problemas da tuberculose é que, quando ocorre a infecção, ela não causa sintomas; o bacilo começa a crescer, mas os sintomas, tais como tosse e febre, só aparecem quando há lesão pulmonar grave. Quando o paciente tosse, a situação agrava mais, porque dispersa o bacilo no ar e infecta outras pessoas. O diagnóstico precoce é, portanto, de fundamental importância", disse o pesquisador, que também é professor da Universidade Estadual da Bahia e da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública.

A equipe trabalhou com amostras de 37 indivíduos adultos com tuberculose (TB) pulmonar e 48 controles. Nesse último grupo havia 16 contatos domiciliares saudáveis, 19 contatos domiciliares com tuberculose latente e 13 pacientes sem tuberculose, mas com outras doenças pulmonares.

Os autores avaliaram a resposta de anticorpos IgM e a resposta total de anticorpos IgG a cardiolipina, fosfatidilcolina, fosfatidiletanolamina, fosfatidilinositol e sulfatídio nos participantes, e identificaram que os pacientes com tuberculose apresentaram níveis mais altos desses marcadores do que os participantes do grupo controle.

Além disso, a IgG anticardiolipina apresentou o melhor desempenho, com sensibilidade e especificidade de 86,5% e 87,2%, respectivamente. Isso significa que o ensaio de imunoabsorção enzimática (ELISA) IgG anticardiolipina foi capaz de detectar 32 dos 37 pacientes com tuberculose, enquanto a baciloscopia de escarro detectou apenas 24 dos 37 pacientes infectados. A pesquisa mostrou ainda que, após o tratamento, houve diminuição nos níveis de todos os anticorpos antifosfolipídios.

O Dr. Sérgio afirmou que os testes com anticorpos antifosfolipídios não puderam diferenciar os pacientes com tuberculose ativa dos com tuberculose latente, mas permitiu diferenciar os doentes dos saudáveis.

"Hoje em dia, existem testes para determinar se uma pessoa está infectada pelo bacilo M. tuberculosis: a prova tuberculínica (PPD) e o teste de liberação de interferon gama (IGRA, do inglês Interferon Gamma Release Assay). O problema é o desabastecimento do primeiro, que não está sendo mais produzido, e o segundo, além de ser feito em duas etapas, é caro", disse o médico.

Em outras doenças, como as hepatites virais, por exemplo, é possível utilizar sorologias para detectar a infecção, permitindo o início do tratamento precocemente. Na tuberculose, segundo o médico, geralmente o diagnóstico é feito tardiamente e o tratamento, iniciado depois do surgimento da lesão.

Anticorpos antifosfolipídios

A hipótese dos autores é que, ao colonizar o pulmão, o bacilo da tuberculose promove morte celular maciça e, durante esse processo, ocorre liberação de fosfolipídios que antes estavam organizados nas membranas celulares. O sistema imunitário do paciente identificaria esses fosfolipídios como antígenos, passando a produzir autoanticorpos.

A cardiolipina é um glicerolfosfolipídio encontrado na membrana interna da mitocôndria, e existe em várias bactérias. Os testes não treponêmicos, usados no diagnóstico de sífilis, por exemplo, também detectam a produção de anticorpos IgG e IgM anticardiolipina. Segundo o Dr. Sérgio, "uma resposta cruzada é possível, mas, como o diagnóstico é apoiado também no exame clínico e na anamnese do paciente, nesse caso, como os sinais e sintomas de sífilis são bem distintos dos de tuberculose, provavelmente não haveria confusão".

Atualmente, a equipe trabalha no isolamento de fosfolipídios da parede celular bacteriana. Os estudos são feitos com tuberculose, mas também com outras doenças, entre elas a hanseníase.

"Há muita semelhança genômica entre o Mycobacterium leprae e o M. tuberculosis, por isso estamos trabalhando em biomarcadores para as duas doenças. Atualmente, não existe nenhum teste para saber se o paciente está infectado pelo M. leprae, assim, se tivermos um bom teste para a infecção, podemos antecipar ou buscar lesões de pele insuspeitas", afirmou o médico.

No caso da hanseníase, os autores investigam a Mce1A, que é uma proteína transportadora de lipídios. O M. leprae tem um gene que codifica a expressão dessa proteína na superfície das células de mamíferos. O grupo estuda se o sistema imunitário do hospedeiro consegue detectar a proteína Mce1A e gerar resposta a partir da produção de anticorpos. Resultados do artigo publicados no ano passado mostraram que a hipótese parece estar correta. O estudo transverso com 89 voluntários, sendo 55 casos de hanseníase, 12 contatos domiciliares e 22 controles endêmicos, revelou que a detecção de IgG comparada a Mce1A é uma ferramenta viável, fácil e de baixo custo para o rastreamento da hanseníase. [2]

No entanto, o Dr. Sérgio destacou que no Brasil existe uma grande dificuldade de transpor as barreiras da academia: "a indústria está muito presente nos outros países; é comum as empresas buscarem pesquisas e investirem para transformar os achados em produtos comerciais, mas, no Brasil, não há essa dinâmica", lamentou e explicou que "este é um dos fatores que atrasa a incorporação das inovações à prática clínica".

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